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David Foster Wallace: uma entrevista inédita

Keith Bedford/Getty

Para assinalar os dez anos da morte trágica do autor de “A Piada Infinita”, o jornal El País publicou uma conversa que merece a pena ler

Luís M. Faria

Jornalista

A sua obra-prima pode intitular-se "A Piada Infinita", mas David Foster Wallace chegou ao fim demasiado cedo e por motivos que não têm graça nenhuma. Aos 46 anos, incapaz de suportar o peso da depressão de que sofria há muito tempo, acabou com a sua própria vida. Foi no dia 12 de setembro de 2008, faz esta quarta-feira dez anos.

Desde essa altura, a sua reputação como uma dos principais autores da sua geração - a geração que sucedeu a monstros sagrados como Updike, DeLillo e Roth - não deixou de se consolidar. Também contribuiu a publicação de um romance póstumo, "O Rei Pálido", montado a partir de materiais que o escritor deixou em estado avançado de elaboração, e que se passa num departamento de impostos algures no Midwest americano.

Em termos de escolas literárias, Wallace não é um escritor fácil de definir, até pelo cuidado que ele próprio tinha em não se deixar fixar. É possível chamar-lhe pós-modernista, por exemplo, mas também é uma limitação. Professor e filho de professores, o seu grau de autoconsciência nesse assunto, como em muitas outras coisas, era extremamente elevado. Toda a sua vida, aliás, parece ter sido uma luta contra si mesmo. Desde logo, contra os demónios de dependências e obsessões várias. Mas não só.

Para comemorar o aniversário da sua morte, o diário espanhol El País publicou uma entrevista inédita com Wallace feita por Eduardo Lago. É uma de várias conversas que eles tiveram a partir de 2000, e aparece num livro que vai sair daqui a uns dias. Vale a pena ler para recordar a inteligência original e profunda de um grande talento. Sobre o seu lugar na literatura contemporânea, por exemplo, Wallace diz: "Quase todo o dinheiro que gera a literatura procede de livros que as pessoas lêem quando viajam de avião ou estão na praia. Os meus livros não são assim. A maior parte dos narradores americanos com que me relaciono escrevem ficção bem mais difícil e exigente. Eu creio que sou dos mais acessíveis, pela simples razão de que ao escrever não procuro intencionalmente complicar as coisas"

"Antes pelo contrário", continua. "Procuro que sejam o mais singelas possível. Há um tipo de ficção, na minha opinião muito boa, que procura deliberadamente ser difícil; obriga o leitor a confrontar certo tipo de estratégias, mas eu não sou assim, por isso não me costumam situar no campo dos escritores particularmente difíceis".

É uma excelente definição de si mesmo. Não apenas modesta, no bom sentido, mas também exata, pois Wallace tem de facto a característica de usar um estilo que parece informal ao mesmo tempo que é erudito e sofisticado. Por outro lado, a admiração expressa em relação a outros autores é claramente genuína, até pelo detalhe com que ele falou deles noutras conversas que foi tendo ao longo dos anos.

Quando lhe começaram a fazer entrevistas pouco depois de publicar "A PIada Infinita", recorda na entrevista ao El País, "todo o mundo insistia que era um livro muito divertido, coisa que eu não percebia e me intrigava, mas honestamente também me decepcionava, porque para mim o sentimento dominante do livro era de uma imensa tristeza".

Wallace diz que essa tristeza é tangível na sociedade americana, em especial nas pessoas da sua idade. "Uma desconexão entre as pessoas que têm menos de quarenta ou quarenta e cinco anos neste país. Poder-se-ia dizer que o mal-estar remonta ao Watergate ou ao Vietname, embora haja muitas outras coisas. "A Piada Infinita" tenta abordar o fenómeno da adicção, tanto aos estupefacientes como na acepção originária da palavra em inglês, adicção no sentido de devoção, num sentido quase religioso. O meu romance é uma tentativa de compreender uma espécie de tristeza que é inerente ao capitalismo, algo que está na raíz do fenómeno da adicção".

Referindo-se a um dos aspetos distintivos do livro - o uso abundante de notas (há umas 400 em "A Piada Infinita) - ele justifica-o assim: "Uma das coisas que me parecem mais artificiais na maior parte da ficção é que opera como se a experiência, o pensamento e a percepção tivessem um carácter linear e singular, como se só pensássemos e sentíssemos uma única coisa a cada momento. Justamente, essa é uma das limitações da página, e eu creio que até certo ponto as notas servem para sugerir ao menos uma espécie de desdobramento que está um pouco mais de acordo com a realidade".

A seguir, nota que nesse aspeto não inventou nada e diz que o incomoda falar de si mesmo como parte de um "pós-modernismo intelectual de vanguarda", ainda que empenhado em "manter relação com a experiência do que significa ser americano". Uma longa e elaborada descrição daquilo que ele não quer ser termina com uma banal (e autocrítica) exclamação de cansaço.