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In-Q: “Acredito mesmo na poesia. Sinto-a até aos ossos”

DANIEL JOHNSON

Campeão norte-americano de slam poetry, tornou-se um fenómeno na internet, com poemas seus a alcançarem milhões de partilhas. A poucos dias de se estrear em Portugal, defende que a poesia dita pode conquistar um espaço na cultura de massas

Californiano de 40 anos, Adam Schmalholz é mais conhecido pelo nome artístico: In-Q, abreviatura de “In Question”. Isto porque os seus poemas, filiados na corrente da spoken word (poesia dita em voz alta, com um certo ritmo), procuram “questionar tudo” — a vida, o amor, a política, a “procura da felicidade”. O YouTube levou-o a públicos cada vez mais vastos e a uma presença crescente no espaço mediático. Já atuou para Hillary Clinton e Barack Obama, faz parte de uma lista de pessoas criativas escolhidas por Oprah Winfrey, e foi o primeiro poeta a atuar num espetáculo do Cirque du Soleil. Na próxima semana, participará em Lisboa no encontro ‘O Trabalho Dá que Pensar’, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, entre os dias 14 e 16, no Jardim Botânico Tropical, em Belém.

Como é que descobriu a poesia enquanto meio de expressão?
Comecei por fazer rap, quando andava no liceu. Estava fascinado por aquela forma de arte, usava-a para meditar sobre os meus assuntos e problemas. Sempre adorei as palavras. Gosto de trabalhar o ritmo, a forma de as dizer. Isso tornou-se quase uma obsessão para mim. E então, aos 19 anos, descobri em Los Angeles um lugar que tinha um open mic, chamado Da Poetry Lounge. Integrei-me naquela comunidade, comecei a fazer rap sem música (rap a capella), e o meu percurso ganhou vida própria a partir daí. Acabei por me tornar campeão nacional de Slam Poetry, participar num programa da HBO, entrar no mundo da escrita de canções, e prosseguir uma carreira como poeta.

De que forma é que os factos da sua vida pessoal, como o ter sido criado por uma mãe solteira, influenciaram a sua escrita?
Para mim, a arte tem tudo que ver com alquimia. Todas as experiências dolorosas que vivi durante o meu processo de crescimento foram canalizadas para a minha escrita e acho que transformei muita da escuridão em luz. O que é belo na arte é que as outras pessoas olhem para o que fazemos como um espelho, e consigam relacionar o que veem ou ouvem com as suas próprias vidas. E assim pode haver uma espécie de cura, para uns como para outros.

Esse processo ajudou-o a encontrar o seu lugar no mundo?
Absolutamente. E ainda ajuda. Não se trata de não ter problemas, mas sim da forma como lidamos com eles. Cabe-nos tentar que o mundo seja um lugar melhor para os outros e para nós mesmos.

Nestes tempos difíceis que vivemos, qual pode ser a importância da poesia?
Pode ser importante se conseguirmos contar histórias de forma honesta, histórias com as quais as outras pessoas possam empatizar, sentindo-se inspiradas por elas. Acho que a empatia é aquilo de que mais necessitamos. Porque no fundo todos queremos as mesmas coisas: amor, felicidade, segurança, a possibilidade de seguirmos os nossos sonhos, liberdade. Para mim, é muito importante colocar estas mensagens na minha poesia. E tentar que as pessoas se sintam menos sós.

Um poema pode mudar a vida de alguém?
Sem dúvida nenhuma. Espero sempre que uma pessoa, ao sentir-se tocada por um poema, consiga fazer verdadeiras mudanças na sua vida, no sentido de criar uma melhor realidade para si mesma e para os outros.

Como é ser poeta na América de Donald Trump?
Primeiro que tudo, não é a América de Trump. Recuso essa ideia. Acho que vivemos tempos muito complexos, em que a verdade está continuamente a ser posta em causa. E por isso é preciso que as pessoas gritem as suas verdades tão alto quanto possam. E em todos os lugares. Eu estou só a tentar juntar a minha voz ao coro de vozes que tentam defender a verdade. Acho que há também uma intenção de dividir os americanos. E a arte, pelo contrário, deve juntar as pessoas.

