Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Guy Pearce: “Expressar-me através da música faz muito mais sentido”

Reservado, o ator da série sobrenatural “The Innocents” revelou no último mês que foi vítima de assédio sexual por parte de Kevin Spacey, que o fez sentir-se “desconfortável” em “L.A. Confidential”, mas arrependeu-se das palavras que usou e diz não ter mais nada a acrescentar sobre o que aconteceu no passado. Nos próximos tempos, o australiano que protagoniza a nova aposta europeia da Netflix voltará em força ao grande ecrã. É também na escrita de canções que é feliz

David M. Benett/Getty Images

Disse uma vez que apenas queria aceitar papéis que tivessem um significado para si, que o inspirassem. O que é que o atraiu numa série como “The Innocents”?
Não foi apenas uma coisa, foi um conjunto de coisas. É uma história como talvez nunca me tenha aparecido antes, com um papel que me pareceu muito interessante e intrigante. Tive muitas conversas com o realizador antes de começarmos. Tudo me pareceu muito inteligente e interessante.

E a sua personagem parece ser uma figura de poder na série. Como é que a descreveria, agora que a série se estreou?
Mais do que descrevê-la, o meu trabalho é interpretá-la, mas trata-se de um médico, um cientista, que não se encaixa na comunidade médica. Halvorson faz as coisas à sua maneira, e na série encontramo-lo a lidar com esta condição médica [da mudança de forma dos seus pacientes]. Ele quer chegar ao fundo da questão, mas não quer fazê-lo com as autoridades, pelo que tem de o fazer sem ser apanhado por ninguém.

E como foi o processo criativo de dar vida a Halvorson? Como é que o criou? Incorporou alguma característica sua na personagem?
Não tive de criar nada. Estava tudo na página, felizmente.

Claro, mas como é que o desenvolveu como ator?
Não acho que tenha tido de o desenvolver. Os argumentistas fizeram-no. Foi muito bem realizado e muito bem escrito. E o desenvolvimento [da série] foi muito interessante para mim do início ao fim. Felizmente, não tive de fazer qualquer trabalho. Tudo o que me pediram foi para chegar e apresentar-me no ecrã.

E a experiência no set de filmagens, na Noruega, como correu?
Foi muito bom filmar na Noruega. Os lugares escolhidos eram espetaculares, e eu nunca tinha filmado naquela parte do mundo. E depois isto é algo realmente muito delicado, a relação entre as personagens. Não se tem muito bem a certeza de quais são as motivações de Halvorson e quais são as suas intenções. Ou a quem é que é leal. Foi algo muito bom de interpretar. E tudo se tornou ainda melhor por estarmos numa paisagem tão remota e teatral como aquela.

Além de ser ator, o Guy é também músico. Como é que se conjugam duas carreiras como estas ao mesmo tempo? Há uma preferida?
Não diria que gosto mais de uma do que de outra, até porque funcionam as duas bem em conjunto para mim, mas a verdade é que também não ganho dinheiro nenhum a fazer música. Só o faço mesmo porque gosto. Nem sei se lhe posso chamar propriamente uma carreira... Mas gosto muito de me expressar através da escrita de canções e de gravá-las. Claro que encontrar tempo para gravar é que é mais complicado.

Onde é que está a viver agora? Como é a vida de alguém em constante movimento?
Divido o meu tempo entre a Europa e a Austrália. E também por Los Angeles. É muito cansativo, mas como a minha namorada e o meu filho vivem em Amesterdão, tento passar o máximo de tempo lá. E claro que depois tenho a minha mãe e a minha irmã na Austrália, então...

Sei que prefere manter a sua vida privada em privado, mas tenho de voltar a falar-lhe de música e do álbum “The Nomad”, que lançou recentemente. Acaba por abrir um pouco a janela sobre a sua vida. A arte é a melhor forma de falarmos sobre nós próprios?
Sim. Descobri que expressar-me através da música e da escrita de canções faz muito mais sentido do que falar sobre isso. Gosto mais da ideia de criar arte a partir de algo pessoal do que tentar explicar ou registar a minha experiência pessoal.

Sente o mesmo com a representação?
Bem, na representação é diferente, porque não estou a expressar-me. Estou a dar expressão a uma outra personagem.

Exato. Ainda em relação à fronteira entre a vida privada e a vida pública, reparei que se arrependeu de ter tornado pública a história com Kevin Spacey. Porque mudou de ideias depois da entrevista?
Não tenho mais nada a dizer publicamente sobre isso.

Desculpe, mas tinha de o questionar sobre este assunto.
Sem problema.

E em “The Innocents”, como foi a relação com os outros atores?
Já deve estar à espera de que eu diga como foi boa a relação com os outros atores, mas a verdade é que foi mesmo uma experiência agradável. Estávamos todos cientes de que andávamos envolvidos em algo muito interessante, pelo que sentíamo-nos muito gratos por fazermos parte de um projeto como este. E era um grupo muito eclético de atores, com gente da Islândia, da Noruega, da Finlândia, do Reino Unido... Foi muito divertido.

E quais são as suas expectativas quanto ao sucesso da série?
Espero que muita gente tire partido da série, que retire alguma coisa dela. “The Innocents” parece-se com um drama familiar forte, mas tem aquele elemento de ficção científica. E depois há o facto de estarmos numa fase de mudança tecnológica em que não temos noção de quais serão as limitações... Quisemos criar algo que fosse possível de acontecer [na vida real].