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Binoche na “fuckbox”

Juliette Binoche e Robert Pattinson em “High Life”, de Claire Denis

“High Life”, ficção científica de Claire Denis, é o momento de fratura de Toronto 2018 – e não haverá outro assim

Na história do cinema, sobretudo na dos últimos anos, são raríssimas as vezes em que pudemos dizer que, de certo filme, brotou alguma coisa de verdadeiramente novo, algo de nunca sondado, e por isso de nunca visto. “High Life”, o novo filme de Claire Denis, o seu primeiro rodado nos EUA, em inglês, com atores de Hollywood, projeto há muito desejado pela cineasta francesa, apareceu-nos em Toronto com um rasgo e uma fortuna que, de facto, nunca foram tentados; é filme para pegar ou largar, e com reações extremas a condizer: houve quem tivesse escrito que saiu a meio com vontade de vomitar, houve também, como a “Variety”, a “IndieWire”, ou o tão suspeito “The Guardian”, quem avançasse imediatamente para a obra-prima (“my first five star review ever”, disse ao Expresso, a propósito, um radioso Robert Pattinson).

Estamos num filme de estúdio, numa ficção científica, já se disse. Um cargueiro espacial que, ouve-se depois, é um “first class suicide mission ritual” — no fundo, um cargueiro que é uma prisão — já saiu do sistema solar em direção ao buraco negro mais próximo. Não se sabe em que ano estamos nem o porquê de tal “missão” e de tal “ritual” em tão incógnito tempo, sabe-se só que a coisa é para durar uma vida inteira. Quando o filme arranca, encontramos Monte (Pattinson) e uma bebé de um ano que nasceu a bordo e que está a começar a dar os seus primeiros passos, algures no longínquo espaço sideral. No primeiro flashback do filme, a cineasta de “Beau Travail” e “Trouble Every Day”, ela que jamais nos deu de barato os seus segredos (e aqui ainda menos), sugere que Monte terá conseguido desembaraçar-se dos seus companheiros a meio da viagem suicida. Acontece que esse flashback é um salto infernal para aquilo que Monte acabou de experimentar e de superar. Algures naquele futuro, cientistas começaram a fazer experiências sexuais no espaço com condenados à morte. Monte é um deles. Na nave, a liderar as operações, há uma médica louca com um longo cabelo de Rapunzel, Dibs (Juliette Binoche), obcecada por sexo, fluidos corporais, inseminações artificias e pela conceção de um ser humano no espaço que, de facto, é conseguida (a bebé que vimos antes é fruto dessa experiência). Aparentemente, só Dibs sabe que a viagem é um bilhete sem regresso para o abismo, a menos que a energia do buraco negro de destino tudo inverta e permita recomeçar um novo ciclo — ou talvez não, porque “High Life”, aviso à navegação, tem uma qualidade preciosa: não é ‘filme que se explique’. Claire Denis está claramente mais interessada no que se passa a meio da viagem — e na interação dos corpos — do que na sua conclusão (com uma nova canção de Stuart A. Staples). O ritmo é hipnótico, dolente, ameaçador, por vezes hiperviolento, e a nave um cerco, um espaço de severo isolamento que, dentro de si, possui outro em que só o desejo selvagem conta. É uma divisão da nave em que Dibs satisfaz os seus desejos, Claire chamou-lhe a “fuckbox”. Dentro dela, Binoche dar-nos-á uma performance de antologia, e voltamos à mesma tecla, a uma expressão máxima de desejo e em simultâneo de desespero que, lá está, é coisa nunca vista.

Ser humano, o que significa — pergunta-nos, no fundo, este filme a que Claire chamou “High Life” por causa da homónima música funky africana, sobretudo nigeriana, que foi a música da sua adolescência (“... and it was so wild...”). A meio da conversa, falámos com a cineasta de fantasmas da humanidade. Também de Deleuze, da sua “ilha deserta” (“L’Île déserte et autres textes (1953-1974)”, da experiência dos encontros como momentos de fratura na vida (tão caros a Deleuze), de uma vitalidade filosófica e política. Para já, ficamos por aqui. Acabámos de ver “High Life” e este já é o filme que queremos rever, a todo o custo, o mais depressa possível, sabe-se lá onde (a NOS há de estreá-lo nas salas, lá mais para o fim do ano).

Outros cineastas já tentaram a sua sorte em Toronto, outros ainda virão à data em que escrevemos (o festival só acaba amanhã). Steve McQueen tentou o seu heist movie em Chicago e dá a Viola Davis um bom papel em “Widows” (uma das três viúvas que tentam dar um golpe para vingar a morte e pagar a dívida dos seus companheiros assaltantes), só que o thriller em si perde-se em twists, cai na confusão, fica muito longe, a anos-luz mesmo, daquela que terá sido a referência maior para McQueen: “Heat”, de Michael Mann. Desilusão, também, com o policial psicológico que o irlandês Neil Jordan, ele que há anos não filmava, rodou com Isabelle Huppert em “Greta”, ela na pele de uma húngara psicopata em Nova Iorque. Mais virá de “The Fall of American Empire”, do renascido Denys Arcand, do desastre que é “The Death and Life of John F. Donovan”, de Xavier Dolan, também, entre outros, de “If Beale Street Could Talk” (Barry Jenkins) e de “Beautiful Boy” (Felix Van Groeningen), estreias mundiais em Toronto que têm encontro marcado com os Óscares.