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A maldição de Mapplethorpe: Serralves nega censura

Robert Mapllethorpe, "Self Portrait", 1980

ROBERT MAPPLETHORPE FOUNDATION

Direção do museu e diretor demissionário contradizem-se e apresentam versões diferentes quanto à existência, ou não, de salas de acesso reservado para apresentação de algumas obras do fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe. E houve censura em Serralves?

Correram as mais desencontradas versões nas últimas horas sobre as verdadeiras razões para a decisão de João Ribas de se demitir do cargo de diretor do Museu de Serralves. Houve quem falasse de censura a algumas obras e quem preferisse destacar a colocação de restrições a menores de 18 anos no acesso a algumas salas, o que teria constituído uma desautorização do diretor do Museu.

Embora os protagonistas permaneçam incontactáveis, a administração da Fundação de Serralves divulgou um comunicado através do qual garante que as 159 obras de Mapplethorpe integrantes da exposição são as “escolhidas pelo curador da exposição”, João Ribas. Ou seja, “a administração de Serralves não retirou nenhuma obra da exposição”, garante o comunicado.

Este não deixa de ser um ponto crucial, sobretudo se for tido em conta o sucedido durante a apresentação da mostra no final da manhã da última quinta-feira. Durante uma visita guiada por João Ribas, na qual participaram ainda Michael Ward Stout, presidente da Fundação Robert Mapplethorpe, e Ana Pinho, presidente do CA da Fundação de Serralves, o diretor do Museu sublinhou ter sido ele próprio a escolher nos EUA quase 200 imagens entre o imenso espólio do fotografo. Na altura, a informação oficial disponibilizada aos jornalistas referia que estariam em exibição 179 imagens, o que em nenhum momento foi corrigido ou desmentido por qualquer dos responsáveis presentes.

Este é um dado no mínimo estranho e susceptível de permitir várias leituras. Por um lado, pode admitir-se que naquele momento, e por a exposição ainda não estar completamente montada, nenhuma questão teria ainda sido colocada quanto às obras a mostrar. Depois começam as leituras das quais ninguém sai bem na fotografia. Se naquele momento estava já tomada alguma decisão de excluir vinte imagens pertencentes a diferentes fases de Mapplethorpe, nem todas necessariamente marcadas por teor sexual, João Ribas teria sido conivente com a alegada censura ao, mesmo assim, avançar com a visita guiada sem deixar qualquer sinal sobre o que poderia estar a passar-se. Se, por outro lado, ainda nada lhe tinha sido dito e as vinte obras acabam por ser retiradas posteriormente, e se isso aconteceu por motivos alheios à vontade ou à estrutura expositiva pensada pelo diretor, então seria administração de Serralves a ter de dar muitas explicações sobre o que configuraria um claro ato de censura num museu de arte contemporânea.

O Expresso sabe que esta retrospetiva de uma obra que, além de flores, naturezas mortas, autorretratos, retratos de famosos e desconhecidos, inclui uma imensidão de corpos nus e dezenas de imagens sadomasoquistas que desencadearam polémica mal foram mostradas pela primeira vez em galerias de Nova Iorque, nos anos de 1980, começou a ser pensada ainda durante o mandato de Suzanne Cotter, última diretora do Museu. Ao que o Expresso apurou, desde sempre, logo a partir dos primeiros momentos em que a exposição começou a ser pensada, terá ficado estabelecida a existência de uma área reservada.

De resto, durante a apresentação à imprensa, com a presença de inúmeros jornalistas portugueses e estrangeiros, era já visível, no acesso a uma das áreas do Museu, o alerta “para a dimensão provocatória e o caráter eventualmente chocante da sexualidade contida em algumas obras expostas. A admissão nesta sala está reservada a maiores de 18 anos”. Ninguém, na altura, questionou o teor ou a própria existência do aviso.

Serralves justifica esta opção com a circunstância de ser uma instituição “visitada anualmente por quase um milhão de pessoas de todas as origens, idades e nacionalidades, incluindo milhares de crianças e centenas de escolas”. Nesse sentido, prossegue o comunicado, “a Fundação considerou que o público visitante deveria ser alertado para esse efeito, de acordo com a legislação em vigor”.

A maldição de Mapplethorpe

João Ribas, que tem permanecido incontactável e só na próxima segunda-feira deverá apresentar pessoalmente as suas razões à administração de Serralves, fez apenas saber que reserva para mais tarde uma detalhada explicação sobre os motivos desta demissão. Sabe-se, apenas, que na passada semana tinha afirmado ao jornal Público que na retrospetiva de Serralves, e ao contrário do que tem sucedido noutros locais, não haveria “censura, obras tapadas, salas especiais ou qualquer tipo de restrição a visitantes de acordo com a faixa etária”.

Ora, a ser rigorosa a afirmação contida no comunicado da administração de Serralves, de que estaria assente de início a existência de uma área reservada, é fácil de ver a existência de um choque de vontades e interpretações sobre o modo como a exposição deveria ser apresentada ao público, o que poderá ter contribuído para o adensar de um mau ambiente entre as partes.

A situação criada está marcada por demasiados tons de cinzento a fugir para o negro. Há muito por esclarecer, e isso passará por perceber se o episódio agora sucedido não terá sido apenas a gota de água numa relação que poderia estar a degradar-se, apesar de Ribas ainda nem há um ano estar à frente do Museu.

Não deixa de ser extraordinário constar como, quase 30 anos após a morte de Mapplethorpe, vítima de Sida, as imagens da polémica constituem, afinal, apenas um fragmento da extensa obra de um incansável artista. Em toda a sua vida não terá dedicado mais de ano e meio à produção de fotografias com um conteúdo sadomasoquista. Os nus, quase sempre de negros, que povoam muitas das suas imagens, são, antes de mais, uma celebração do corpo, do corpo negro em particular, durante séculos arredado da história da arte. No entanto, essa produçãoo concentrada num escasso tempo de vida continua a funcionar como uma espécie de maldição. Abafa todo o restante trabalho, em particular as belíssimas imagens de flores e naturezas mortas compostas com extremo rigor e precisão por Robert Mapplethorpe.