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“Sobre Tudo Sobre Nada”: oito anos de vida em Super 8

O Guincho e o cabo da Roca ao fundo, 
imagem recorrente de “Sobre Tudo Sobre Nada”, 
de Dídio Pestana

O filme de estreia de Dídio Pestana é a única longa-metragem portuguesa presente a concurso em Locarno

Uma imagem do Guincho surge após alguns metros de película que o tempo não poupou no genérico inicial. Saberemos depois que aquele Guincho, aquele mar, aquela falésia com o Cabo da Roca no horizonte, serão eterno ponto de partida e de chegada para o narrador. O horizonte, diz ele, foi perdido em 2006, “e queria ter partido antes, muito antes.” Um Peugeot 206 “carregado de instrumentos, microfones, livros e alguma roupa” levou-o Europa fora, até Berlim, sabemos depois, onde assentou, entre dezenas de viagens, visitas à família, a namoradas que estavam longe, também viagens de trabalho que o levaram a outros hemisférios. “Sobre Tudo Sobre Nada”, filme autoproduzido ao longo dos anos entre 2010 e 2018 (e terminado com apoio da Kintop) é a única longa-metragem portuguesa presente a concurso em Locarno (na secção Signs of Life). É também o filme de estreia de Dídio Pestana, lisboeta nascido em 1978, músico e sonoplasta que colaborou com Gonçalo Tocha (em “Balaou” e “É na Terra, Não É na Lua”, que Locarno também deu a ver ao mundo em 2011) e que já apresentámos na edição passada. Filmado em super-8 (exceção a uma bobina de arquivo em 16mm que era pertença do pai do cineasta), “Sobre Tudo Sobre Nada” é um ‘mini-Mekas’, um daqueles raros diários de bordo afetivos que, também pelo seu formato, se sintoniza com o cineasta lituano que lançou a avant-garde cinematográfica nos EUA. Com as devidas distâncias, até porque a beleza deste filme luso vem também da sua modéstia, há uma pergunta que podíamos fazer a ambos: não é a vida quotidiana uma quimera, afinal, quem sabe, a maior de todas? Numa chamada Skype entre Lisboa e Berlim, o cineasta falou-nos de tempo. “O tempo essencial de um filme sem pressas que foi acompanhando as felicidades e as vicissitudes da minha vida”, disse-nos. Por aqui vão passar pessoas que ele cruzou e filmou ao longo de oito anos com a ideia de um filme que se ergueria mais tarde (“foi essa a intenção desde o início”), histórias de luto (Dídio é filho de um treinador-pioneiro de basquetebol feminino e célebre jornalista desportivo entretanto falecido), outras que sentimos estar sempre perto do osso, mas o filme tem um trato tão subtil, tão fino, no modo como lida com estas relações humanas que jamais sentimos aqui exposição, confissão, narcisismo, antes pelo contrário — o que há é partilha. Não há oráculos, a voz off dele conduz-nos. “Ia organizando o material ao longo dos anos, criando o meu arquivo de found footage e que anotava em projeções caseiras na parede da sala.” Foi depois preciso inventar uma banda-sonora — Dídio fez um mestrado de arte sonora na UDK (Universität der Künste Berlin) —, criar texturas “num blending de geografias e de tempos”, o filme é muito rico neste ponto, cruza sons de toda a parte, de gravações de telemóvel a vinis alemães e ingleses usados nos anos 60 para sonorizar home movies. Podemos passar de um 1º de Maio em Berlim para um concerto de Tochapestana no Fundão. E há o texto, claro, “a parte que mais trabalho deu porque as palavras podem levar-nos para sítios errados, é difícil encontrar o tom justo.” Dídio reconhece a influência de Mekas, também a de Chris Marker, de David Perlov, sobretudo a de Ross McElwee, cineasta americano que cristalizou como nenhum outro a sua vida em película e que o DocLisboa retrospetivou, num ciclo que marcou Pestana. Lindo filme este, a espaços até comovente. De todas as longas portuguesas que o festival visionou foi aquela que Locarno em boa hora escolheu.