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“Bem, já é suficiente”. Robert Redford, o eterno galã, vai parar

Uma fotografia de arquivo de Robert Redford, em 1975

Bettmann/ Getty Images

De olhos claros, cabelos quase dourados. A beleza e a pinta de galã de Robert Redford distinguem-no. Mas o ator, quase com 82 anos, foi mais do que um homem bonito do cinema. Foi “um rosto do cinema liberal americano” e “desde primeiros filmes mostrou ser um ator notável”. Dentro de um mês estreia-se aquele que será o seu último filme como ator

Os Homens do Presidente”, “A Golpada”, “África Minha”, “Jogo de Espiões” e até blockbusters como “Capitão América”. A lista de filmes em que Robert Redford atuou é longa. O total é de 78, segundo o Internet Movie Database (IMDb), e mais 50 como produtor e dez outros como realizador. Mais que um ator, Redford é um homem do cinema. Agora, vai deixar a arte de atuar. Pensou: “Bem, já é suficiente”. Redford está a dias de completar 82 anos, já não será mais ator, mas não pensa deixar de ser homem do cinema.

“Foi muito importante para o cinema, ainda é: primeiro como ator, depois como realizador e também como fundador do Sundance Institute e, posteriormente, do Sundance Festival [festival de cinema independente, considerado com um dos mais prestigiados do mundo]”. Jorge Leitão Ramos, crítico de cinema do Expresso aponta Redford como “o rosto do cinema liberal americano nos anos 60/70”. “Gosto num ator que me convença que é a personagem que interpreta. Sempre consegui olhar para ele não como Redford, mas como a personagem que estava a interpretar. Para mim, isso é ser um grande ator.”

Foi Louis Walters, Thomas, Bill Bryson, Stephen Malley, Nathan Muirk, Johnny Hooker, Warren Justice, Denys, Jay Gatsby e Bob Woodward. Foi muitos outros. Em “The Old Man & The Gun”, com estreia prevista para setembro de 2018, vai ser Forrest Tucker, um ladrão peculiar que assalta 17 bancos, é apanhado pela polícia 17 vezes e escapa da prisão 17 vezes.

Quando os dois filmes estiverem feitos, vou dizer adeus a todos e focar-me apenas na realização”. Redford já tinha alertado no ano passado que deixar de lado a representação fazia parte dos planos. Agora, os dois filmes que então lhe faltava terminar estão feitos. “Nunca digo nunca, mas acredito que isto será mesmo o fim da representação para mim, depois vou reformar-me porque já ando a fazer isto desde os 21 anos. Pensei ‘bem, já é suficiente’. E porque não sair e fazer algo que é muito otimista e positivo?”, confirmou Robert Redford em entrevista à “Entertainment Weeklypublicada esta segunda-feira.

Se não fossem grandes atores, não funcionavam”

O ator que na verdade se chama Charles (Robert é o segundo nome), chegou ao grande público em filmes e séries românticas, onde era o herói. Os olhos azuis, os cabelos quase dourados ajudaram-no a ser um galã, mas foi um rótulo que cedo rejeitou – também por isso negou atuar em filmes que exploravam mais esse lado da imagem do que a profundidade da personagem.

Para o crítico Jorge Leitão Ramos, o estereótipo de que um galã serve apenas para um determinado tipo de filmes é um mito. “Lembro-me de no cinema clássico homens muito bonitos fazerem filmes muitos torturados. A história do galã bonitinho existe mais na cabeça das pessoas do que na realidade. Desde o cinema sonoro, não me lembro de haver alguém que fosse apenas muito bonito. Os grandes atores, mesmo os muito bonitos, se não fossem grandes atores, não funcionavam.” E exemplifica: “É o que se passa ainda hoje com atores como o Tom Cruise, que agora faz filmes de grande espetáculo e que não me parecem grande coisa, enquanto há 20 anos fez filmes extraordinários e provou que era um grande ator. Hoje, já não faz filme para provar alguma coisa.”

Com mais de uma dezena de participações em filmes, incluindo “Os Homens do Presidente” e “A Golpada”, decidiu fazer a experiência de passar para trás das câmaras. Com “Gente Vulgar”, Redford estreou-se na realização e venceu o primeiro Óscar e Globo de Ouro. Na edição de 1981 da cerimónia, o filme arrecadou quatro estatuetas, incluindo a de melhor filme, melhor realizador, melhor ator secundário e melhor argumento adaptado. O filme conta o drama de uma família que perde um dos filhos num acidente e cujo irmão se sente culpado.

Apesar de não ser um papel tão importante como aquele que teve enquanto ator ou fundador do Sundance, Redford também teve alguma relevância como realizador”, sublinha Leitão Ramos. “Conseguiu manter-se na primeira cena do cinema. É incrível. Nunca desapareceu ou teve uma decadência, talvez porque soube juntar ao trabalho de ator o de realizador e depois o Sundance. Esteve sempre no espaço público do cinema.” E na carreira de Redford também se conta a história recente do cinema: passou pelo fim dos estúdios e da era de ouro de Hollywood, pelo crescimento do cinema independente e a reconstituição da sétima arte nos Estados Unidos. “É um homem sintonizado com o seu tempo e, se aparecesse hoje, teria o mesmo sucesso, apesar de tudo ter mudado na indústria.”

No ano passado, o crítico do Expresso viu Robert Redford no Festival de Veneza, em Itália. O ator norte americano, que então acabara de completar 81 anos e protagonizava o filme “Nossas Noites” ao lado de Jane Fonda, foi homenageado com o Leão d’Ouro. “Aos olhos do grande público continua a ser uma vedeta, como se fosse um rapaz de 20 anos. Continua a ser um galã.”