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Festival de Veneza — Sem razões de glória

“Suspiria” de Luca Guadagnino dividiu a crítica presente no festival

Um filme de terror (“Suspiria”, de Luca Guadagnino) e um western (“A Balada de Buster Scruggs”, dos irmãos Coen) marcaram o fim-de-semana veneziano

Jorge Leitão Ramos

Jorge Leitão Ramos

Em Veneza

Jornalista

O cinema de género desvaneceu-se quando os grandes estúdios deixaram de ser as fábricas de sonhos, corriam os anos 50. Depois da reconversão ocorrida na década seguinte, os filmes de género começaram a rarear, tornaram-se híbridos ou acantonaram-se. Com a reconversão em curso nesta segunda década do terceiro milénio, nomeadamente os parceiros oriundos do universo digital — como a Netflix ou a Amazon — o panorama volta a conhecer uma mudança e o cinema de género talvez possa encontrar um possível novo fôlego. Claro, ninguém espera que voltem os filmes de gangsters da Warner, os westerns da Republic ou os musicais da Metro, mas abrem-se espaços novos de produção por onde os autores podem entrar. É assim que Guadagnino se abeira da herança do cinema popular de Dario Argento com um “Suspiria” pós-moderno, com o beneplácito dos Amazon Studios, e os Coen mergulham no universo do velho Oeste, com a chancela da Netflix, para nos dar uma antologia de histórias e de personagens cobrindo grande parte dos estereótipos que o género popularizou. Todavia, os dois filmes resultam diferentemente.

Dakota Johnson e Tilda Swinton na passadeira vermelha

Dakota Johnson e Tilda Swinton na passadeira vermelha

Apoiado num vasto elenco internacional onde avultam Dakota Johnson (que fez delirar a passadeira vermelha) e Tilda Swinton, “Suspiria” é um filme de terror que não acredita no mundo fantástico da bruxaria milenar onde a história de Dario Argento se firma. Ao não acreditar, perde a sua função primeva — assustar o espectador — para se atrever a outros patamares. Convoca esferas políticas (o nazismo, o terrorismo dos Baader-Meinhof), variações de melodrama e é menos uma ficção de medo que uma parábola sobre a culpa e a vergonha que se tornaram pouco frequentadas no nosso tempo. Nunca estremeci na cadeira — o que ainda acontece, a espaços, quando vejo o velho e muito menos sofisticado filme de Argento — medida infalível para medir a eficácia de uma fita de terror. Todavia, Guadagnino reclama ter mostrado o filme a Tarantino e que ele até chorou de emoção... Este domingo de manhã soubemos, pelos quadros de estrelas que o jornal do festival publica diariamente que a crítica italiana é muito maioritariamente favorável ao filme, enquanto a crítica internacional, sobretudo a europeia, não parece nada entusiasmada.

Tim Blake Nelson em “A Balada de Buster Scruggs”, um divertido western dos irmãos Coen

Tim Blake Nelson em “A Balada de Buster Scruggs”, um divertido western dos irmãos Coen

Bastante eficaz nas respostas que pede ao espectador — cumplicidade e riso, as mais das vezes — é “A Balada de Buster Scruggs”, coletânea de pequeno sketches onde o western surge revisitado pela distância do humor e do reconhecimento. Começando com um brilho que nunca mais reencontra, todavia mantendo-se num nível digno dos seus autores, é um filme que sustentou os ânimos em alta num festival onde tem havido bastante bons filmes, mas ainda não aconteceram maravilhamentos.