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A leitura de “O Carisma de Hitler” é compulsiva, pedagógica, rigorosa e séria

D.R.

Pode a personalidade de alguém, ainda que com características negativas, influenciar o destino de muitos? A questão é abordada e, em certa medida, respondida, por um dos mais notáveis historiadores britânicos e remete-nos para os perigos presentes, ontem como hoje, no excesso de credulidade quando nos submetemos (sempre que nos submetemos) ao poder da persuasão

Reinaldo Serrano

A História, com a maiúscula que lhe confere estatuto na exata medida em que a isola da narrativa ficcionada, está repleta (quando não plena) de exemplos que tendem a olhar para os desígnios de um povo mais em função da sua liderança do que do papel real (e determinante) que um povo tem na construção dos seus próprios desígnios. A questão é tanto mais relevante quanto os povos em análise tenham, na sua génese, um regime que permite eleições e, por via delas, a existência de eleitos. Dito de outra forma: há uma tendência generalizada (mesmo entre historiadores ou “opinion makers”) para ilibar o papel que os povos (que o povo) têm na construção dos edifícios da sua própria estrutura social e política.

Este raciocínio (tão válido e tão contestável como qualquer outro) resulta de uma observação genérica de factos históricos e das “lições” que a própria História nos tem transmitido. Não por acaso, surgem ciclicamente interrogações relativas ao modo como inúmeros personagens históricos conduziram os destinos dos respetivos países, eventualmente negligenciando o papel que o povo teve nessa mesma liderança. Sabe-se hoje, melhor do que ontem, que Josip “Broz” Tito manteve unida a antiga Jugoslávia, ainda que a custo de muitas liberdades cerceadas, perseguições e um apertado controlo por parte de um forte aparelho do Estado, comum aos países satélites da antiga União Soviética. Outros exemplos surgem sem esforço quando pensamos em Mussolini, Ceausescu, Idi Amin, etc..., sendo certo que os nomes supracitados têm como denominador comum o autoritarismo que, pela sua própria génese, não permite laivos de contestação.

Aqui emerge uma outra questão que é, na verdade, aquela que dita o cerne desta crónica: o carisma e o modo como a personalidade de alguém pode ser invocada, em parte, como justificação para o exercício do poder, ocorra ele em regimes não totalitários ou em regimes autocráticos. O carisma aplica-se não apenas ao tradicional universo político mas, transcendendo-o, surge de forma natural quando aplicada a nomes como Jim Jones ou David Koresh – ambos protagonistas de massacres: o primeiro na Jamaica em 1978, o segundo no Texas em 1993. Nos dois casos as autoridades interrogaram-se a dois níveis: como foi possível tanta gente ter aderido a cada uma das seitas e, a pergunta mais importante, porque não conseguiram escapar da tragédia que sobre elas se abateu, muitas delas vítimas de um suicídio em massa? Os perfis de Jones e Koresh indiciavam que o carisma de ambos, aliado à capacidade de persuasão rapidamente transformada em crença e fervoroso seguidismo em muito contribuíram para os dramas então vividos.

Este lado negro do fascínio que alguém exerce sobre outrem é particularmente relevante num apurado ensaio agora publicado referente a uma das figuras mais controversas e odiadas da História: Adolf Hitler. Justamente sob o título “O Carisma de Hitler” (“The Dark Charisma of Adolf Hitler”, no original), o livro editado lá fora em 2012 e que em junho deste ano teve a primeira edição nacional é um retrato extraordinário do trajeto de sedução encetado por Hitler, capaz de mobilizar as mais diversas franjas da sociedade germânica dos anos 30 e 40 do século XX e ao qual muitos ainda prestam tributo no século XXI.

Laurence Rees é o autor deste estudo e, se o nome não diz tudo, diz muito: aos 61 anos, o historiador britânico permanece como uma autoridade mundial em temas relacionados com a II Guerra Mundial. Das várias adaptações para televisão de obras suas permito-me destacar “The Nazis: A Warning from History” (1997), “Auschwitz: The Nazis and the Final Solution” (2005) e “World War II Behind Closed Doors: Stalin, the Nazis and the West” (2008), além deste título que agora conheceu edição portuguesa.

A leitura é compulsiva, pedagógica, rigorosa e séria, e os dados da sólida narrativa são de tal forma assombrosos que nos envolvem para os meandros da mente de um homem que parecia talhado para coisa nenhuma mas que, graças ao seu negro carisma, foi durante anos a maior ameaça à humanidade. Ler “O Carisma de Hitler” é perceber como um ser antissocial, de mal com a vida, introvertido e medíocre, acabaria por construir um império com o apoio extasiado de milhões de compatriotas e outros tantos apoiantes fora do seu território natal.

Mais do que uma narrativa de factos, mais do que completas e surpreendentes descrições de uma personalidade retorcida e pérfida, o livro é um retrato sem reticência do que é simultaneamente o poder e as limitações da condição humana e do modo como esta pode conduzir à mais profunda desumanidade. A ler e a refletir sem hesitação.