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Cultura

A beleza do futuro

“Osa Nla”, de Romuald Hazoumè, 
na Igreja dos Loios, Évora

FOTO Filipe Branquinho

A diversidade impera numa amostragem de arte africana em Évora

São 16 os artistas e sete os países de onde provêm. O mais velho nasceu em 1923 e o mais novo em 1982. Todos são uma fortíssima presença no coração de Évora, no Palácio Cadaval. Nas suas diferenças, representam, no dizer de Alexandra de Cadaval — organizadora do Festival Évora África, no qual se insere a exposição “African Passions” —, a arte contemporânea africana, i.e., “uma beleza que vai estar no centro do futuro”.

A primeira presença que se vê do meio da rua é a da pintura mural de Esther Mahlangu (1935, África do Sul), adaptando uma arte tradicional ligada ao corpo a uma dimensão pública; porém, a presença que, pelo seu significado, resume toda a exposição é o grande paramento ritual de Romuald Hazoumè (1962, Benim) ocupando bem o centro de um espaço sagrado, a Igreja dos Loios, anexa ao palácio; assim, do século XV ao XXI, aquele espaço continua a funcionar como lugar de memória e de mudança.

O interior do palácio é também um espaço propício à exposição dos restantes artistas, num excelente aproveitamento das salas e dos corredores/galerias. A montagem é particularmente feliz, isolando alguns artistas e juntando outros em bem concebidos pares por afinidade e (ou) contraste.

Os pares são quatro: Chéri Samba (1956, Congo) e o seu discípulo J. P. Mika (1980, Congo), mostrando uma linguagem inventada próxima da ilustração e da BD, convertidas em imagem de crítica social no mestre e numa reflexão sobre o artista e o seu trabalho no discípulo; Frédéric Bruly Bouabré (1923-2014, Costa do Marfim), um artista profeta inventor de alfabetos coincidindo na multiplicidade de muito pequenos formatos com Marcel Miracle (1957, Madagáscar), cujas colagens reunindo as coisas aparentemente mais insignificantes são também uma escrita individual; Klèmèguè (1982, Mali) e Houston Maludi (1978, Congo) estão reunidos pelo contraste entre as pinturas sintéticas de Klèmèguè e os formigueiros urbanos analisados por Maludi; é também o contraste que reúne Billie Zangewa (1973, Malawi) com patchworks de seda bordados e, por vezes, rasgados com a visão irónica da tradição de Filipe Branquinho (1977, Moçambique).

Isolados nos seus espaços estão Amadou Sanogo (1977, Mali), poderoso criador de formas equilibradas em grandes superfícies têxteis, e Steve Bandoma (1981, Congo), um prodigioso inventor de situações imaginárias.

Não menos forte é a participação dos fotógrafos quer de um ponto de vista documental — as imagens já históricas da noite e da festa de Malick Sidibé (1935-2016, Mali) ou o estudo sobre as máscaras de folhas do Burkina Faso de Mauro Pinto (1974, Moçambique) —, quer os ensaios de autorrepresentação crítica de Phumzile Khanyile (1982, África do Sul), numa evocação de duros quotidianos femininos, e de Omar Victor Diop (1980, Senegal), lembrando figuras históricas ligadas a símbolos de um desporto que é por vezes a única via para a ascensão social dos africanos: o futebol.

Que beleza futura é esta anunciada por estes artistas? Que exemplo nos trazem? O de um pensamento plástico poderosamente ligado à força da sensação — uma lição que o Ocidente esquece vezes demais.

CINCO ESTRELAS

AFRICAN PASSIONS

Festival Évora África, Palácio Cadaval, Évora, até 30 de setembro