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O lugar dos sítios com tempo onde a música do presente beija o futuro

VERA MARMELO

A 8.ª edição do festival Zigurfest, em Lamego, voltou a servir de antecâmara para os mais desafiantes projetos da música alternativa portuguesa. O Expresso acompanhou o evento e traz-lhe os ecos de um evento pensado para perscrutar as melodias do futuro

O arraial está montado em Lamego e o escadório do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios está adornado com decorações luminosas. As letras picantes de artistas populares, como José Malhoa, Toy ou Marante, são padroeiras atrevidas para saracotear o clima espigaitado, instalado na praça central da cidade, de onde exala o cheiro a farturas, pipocas e caldo verde. Não faltam as inevitáveis roulotes com bifanas e cachorros, preparados na hora, retirados da chapa a fumegar e servidos em folha de prata. As habituais tendas de produtos artesanais, bem característicos da região, atraem a curiosidade dos transeuntes. Há quem prove um naco de presunto ali e um copo de hidromel - para escorregar melhor - junta-se no estômago acolá. Nada de impeditivo, ainda assim, para as manobras ziguezagueantes ao volante dos carrinhos de choque. Mais um ano, mais uma voltinha pela azáfama das festas populares do município, iniciadas a 23 de agosto na urbe transformada num altar sacro-profano, montado até 9 de setembro.

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Assim é. Todos os anos. Mas alto e para o baile, porque as comemorações entrecruzam-se com um festival. Trata-se do Zigurfest, discreto como um tesouro por descobrir no Castelo, no Teatro Ribeiro Conceição ou no Museu de Lamego, estendido também pelos largos e artérias íngremes que levam a vários outros pontos do coração do património histórico.

A oitava edição, realizada entre quarta-feira e sábado, assumiu-se novamente, sempre fiel ao ADN estético do evento, como uma escalada desafiante ou uma odisseia exploratória pelas ondas e especiarias mais arrojadas da música alternativa portuguesa. O Expresso esteve a acompanhar os quatro dias de uma programação profícua e apresenta-lhe os vários sítios criativos de um lugar onde se vê brotar a florescência das sonoridades mais experimentais do panorama nacional.

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Um festival “criado por amigos e onde se formam novas amizades”, cujo nome começa pela última letra do alfabeto é, desde logo, algo incomum. A matriz assenta precisamente em “fazer diferente”, com o objetivo de “levar a cultura à porta das pessoas, convidando a que as pessoas saiam de casa ou fiquem à janela a ver os concertos”, explica o diretor do Zigurfest, Afonso Lima. Multiplicam-se pelos vários espaços da cidade encontros multiculturais inesperados, onde distintas gerações convivem harmoniosamente, numa simbiose perfeita entre as sonoridades e os espaços nos quais se propagam. Exemplo ilustrativo disso mesmo aconteceu logo no arranque do certame, com as atuações improváveis do trio Zarabatana, a agitar o Largo da Cisterna com ritmos tribais, e Dullmea a invadir o Museu de Lamego, sentada na Sala Grão Vasco, entre pinturas renascentistas, a interagir com o público numa linguagem musical transcendente, ímpar e etérea.

O segundo dia do festival levou o público a subir até ao Castelo, onde um anfiteatro natural, com varanda para uma paisagem privilegiada da cidade e das serras, serviu de palco preparado para derrubar muralhas com o cruzamento do jazz e do hip hop a cargo dos Mazarin, seguindo-se um périplo encantatório pela house mais onírica dos Terra Chã.

O elogio da fragilidade na capela e um Portugal perdido a dançar o último tango no teatro

Quando a noite caiu na cidade - com uma comunidade com raízes profundamente católicas - as portas da Capela da Nossa Senhora da Esperança abriram-se para que o espaço do séc. XVI se enfeitasse com a delicadeza melódica e o lirismo rendilhado com os sentimentos desnudados de Mathilda, alter-ego da jovem artista Mafalda Costa. A cantautora a dar os primeiros passos, acompanhada pela guitarra elétrica e pelo ukulele, faz da fragilidade esbatida em canções de algodão doce a sua principal força.

