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Bono: "Europa: uma ideia que é preciso sentir"

O vocalista dos U2 e cofundador da ONE, uma organização não-governamental que luta contra a pobreza, escreveu esta semana um artigo publicado na imprensa alemã em que faz a apologia da União Europeia. É esse texto que reproduzimos. Os U2 iniciaram ontem, em Berlim, uma digressão que passa por Lisboa a 16 e 17 de setembro

BONO

Dizem que uma banda de rock está no seu auge quando é ligeiramente transgressora. Ou seja, quando ultrapassa os limites do chamado bom gosto, quando choca, quando surpreende. Os U2 iniciaram esta digressão, em Berlim, com uma dessas ideias provocadoras: durante o espetáculo será desfraldada uma enorme bandeira azul e brilhante. A bandeira da União Europeia.
Imagino que, mesmo para o público do rock, exibir uma bandeira da União Europeia, nos dias que correm, surja como algo irritante ou aborrecido, que até pode ser visto como uma referência foleira ao festival da Eurovisão. Porém, para alguns de nós, isso tornou-se uma atitude radical. A Europa, que durante muito tempo andou adormecida, desperta hoje as mais acesas discussões. É o palco onde se digladiam as fações poderosas e militantes que irão moldar o nosso futuro. Eu digo o nosso futuro, porque não há como negar que estamos todos no mesmo barco, num mar encrespado pelo temporal mas também pelas políticas mais extremistas.
É difícil vender a ideia de Europa na própria Europa. Isto é a mais pura das verdades, apesar de não existir melhor lugar para se ter nascido nos últimos 50 anos. Ainda que seja necessário trabalhar muito para distribuir equitativamente aquilo que a prosperidade já nos trouxe, os europeus contam com a melhor educação, estão mais bem protegidos das grandes empresas e possuem uma vida melhor, mais longa e saudável, além de gozarem da felicidade como ninguém noutra parte do mundo. Sim, são mais felizes. Estas coisas já se medem.
A Irlanda tem uma ligação especial e emocional com a Europa e com a ideia de Europa. Talvez porque a Irlanda é uma pequena rocha num enorme oceano, ansiando fazer parte de algo maior (pois tudo é maior do que nós próprios). Talvez, porque nos acostumámos a sentir mais próximos da Europa do que nos sentíamos de alguns dos que habitavam essa mesma ilha.
Pertencer à Europa fez de nós uma versão melhor e mais confiante de nós próprios. Somos maiores entre iguais. Da mesma maneira, quanto mais o norte e o sul da Irlanda se aproximavam da Europa mais perto ficávamos uns dos outros. A vizinhança atravessou a fronteira e derrubou barreiras.
Devido a razões históricas profundas, os irlandeses não assumem a soberania levianamente. Se soberania é um país poder governar-se a si próprio, a Irlanda percebeu que, aliando-se a outras nações, obtinha mais poder do que alguma vez teria conseguido sozinha. Foi assim que passou a participar do seu próprio destino.
Enquanto europeu, orgulho-me quando sei que a Alemanha acolhe os amedrontados refugiados sírios. Mais orgulhoso ficaria se um número ainda maior de países tivesse oferecido a mesma ajuda. Orgulho-me também da luta da Europa contra a pobreza e contra as alterações climáticas. E, sim, sinto-me extraordinariamente orgulhoso do Acordo de Sexta-Feira Santa e da forma como muitos países apoiaram a Irlanda nessa questão, agora ressuscitada pelo ‘Brexit’. Sinto-me privilegiado por ter testemunhado o mais longo período de paz e prosperidade alguma vez vivido no continente europeu.
Porém, todas estas conquistas estão neste momento a ser ameaçadas porque o respeito pela diversidade — o pilar de todo o sistema europeu — está a ser posto em causa. Tal como disse o meu compatriota John Hume: “Todos os conflitos devem-se a diferenças — sejam elas de raça, religião ou nacionalidade. Porém, os visionários da Europa consideraram que a diversidade não era uma ameaça… A diferença é a essência da humanidade”, devendo ser respeitada, celebrada ou mesmo cultivada.
Neste momento, assistimos a uma espantosa perda de fé nesta ideia. Devido aos atritos da globalização e ao falhanço na gestão da crise das migrações, os nacionalistas acham que a diversidade é um perigo. Procuram abrigo, dizem eles, no que é igual, recusando a diferença. Esta visão do futuro lembra-me muito o passado: questões de identidade, ressentimento e violência. O nacionalismo é discriminador e contra a igualdade de oportunidades.
A geração que assistiu à II Guerra Mundial conhece bem a mortandade a que essa forma de pensar conduziu. Encontrou, porém, a saída — por cima dos destroços, dos muros, do arame farpado — para derrubar a Cortina de Ferro desenhada por Estaline. Acima de tudo, rejeitou a ideia de que as nossas diferenças são tudo o que nos define.
Perceberam que pensar o mundo como uma disputa de soma zero era um pacto suicida.
Eu adoro as nossas diferenças: os nossos dialetos, as nossas tradições, as nossas particularidades, “a essência da humanidade,” como disse Hume. E acredito que ainda existe espaço para o que Churchill chamou “um patriotismo alargado”: múltiplas afinidades, identidades estratificadas: ser irlandês e europeu, ser alemão e europeu, sem que se excluam mutuamente. A palavra patriotismo foi-nos roubada pelos nacionalistas e radicais que exigem a uniformidade. Mas os verdadeiros patriotas procuram a união acima da homogeneidade. Reafirmar isso é, para mim, o verdadeiro projeto europeu.
Será que nos podemos empenhar de alma e coração nesta luta? Pode não existir muito romance num “projeto” ou qualquer sensualidade na burocracia, mas como disse a grande Simone Veil, “a Europa é o grande desígnio do século XXI”. Os valores e as aspirações da Europa fazem dela muito mais que algo meramente geográfico. Estão na essência daquilo que somos enquanto seres humanos e do que queremos ser. Essa ideia de Europa devia inspirar canções e merece que por ela se desfraldem enormes bandeiras azuis e brilhantes.
Para que vingue nestes tempos conturbados, a Europa é uma ideia que precisamos de sentir.