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Uma tília para José Mário Branco

José Mário Branco é o homenageado deste ano na Feira do Livro do Porto

Tiago Miranda

Feira do Livro do Porto vai homenagear um dos nomes maiores da música portuguesa do século XX também na sua vertente de grande criador literário

Este ano, a tília a atribuir pela feira do livro do Porto, que decorrerá nos jardins do Palácio de Cristal entre 7 e 23 de setembro, tem como destinatário José Mário Branco, um dos grandes criadores do século XX português, com uma afirmação muito particular na música, embora também com um lugar de relevo num universo artístico mais vasto, no qual se inclui a literatura.

O autor de “Ser Solidário” dá assim continuidade a uma tradição que levou já à atribuição de outras tílias a escritores como Mário Cláudio, Vasco Graça-Moura, Agustina Bessa-Luís ou Sophia de Mello Breyner Andresen. Atravessa-os um mínimo denominador comum: todos nasceram no Porto.

A opção por homenagear um homem como José Mário Branco influencia toda a programação da feira, durante a qual serão recordados os cinquenta nos de maio de 1968, como pretexto para falar de múltiplas revoluções, sejam elas de ordem cultural, sexual, literária, estética, política, ou filosófica.

Ao longo dos dias da feira haverá oportunidade para juntar alguns dos nomes mais em foco na atual literatura em língua portuguesa, como Mário de Carvalho, Mia Couto, Afonso Cruz, Ana Margarida de Carvalho, com outros autores mais jovens, nacionais ou estrangeiros. Estão entre eles os portugueses de origem africana Kalaf Epalanga e Telma Tvon, a romancista francesa de origem marroquina Leila Slimani, cujo romance “Canção Doce” recebeu o prestigiado prémio Goncourt em 2016.

Com um programa muito forte na área dos debates, a Feira propõe, a abrir, no dia 8 de setembro, sábado, a partir das 18horas, uma conversa com José Mário Branco conduzida por Anabela Mota Ribeiro, responsável pelo ciclo de debates em conjunto com José Eduardo Agualusa. A carreira do cantor será o fio condutor de um diálogo por onde passarão as ligações entre música e poesia, liberdade e revoluções.

No dia seguinte, às 16 horas, Mia Couto e Afonso Cruz conversa com José Agualusa e no dia 14, a partir das 19horas, Daniel Cohn- Bendit, um dos rostos do movimento estudantil de maio de 1968, mesmo se está hoje muito distante da personagem que encarnou na juventude, vai conversar com o historiador Rui Tavares. O último dos debates está marcado para dia 23, às 19 horas, propõe-se discutir como nasce um romance e tem o aliciante de juntar dois grandes escritores portugueses de gerações completamente diferentes, ou não fossem pai e filha: Mário de Carvalho e Ana Margarida de Carvalho.

Momento marcante das últimas edições da Feira do Livro do Porto tem sido a iniciativa “spoken word”, na qual se estabelece de um modo muito aprofundado uma relação entre a palavras escrita e cantada. Este ano há quatro sessões, cada elas subordinada a um tema: utopia, revolta, amor e melancolia. A série abre, dia 9, às 21h30, com Capicua, André Tentúgal e Nuno Artur Silva a braços com a utopia e fecha melancolicamente dia 22, no mesmo horário, com Sara arinhas, Nuno Rodrigues e Cláudia Varejão.

Meio século de música criada no Porto

Na área das exposições está já criada grande expectativa à volta do conjunto de revelações ou regressos a um passado não muito distante inerentes á mostra “Musonautas, visões & avarias 1960-2010 – 5 décadas de inquietação musical no Porto”.

Com curadoria do programador e editor de música Paulo Vinhas, será ali construída uma imensa estrada destinada a proporcionar uma viagem a cinco décadas de criação musical portuense, com toda a relevância que resulta da constatação de que são do Porto nomes fundamentais da música feita em Portugal sobretudo na segunda metade do século XX.

O programa expositivo completa-se com uma mostra de livros e guias de Portugal entre a Monarquia Constitucional e o Estado Novo (1820-1974) e uma outra intitulada “Maio 1968 – A revolta em cartazes”.

Faz todo o sentido ter um breve curso de literatura numa feira do livro. É o que acontecerá este ano a partir de uma pergunta de Italo Calvino: “Porquê ler os Clássicos?”. Esse o proetexto para abordar o universo criativo e literário de Dante, Cervantes, Shakespeare, Goethe, Flaubert, Fernando Pessoa, Machado de Assis e outros.

Entre as muitas atividades paralelas da feira, destaque ainda para o cinema, com cinco filmes evocativos de uma qualquer ideia de rebeldia. Os escolhidos foram “Sementes de Violência”, de Richar Brooks, “Weekend”, de Jean-Luc Godard, “Wanda”, de Barbara Loden, “Má Raça”, de Léos Carax e “Ata-me”, de Pedro Almodôvar.

Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, sublinha na programação dois novos projetos que, disse, “reforçam o caráter de singularidade” do certame. Um será lançado ainda este ano e chama-se “Cabine de Escalas”. Programado pela artista e editora Isabel Carvalho, “traduz-se num espaço partilhado que possibilita, a título gratuito, de pequenas editoras e livrarias” na feira.

A outra iniciativa será um pavilhão efémero de verão, para o qual será lançado um concurso anual. Inspirado na Serpentine Gallery de Londres, distingue-se pela circunstância de permitir o seu uso para atividades culturais.

O orçamento total da feira é de 200 mil euros, tal como no ano passado. Metade daquela verba é coberta pelos alugueres dos pavilhões.