Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A pílula da felicidade

FOTO Michele K. Short / Netflix

Cary Joji Fukunaga regressa às séries de televisão com nomes de peso no elenco
 e um argumento criado com ajuda de algoritmos. Emma Stone e Jonah Hill protagonizam “Maniac”, com estreia marcada para sexta-feira no Netflix

Dois estranhos, cada um deles com os seus problemas. E um ensaio clínico invulgar, que promete pôr termo a todo o sofrimento mas que tem tudo para trazer novos dissabores à vida daqueles que a ele se submeterem. Explorar as emoções das cobaias com recurso a medicação, de modo a livrá-las de determinado trauma, pode parecer boa ideia, mas rapidamente se percebe que não é. Será demasiado tarde?

A ideia de “Maniac” é simples e a série nem é inteiramente nova (é parcialmente baseada numa produção norueguesa com o mesmo nome), mas isso não está a baixar as expectativas quanto ao novo projeto de Cary Joji Fukunaga. Os nomes envolvidos dão uma ajuda preciosa. Depois do filme “The Favourite”, de Yorgos Lanthimos e estreado no Festival de Veneza (vencedor do Grande Prémio do Júri), Emma Stone apresenta-se agora como estrela maior de “Maniac”, lado a lado com Jonah Hill. E esta é mesmo a primeira vez que a atriz, vencedora de um Óscar por “La La Land — Melodia de Amor”, se rende a um projeto televisivo.

As primeiras imagens da série, com estreia marcada para esta semana, deixam antever uma produção que cruza ambientes bastante distintos. Às cores saturadas do interior de um laboratório juntam-se os tons mais acinzentados da cidade de Nova Iorque, onde a ação se desenrola

As primeiras imagens da série, com estreia marcada para esta semana, deixam antever uma produção que cruza ambientes bastante distintos. Às cores saturadas do interior de um laboratório juntam-se os tons mais acinzentados da cidade de Nova Iorque, onde a ação se desenrola

O sucesso alcançado na última década levou Stone a confiar também na intuição e foi com base em duas pequenas coisas que tomou a decisão de se dedicar a “Maniac”. O facto de a série falar “sobre pessoas que têm as suas próprias lutas internas e que estão a tentar resolvê-las com um comprimido” chamou-lhe a atenção, confessou em entrevista à amiga Jennifer Lawrence, e o facto de se ver “ao longo da série que a conexão humana e o amor são as únicas coisas que sustentam a vida”, acabou por tomá-la. Depois foi a presença de Jonah Hill, com quem contracenou pela primeira vez em “Superbad” há 11 anos, que a fez ter a certeza de que esta era a mesmo a decisão mais acertada.

A Emma Stone e Jonah Hill juntam-se nomes como Julia Garner, Sally Field e Sonoya Mizuno no leque de atores escolhidos para “Maniac", mas claro que não basta ter um elenco recheado de estrelas para vencer e Fukunaga sabe disso como poucos. Nos últimos anos, e embora tenha sido considerado a voz de uma nova geração, não teve vida fácil e foram vários os projetos de que foi afastado ou que não seguiram o seu rumo até ao final. Depois da primeira e mais aclamada temporada de “True Detective” — realizou o episódio quatro, onde acontece uma célebre cena de seis minutos sem cortes protagonizada por Matthew McConaughey, que valeu ao realizador um Emmy — e do aplaudido filme “Beasts of No Nation”, a sua carreira teve alguns momentos menos felizes e só agora parece estar a recompor-se. Estava escalado para realizar “It”, mas acabou por sair em desacordo com os produtores e deixar a sua marca apenas no argumento (foi Andy Muschietti a dar corpo à longa-metragem). O mesmo terá acontecido com a série “The Alienist”.

Também “Maniac” passou por momentos de indecisão. A três meses de se iniciarem as filmagens, Fukunaga e o coargumentista Patrick Sommerville (de “The Leftovers) decidiram rasgar metade do guião e voltar a escrevê-lo. A decisão trouxe novos desafios para a produção, mas este é um argumento diferente e não foram apenas os criadores a querer alterá-lo. A escrita de “Maniac” não teve apenas mão humana na sua execução. Os algoritmos da Netflix desempenharam um papel significativo na construção da série — já tinha acontecido no filme “Bright”, destruído pela crítica mas um sucesso tal de audiências que levou o gigante do entretenimento a garantir uma sequela pouco tempo depois de ter desembolsado mais de 90 milhões de dólares na criação da fita de ficção científica protagonizado por Will Smith —e Fukunaga não tem qualquer receio em admiti-lo. Fê-lo sem reservas e com orgulho porque, considera, “o argumento do algoritmo vai ganhar sempre no final de contas”.

Aqui ganhou e obrigou os argumentistas a criarem um episódio novo de raiz, mandando fora parte do trabalho que já julgavam concluído. Em causa estava um capítulo que os argumentistas consideravam interessante para a história, e cuja construção lhes havia agradado, mas que seria recebido de forma diferente pela audiência. Palavra de quem sabe: a máquina. É o poder dos dados, que ganham um relevo cada vez maior na criação de conteúdos. É que neste caso fica-se com a certeza de que a Netflix controla ao pormenor (e, garantem, sem comprometer a privacidade de cada utilizador) o comportamento daqueles que acedem ao serviço. Hoje é possível saber se uma série é vista em formato de binge-watching (toda de uma vez), ao ritmo tradicional de um episódio em cada utilização do serviço ou mesmo em que período é que as pessoas primem o botão pausa (regressando ou não).

Os mais puritanos podem ver num passo como este uma traição à arte, mas Fukunaga tem uma visão mais aberta do tema e vê estas mudanças no sector de forma positiva. À conversa com a “GQ”, o realizador mostrou naturalidade com o tema — “uma vez que a Netflix é uma empresa de dados, eles sabem perfeitamente como é que os telespectadores veem as coisas” — e olha para os dados tratados pela plataforma como se das tradicionais notas de um produtor se tratassem. “Eles podem olhar para algo que escreveste e dizer: ‘Nós sabemos, baseado nos nossos dados, que se fizeres isso perderemos determinado número de espectadores. Agora, com a estreia da série de 10 episódios marcada para sexta-feira, é tempo de se perceber se os dados têm ou não razão.