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Morreu o pintor e "sábio" José David

Susana Paiva

Trabalhava sempre e sempre, todos os dias, desde as primeiras horas da manhã. José David viveu para a pintura. Morreu em Lisboa nesta sexta-feira, três de agosto, vítima de doença. Viveu 45 anos em Paris

Era uma pessoa de rara sensibilidade e tinha um sorriso único e bondoso. Adorava convívios com amigos, mas só vivia para a pintura, a sua verdadeira paixão. Trabalhava horas a fio, desde as seis da manhã, nos seus ateliês de Paris e de Lisboa – primeiro no de Monge, depois em Montparnasse e por último em São Mamede, na capital portuguesa, para onde regressou, com a mulher, Françoise, em 2014.

Vivia num mundo à parte, que ele desejava calmo e de sossego. Detestava perder tempo em mundanidades. Em Paris, fez grandes amigos, designadamente o artista plástico Manuel Alvess, já falecido, e o cineasta Carlos Saboga. Ficou muito abalado com a morte de Alvess e, muito recentemente, sofreu imenso em Lisboa com o desaparecimento de outro grande amigo pessoal, o pintor e professor de Belas Artes, Pedro Morais. Foi também amigo, por exemplo, dos pintores Jorge Martins e da artista plástica madeirense, Lourdes Castro.

Em Paris, onde se “exilou” em 1969, começou por ser ilustrador. Criou capas de livros que ficaram famosas. Algumas de autores internacionais outras de escritores portugueses como uma das edições em França de Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes.

Nasceu em 1938, em Almeirim. Começou a trabalhar cedo em Lisboa, primeiro em restaurantes, mas o desenho e a pintura atraiam-no irresistivelmente e, à noite, frequentava a Sociedade de Belas Artes. Depois foi trabalhar para numa agência de publicidade.

No entanto, a vida na época na capital portuguesa não lhe agradava. “Estava farto de andar sempre às voltas no Chiado”, disse-me um dia. Não avançava, o país era política e culturalmente sufocante, queria evoluir na arte e decidiu, em 1969, partir para Paris, onde iniciou uma carreira de ilustrador, ao mesmo tempo que desenvolveu inúmeros trabalhos de pintura, sobretudo a óleo, mas também aguarelas.

Abandonou a ilustração nos anos 1990 e dedicou-se por inteiro à pintura. Recorria a diversas técnicas, designadamente também a colagens. Deixa uma vasta obra e muitos dos seus trabalhos foram apresentados regularmente em Paris ou em Lisboa em diversas exposições, nomeadamente no Centro Cultural Calouste Gulbenkian (Paris) ou na Casa Fernando Pessoa (Lisboa). Fez autorretratos, pintou animais, touros e galinhas, paisagens…

Era um humanista, um pouco zen, uma pessoa simples que também gostava de cozinhar em casa para os amigos. Era especialista em dois pratos: frango guisado com gengibre e bacalhau cozido com todos. Muito culto, via todas as exposições que lhe interessavam em Paris ou noutras cidades. Dizia que andava sempre a aprender e que pintar exigia muito trabalho.

Falava apaixonadamente de pintura, mas também de literatura e de cinema, da vida, das pessoas, da amizade e do amor. Escandalizava-se com as peripécias estranhas do mundo da política e adorava ver um bom jogo de futebol. Ainda recentemente seguiu com a maior atenção possível o Mundial da Rússia, mas, devido à doença, já via mal.

Era uma espécie de sábio, um conselheiro a que amigos recorriam até para tentar resolver problemas complicados pessoais. Era um ser humano indispensável para nós, os seus amigos.

O velório do corpo de José David será este domingo, 5 de agosto, a partir das 17h, na capela São Francisco de Assis, na capital portuguesa, e o corpo seguirá para o crematório na segunda-feira.