“Sinto-me confortável com a minha fragilidade. Eu sou uma menina de 18 anos e a Mathilda é uma maneira de assumir que ainda sou pequenina neste mundo tão grande”, começa por apresentar-se ao Expresso. “A Mathilda é a minha forma de ser eu, mas, de certa forma, protege-me. É a minha capa. É a minha forma de falar sobre coisas sérias e poder sorrir no final. Ela teve mesmo de aparecer para eu estar aqui”, acrescenta a artista natural da cidade-berço, à conquista do país, com mais de 40 concertos realizados desde março.

JOSÉ CALDEIRA

“Sinto que falo sobre sentimentos, pensamentos, medos e sonhos que nos são comuns a todos. É muito bonito estar em palco e olhar para a expressão de cada uma das pessoas. Sinto uma luzinha nos olhos delas, como um indício de que sabem e se identificam com aquilo que estou a transmitir. Eu falo de mim, falo de nós, e há um diálogo com quem me está a ouvir. São momentos de partilha muito especiais”, acrescenta Mafalda, de malas feitas para estudar em Londres, cidade para onde pretende levar, inevitavelmente, a sua música. “Para onde eu for, a Mathilda vai atrás”, assevera.

As noites de sexta são sinónimo de festa e foi isso que David Bruno levou, com o seu estilo desconcertante e irreverente, até ao Teatro Ribeiro Conceição. “Romântico como o Marante, apaixonado tipo Toy”, este é um artista bem português, com certeza. Em palco, pode ser equiparado a um arqueólogo artístico de todos os elementos kitsch da cultura nacional, servindo de guia musical para um passeio despretensioso e descomplexado pela estética dos anos 1990, onde os samples levam o público ao encontro de um Portugal profundo, pitoresco e perdido. A sala de espetáculos lamecense, convenientemente adornada com naperons, transformou-se numa pista alegre onde dançaram as sonoridades de “O Último Tango em Mafamude”, título do mais recente álbum - trabalho discográfico conceptual, dedicado à cidade de Vila Nova de Gaia - de um artista que, em jeito de brincadeira, confessa ao Expresso ter como sonho fazer a primeira parte de um concerto de Toy.

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“Sempre fui um apaixonado por elementos culturais tipicamente portugueses, considerados foleiros e podres, mas que nos quais, de alguma maneira, encontro beleza”, conta David Bruno, enumerando um conjunto de vários comportamentos que “lamentavelmente os mais jovens vão perdendo”, como “vestir um fato de treino a um domingo para ir passear o cão, lavar o carro com uma esponja, comer numa travessa de alumínio ao balcão de um snack-bar manhoso ou ter um bar de canto em casa”. A atuação do beatmaker, autointitulado como “cantor romântico 2.0 que não sabe cantar nem tocar” passou pelo “Monte da Virgem Platónico”, fez a ode a um “Amor Anónimo”, reservou “Mesa para Dois no Carpa” e estacionou, com classe, um “Lamborghini na roulotte”.

As paixões tardias nos princípios musicais de Lavoisier

O último dia do cartaz prometia, desde logo, pelo aguardado espetáculo do rapper Allen Halloween ou pela eletrizante fusão de punk com funaná protagonizada pelos Scúru Fitchádu. Mas neste festival as surpresas são uma rotina aprazível, tendo a tarde de sábado servido para o público se render aos princípios musicais e poéticos do duo Lavoisier, onde a guitarra elétrica e a tradição cancioneira se abraçaram na rua da Olaria, levando-nos a “Viajar” nos versos de Fernando Pessoa, no "Romance do Cego" ou nas palavras de Miguel Torga, para nos mostrar que “as paixões tardias são ironias de deuses desleais”. O concerto serviu para apresentar o álbum "É Teu" (2017), no qual Patrícia Relvas e Roberto Afonso nos revelam uma "Fauna" híbrida, germinada num tubo de ensaio artístico, onde o mundo de raízes sónicas tradicionalmente lusitanas e um universo de melodias em expansão provocam uma reação catártica, remetendo para a máxima do químico francês: "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

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Assim é o Zigurfest: uma paixão discreta, longe dos fogos de vista da comercialização, perto do coração da nova música portuguesa, que nos agita levemente, com a urgência tranquila de aprender a amar o futuro, escutando o presente num lugar onde o tempo é caprichoso, como a paisagem, e tem mais tempo para beijar delongadamente o desconhecido numa rua calcorreada pela primeira vez.

E assim será. Sempre sem medo. A crescer no risco. Em busca da novidade, prometida no desafio da incerteza.