Tem escrito sobre a importância do amor nas nossas vidas, mas também sobre as alterações climáticas e os problemas relacionados com as armas de fogo. Como é que escolhe os temas dos seus poemas?
Seria poético dizer que me surgem por acaso. Mas na verdade depende. Por vezes, há um tema que me apaixona e sobre o qual quero muito escrever, e então procuro o ângulo certo que me permita começar o poema. Se começar o poema com algo que é verdadeiro e honesto, o resto do poema escreve-se por si mesmo, basta esperar. Outras vezes escolho o assunto e encontro o ângulo e espero o tempo suficiente, mas entretanto ando pelo mundo e presto atenção ao que se passa à minha volta, e alguma coisa comove-me e faz-me ver tudo de outra maneira. Tento estar atento a esses momentos. Gosto muito dessa imprevisibilidade.

Quando é que sabe que o poema está terminado?
Acho que li algures uma pergunta semelhante: quando é que sabes que acabaste de fazer amor? Sabes quando sabes. E, para ser honesto, o poema nunca está terminado. Pode sempre mudar. Porque a tua vida e as tuas experiências também mudam, a tua perspetiva altera-se. Quando volto a poemas que escrevi há dez anos, troco palavras e reescrevo alguns versos.

Há muitos artistas de spoken word que não têm o seu sucesso. O que é que o In-Q tem que eles não têm?
Honestamente, não posso responder a isso. Todos estamos nas nossas próprias jornadas. E acho que muitos dos poetas que estão a trabalhar agora vão acabar por ter, e aproveitar, as suas oportunidades. Não me interessa o meu sucesso. Interessa-me o sucesso da poesia como género, porque acredito nela. Espero ansiosamente que chegue cada vez a mais gente, no campo da cultura popular.

Curiosamente, nunca publicou um livro. Porquê? Considera-se um poeta estritamente oral?
É engraçado que me pergunte isso, porque estou neste preciso momento a preparar um livro, que será lançado em 2019. Só não aconteceu antes porque a oportunidade nunca surgiu. Agora é o momento certo.

Uma das atividades remuneradas a que se dedica consiste em fazer discursos e workshops para grandes empresas, como Google, Facebook, Nike ou IBM. Isso não compromete a liberdade do poeta para questionar tudo?
Eu tento fazer aparições que sejam divertidas, inspiradoras e desafiantes. E faço-o em frente a um microfone numa sala pequena, entre amigos, como num teatro com 1500 pessoas, a convite de uma grande empresa. Incluo sempre material que leve o público a pensar na realidade como um todo. Contratam-me, mas não põem limites ao que posso ou não posso dizer. Eu decido sempre o que faço. Nunca comprometo os meus princípios. E se houver um trabalho que ponha em causa a minha integridade, recuso-o.

Até onde acha que pode chegar?
O céu é o limite. As possibilidades são infinitas. Eu acredito mesmo na poesia. Sinto-a até aos ossos. E acho que pode tornar-se um género tão importante como a comédia ou a música. Não há limites para o que um poeta pode ser na cultura popular. Houve poetas espantosos, como Maya Angelou ou Leonard Cohen, que tiveram sucesso já tarde nas suas vidas. Não vejo porque não poderemos ter um poeta superstar com 60 e tal anos.

Em Portugal, vai participar numa sessão sobre a “Corrida entre o Homem e as Máquinas”. A sua intervenção assumirá a forma de um poema?
Sim, mas não só. Haverá poemas, interação com o público, contarei histórias, farei perguntas, e espero que toda a gente acabe a sessão sentindo-se inspirado. O tema que vou tratar sempre me interessou. À medida que a tecnologia avança, os empregos tenderão a desaparecer. E onde é que isso nos deixa, como povos e países, como Humanidade? O que acontecerá quando esses empregos se extinguirem?

Talvez possamos tornar-nos todos poetas.
Sim. Exatamente. [Risos] Sabe que mais: essa devia ser a minha tese. Quando o trabalho acabar, vamos todos ser poetas.