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A fotografia é uma arte

Robert Mapllethorpe, "Self Portrait", 1983

Robert Mapplethorpe Foundation

Pela primeira vez em Portugal, Serralves apresenta uma grande retrospetiva da obra do fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe, um dos mais icónicos, perturbadores e polémicos artistas da segunda metade do século XX

Um pénis ereto ladeado por uma pistola. Ocupam o mesmo plano visual e ao sugerirem uma ideia de espelho constroem uma metáfora dos múltiplos poderes associados ao que pode ser visto como duas máquinas de violência. Na verdade eram assim entendidas, em particular quando o pénis ereto emana de um corpo negro. É uma das imagens fortes contidas na exposição “Robert Mapplethorpe: Pictures”, que inaugurou esta quinta-feira no Museu de Serralves. É a primeira dedicada em Portugal à produção daquele artista norte-america nascido em Nova Iorque em 1946 e falecido em Boston em 1989.

João Ribas, diretor do Museu de Serralves e curador da mostra concebida em colaboração com a Robert Mapplethorpe Foundation, chamava a atenção, durante uma visita guiada às 170 obras expostas, para o extremo rigor posto na composição das imagens, independentemente do seu conteúdo. Sejam flores, o rosto de Patti Smith, corpos negros sublimados pelo extremo cuidado com que são desnudados perante a lente do fotógrafo que sempre cuidou de elevar a fotografia à condição de arte.

Não há um circuito expositivo definido para esta exposição que começa com trabalhos do final dos anos de 1960 e termina com fotografias feitas nos últimos dias de vida de Robert Mapplethorpe, a quem foi diagnosticada SIDA em meados dos anos de 1980. Morreu em março de 1989.

Obcecado pela geometria e pela composição, “nada no seu trabalho é casual”, diz João Ribas. Isso percebe-se num percurso longo feito, no essencial, de fotografias a preto e branco. Uma das primeiras imagens é a foto de Patti Smith que vai depois dar origem à capa do seu primeiro álbum, “Horses”, datado de 1975. A cantora tinha uma relação próxima com o fotógrafo e, por isso, outras capas se seguiram, como as de Wave” (1979) e “Dream of Life” (1988). O mesmo sucedeu com Laurie Andersen e o seu “Strange Angels”, Philip Glass e “Songs from Liquid Days”, ou ainda os Television e o seu “Marquee Moon”. Todos estes álbuns podem ser vistos em Serralves.

O que sobressai de um modo absoluto nesta exposição é a presença do corpo. Do corpo negro. Do corpo sexuado. Do corpo visto não de uma forma “heterenormativa”, como diz João Ribas, mas daquele corpo que não está representado na história da arte, nem da fotografia e tem sido sujeito, ao longo dos tempos, de duplas violências: repressivas e sociais.

O negro visto como uma ameaça

O negro era, ainda é, visto como uma ameaça. Por exemplo, a ameaça de desejo, o que levava a que, recordou o diretor do Museu, muitos negros tivessem sido mortos ou torturados, apenas por terem olhado ou assobiado para uma mulher branca.

Esta temática tem uma presença avassaladora na obra de Robert Mapplethorpe, que sempre se preocupou com uma dicotomia que expressava uma grande agressividade perante o outro. O diferente.

No final da vida, quando estava já doente, Mapplethorpe fotografou muitas flores. Porém, o que fica de um eventual circuito que termina no corredor onde é projetada uma sessão de fotografia com Patti Smith é, mais uma vez, a glorificação do corpo negro. Ao lado de figuras brancas, esbeltas, mas associadas a divindades gregas, a fotografia de um homem. Não é apenas um homem. É um homem, e negro.

A exposição estará patente até 6 de janeiro. Até lá, serão organizadas várias iniciativas paralelas, a começar já este sábado, a partir das 11h30, com uma visita guiada por Michael Ward Stout, presidente do Conselho de Administração da Fundação Robert Mapplethorpe e João Ribas. No dia 29 deste mês, sábado, às 17h, realiza-se a conferência “Mapplethorpe e Michelamgelo: a arte da renascença encontra o mundo moderno”, com Jonathan Nelson, professor associado de História de Arte na Universidade de Syracuse, em Florença.