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Hélder Guimarães: “Sou um mágico alternativo”

rui duarte silva

Foi, aos 23 anos, campeão do mundo de magia, numa prova em que até os maiores especialistas foram enganados. Divide o seu tempo entre Los Angeles e Portugal, com humor e um baralho de cartas

Basta-lhe um baralho de cartas e uma audiência. Transforma-se e, de repente, está a apresentar um dos melhores espetáculos do mundo com cartas. E humor. Aos 36 anos e já com vários prémios internacionais, faz rir em todo o lado, dos EUA à Ásia, da América Latina à Europa. Emociona-se por ver na plateia Barbra Streisand ou Woody Allen a rirem-se com as suas piadas, mesmo se vive longe do universo e do culto dos famosos.

Tem um espetáculo em que mistura o humor com a magia. Há dificuldades acrescidas em fazer isso em línguas diferentes?
Não diria isso. Cria uma consciencialização daquilo que eu sei sobre a forma como o público se diverte. Em Portugal, ou em Los Angeles. Isto trás uma dinâmica ligeiramente diferente no momento das piadas. A área cinzenta que posso percorrer tem pontos comuns, e outras muito diferentes. Lá sou perdoado por coisas que cá nunca seria, porque sou estrangeiro e até é muito engraçado, por exemplo, eu dizer fuck, o que não aconteceria cá. Usar palavrões não faz parte do meu registo.

As reações espontâneas são mais difíceis noutra língua?
Tenho 50 soluções na minha cabeça para momentos completamente insólitos. O que parece improvisado num espetáculo, trabalha-se, embora existam momentos genuínos.

Os truques na magia são universais?
Os princípios da ilusão são mais ou menos universais. A aplicação desses princípios, nem tanto. Comparando com a comédia, percebemos que os mecanismo do riso são universais, mas a aplicação desses mecanismos pode não ser tão universal. A magia não é muito diferente. Joga é com outros códigos.

Como é que se cria um truque?
Primeiro é preciso ter um domínio muito grande dos princípios da ilusão. Há uma expressão de que gosto muito e que diz que a magia é algo que funciona por haver uma comunicação que é quebrada pelo público. Ou seja, o público vê certas coisas que quero que veja, mas não vê outras que não quero que veja. Isso faz com que o público crie uma narrativa na sua cabeça que o leva a um espaço onde experiencia algo de impossível. Achamos que a magia acontece quase espontaneamente, mas o trabalho que está a acontecer para que a ilusão seja perfeita é extremamente complexo. Essa é a beleza que me atrai.

Para lá do treino e da técnica é necessário um talento inato?
Quando se chega a níveis de excelência, em qualquer área, e se transcende os parâmetros de avaliação, não tem nada a ver com heranças. Resulta antes de uma vontade superior à dos outros e estar disponível para abdicar de mil outras coisas para perseguir um sonho. Não posso negar que o facto de o meu pai ter sido mágico como hobby fez com que começasse muito cedo, o que é uma mais-valia. É tudo muito bonito, mas ninguém sabe do que abdiquei para chegar onde cheguei.

Qual foi o truque que a si próprio mais o surpreendeu?
Talvez um número que fiz num espetáculo em Los Angeles, chamado ‘Bourrough Time”. O público baralhava as cartas e eu memorizava-o na ordem que as cartas eram colocadas. No final indicavam, por exemplo, uma carta na posição quatro. Eu respondia que era o sete de copas, e assim sucessivamente. Íamos ver e confirmavam-se todas. O meu objetivo era memorizar aquelas cartas e manter essa memória durante o espetáculo todo para no final conseguir ter aquele momento. Estruturei o espetáculo à volta disso e pretendia consegui-lo de uma forma diária. Esqueci-me que havia alturas com três espetáculos diários. Temi começar a confundir ordens de baralhos de uns espetáculos para os outros, porque havia apenas uma hora e meia de intervalo. Consegui, e foi uma surpresa, porque tive de aprender a esquecer, algo que nunca pensei que fosse tão importante como aprender a memorizar.

Não está já tudo feito com um baralho de cartas?
Não. É como um pianista. Pensa-se que já se tocou tudo e de repente aparece algo que soa a novo. Para mim, as cartas são uma forma de expressão. Há coisas clássicas. Estes exercícios de memória do baralho de cartas vêm do século XVI e XVII. Na ilusão não há princípios novos, tal como não há notas novas na música. A maneira como são tocadas ou trabalhadas é que pode mudar. Os princípios de ilusão podem ser novos ou melhorias de aplicações clássicas.

Concebe sozinho os espetáculos?
Sim. Gosto muito de dizer que não sou um mágico pop, no sentido em que a maioria os artistas pop não escrevem as músicas, nem tratam dos arranjos. Sou mais um mágico alternativo. Sou absolutamente contra pessoas que trabalham como consultores mágicos para outros mágicos. Isso só faz sentido, como já o fiz, em projetos que não são de magia, mas precisam de uma ajuda de alguém da área.

Que trabalhos foram esses?
Um projeto de televisão que tinha a ver com a ocultação de câmaras. Fiz consultadoria para filmes. O mais recente foi o “Ocean’s 8”, com Sandra Bullock e Cate Blanchet, mas também fiz para peças de teatro.

Quando foi convidado para trabalhar num clube em Los Angeles já tinha sido campeão do mundo de magia. Antes já tinha o hábito de ir aos EUA?
Não. O ser campeão do mundo pode dizer-se que foi uma rampa de lançamento. Tinha 23 anos. Fui o campeão mais novo.

O que é que fez a diferença nesse campeonato disputado em Estocolmo?
O facto de ter à minha frente dez especialistas, alguns deles premiados em campeonatos mundiais anteriores, e outras figuras de referência da comunidade, que ao fim de dez minutos não sabiam como é que eu tinha feito a minha atuação. Consegui enganá-los e aos 2800 mágicos que assistiam à convenção.

Qual o próximo desafio em termos de espetáculo?
Acho que o mundo hoje está a perder o mistério. Estamos a perder um lado ingénuo que também traz felicidade. Nem sempre saber tudo é uma coisa necessariamente boa. Este equilíbrio, entre o que podemos saber e o mistério que devemos manter, é o que abordará o meu próximo espetáculo nos EUA.