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A reunião de condomínio de um “Imóvel” onde alastra a fissura dos 40

Susana Neves

A peça “Imóvel” marca o arranque da temporada do Teatro São João e leva o público até uma reunião de condomínio, num velho prédio da cidade do Porto, onde a solidão habita e a cidadania pode desabar a qualquer momento

“Meus senhores, vamos lá ver se a gente despachamos isto”. Ordem de trabalhos, ponto único: obras. Três habitantes de um prédio degradado, encontram-se, à noite, para uma reunião de condomínio, num espaço apenas ornamentado pela ruína. Ali vivem, cada um para seu canto, na fissura dos 40, um hipster, uma investigadora científica e uma psicóloga esotérica. As infiltrações de água no telhado servem de ponto de partida, como uma janela aberta a permitir a propagação de uma humidade letárgica, espalhada pelas brechas nas paredes de uma sociedade onde a tinta da cidadania há muito se esbateu. Há a sensação de que tudo pode desabar internamente, quando os alicerces coletivos são tão débeis e os dias se projetam na penumbra do caos interior, habitado pela solidão e pela incompreensão do outro.

Está aberta a porta para este “Imóvel”, espetáculo dirigido por Hugo Cruz e com texto de Regina Guimarães, de portas abertas para o vazio comunicacional existente na linguagem, com vista para a individualidade instalada na vivência urbana, da qual foram varridos os momentos de partilha, deixando a decadência das utopias exposta ao pó de uma cosmopolita desumanização pós-moderna. A coprodução da companhia “Nómada” e do Teatro Nacional São João, transportada para fora dos palcos convencionais e apresentada na velha sala de um prédio situado na Rua Mártires da Liberdade, no Porto, estreia esta quarta-feira e pode ser vista até domingo, marcando o arranque da temporada do TNSJ.

Cai o pano e a fachada do contrato social. A vetusta sala de reuniões transforma-se numa assembleia disfuncional para três vizinhos. Proximamente distantes. Perfeitos desconhecidos. Unânimes na discordância. Ferozes na intriga. Exímios quando esgrimem ataques pessoais, entregues a uma existência individualista, com um espírito coletivo há muito fechado para obras. “Os espaços coletivos na nossa vida são cada vez menos e, provavelmente, estas reuniões são o único momento de partilha que estas personagens têm na vida”, salienta o encenador Hugo Cruz.

Susana Neves

“Imóvel” promove uma “viagem pelo universo individual de cada um”, onde uma “espécie de nevoeiro se instala”, acrescenta o responsável artístico, no final de um dos ensaios. “As três personagens são muito humanas e desequilibradas, porque ser humano é ser desequilibrado, ao contrário daquilo que nos tentam vender constantentemente”, frisa o criador de um espetáculo concebido através de um processo participativo.

A escritora Regina Guimarães enaltece, por sua vez, a pungência patente na dramaturgia. “O que é mais violento é que estas pessoas falam, mas não têm nada para dizer umas às outras. A maior violência é essa: o descalabro da linguagem, que se assume como um abismo e como uma derradeira forma de máscara”.

A peça, dividida em três blocos e com duração aproximada de 60 minutos, é acolhida e levada à cena num pequeno espaço - com capacidade para 50 espectadores - cedido gratuitamente pela associação CAIS, responsável por prestar apoio a pessoas sem-abrigo. “Imóvel” destina-se a maiores de 12 anos e pode ser visto entre quarta e sexta-feira, às 21h; no sábado, pelas 19h, bem como às 16h de domingo.