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Foi educada em casa, tornou-se um fenómeno e não gosta de sorrir: “Faz-me sentir fraca”. Dizem que ela vai ser uma estrela

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Billie Eilish é um dos 16 nomes na Sound Off 2018, lista da BBC com uma seleção de artistas emergentes que vão provavelmente dar que falar. Ponto fundamental: ela tem 16 anos. Outro ponto fundamental: ela detesta que lhe falem sempre da idade (“porque é que isso tem de me definir?” )

Apontada como uma das maiores revelações pop dos últimos tempos, Billie Eilish não gosta de sorrir. “Faz-me sentir fraca, sem poder, pequena. Sempre fui assim. Não sorrio para nenhuma fotografia.” A expressão séria é por isso uma imagem de marca da cantora, a par das roupas largas, da voz grave sussurrada, do estilo pouco convencional e das afirmações desarmantes: “Adoro ser julgada. Estou aqui para isso”.

Há na sua atitude um misto de profundidade e rebeldia que chega a ser intimidante, talvez por ambas parecerem tão autênticas. E sim, é preciso falar na idade, porque a maturidade que nela transparece é tanto mais surpreendente se se considerar que tem apenas 16 anos. Billie é uma miúda que gosta de fazer coisas de miúda, como partilhar nas redes sociais um vídeo em que coloca água numa narina para a fazer sair pela outra enquanto a mãe lhe ralha “Billie, não faças isso”; mas é ao mesmo tempo uma compositora que um nicho cada vez mais alargado de admiradores traz debaixo de olho, rendidos à qualidade da sua voz e das suas composições.

Não é à toa que a BBC a incluiu entre os 16 nomes da Sound Off 2018, a lista com a seleção de artistas emergentes que vão dar certamente que falar. Isto apenas com um EP disponível para download (“Don´t smile at me”), já que o primeiro CD só deverá ser editado em 2019.

O salto para a fama aconteceu há dois anos, inesperadamente, com “Ocean Eyes”. De ilustre desconhecida, a jovem então com 14 anos deu nas vistas com o tema que o irmão compôs e que ela gravou a pedido da professora de dança, que queria coreografar a balada. O ‘upload’ feito no SoundCloud tornou-se viral, a ponto de um ano depois Billie Eilish ter um contrato assinado com a Interscope Records (etiqueta da Universal Music).

Para Billie, foi uma enorme surpresa. Nunca lhe passara pela cabeça o interesse que viria a despertar e que aumentou a cada tema lançado. A popularidade começou em grande parte a refletir-se na sua conta no Instagram. @wherearetheavocados tem atualmente 4,1 milhões de seguidores e é uma das formas de a cantora se manter em contacto com os fãs.

Nascida em Los Angeles uma semana depois do ataque às Torres Gémeas, Billie Eilish Pirate Baird O'Connell não teve uma infância comum. É a mais nova de dois irmãos, criada numa família de músicos e atores. Para os pais, a prioridade em matéria de educação foi estimular a criatividade dos filhos, dando-lhes espaço para descobrir o que mais lhes interessava e deixando que isso conduzisse o seu dia a dia. Educada em casa, a música mas também a comédia e a dança foram os alicerces da sua formação, tendo aprendido com a mãe a escrever letras para canções, aliás como Finneas O’Connell, o irmão, que se tornou o seu parceiro artístico e que é o produtor de quase todos os temas que Billie interpreta.

Afastada da dança por causa de uma lesão

Aos oito anos ingressou num coro infantil de Los Angeles, mas a dança foi a sua primeira grande paixão, dedicando-se ao estilo contemporâneo. “Sempre me expressei através do movimento. Ajuda-me nos momentos piores. É a minha maneira de não pensar em nada e deixar sair. Fica tudo bem”, dizia numa entrevista recente. Quando uma lesão a afastou, “foi duro”, admite. Integrada numa companhia, Billie Eilish teve de se afastar das competições em 2016.

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O revés na dança fixou-a na música. Desde os 11 que escrevia e cantava temas seus, mas aprofundou então o trabalho com Finneas, construindo ambos uma sonoridade própria, em que a voz de Billie contrasta com sons de sintetizador, às vezes estranhos, inesperados ou agressivos, mas sobretudo com um resultado final que sobressai pela diferença.

As letras surpreendem também. Em “Bellyache”, por exemplo, Billie toma o lugar de um assassino. “Sitting all alone, mouth full of gum, in the driveway,” canta. “My friends aren’t far—in the back of my car lay their bodies.” Anos antes, a primeira música que escreveu, “Fingers Crossed”, nasceu de um exercício que lhe foi pedido – escolher frases marcantes a partir de um filme ou de uma série que visse – e surgiu depois de assistir a um episódio de “Walking Dead”.

Colocar-se na pele de personagens ou escrever a partir de um contexto de ficção é habitual. Mas Billie Elish diz também que sempre teve queda “para dar atenção a coisas estranhas sobre as quais ninguém pensa”. Uma das suas “manias”, por exemplo, é “pegar no telemóvel e gravar a sua reação a qualquer coisa horrível ou fixe” que lhe aconteça. “Faço-o antes mesmo de pensar muito nisso ou no que estou a sentir.”

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Em julho de 2017 apresentou “Copycat”, um tema que resultou de “saber exatamente o que queria escrever”. Explicava na altura: “À medida que te tornas mais reconhecido e mais ‘importante’, as pessoas começam a copiar tudo o que fazes. Mas se fizeres tudo o que eu faço, qual o sentido de tentares ser tu mesmo se nem sequer és tu realmente?”.

É por isso que canta “you committed, I’m your crime; you got your finger on the trigger but your trigger finger’s mine”. Ou ainda “you’re italic, I’m in bold”.

A Billie Eilish aborrece que lhe falem sempre na idade. “Porque é que isso tem de me definir?” Não é a primeira artista a dar cartas cedo. Basta recordar Miley Cyrus, Ariana Grande ou Demi Lovato, entre outros nomes. Mas nasce de outro universo e com um som mais adulto, dizem os críticos, o que a afasta desde o início do habitual estereótipo juvenil.

Há quem a compare a Lana Del Rey, mas há quem pura e simplesmente diga que Eilish é demasiado original para se tentarem comparações. Depois de ter chegado à televisão com “Bored” na série da Netflix “Por treze razões” e de ter cantado “Lovely” em dueto com Khalid, já em julho apresentou de surpresa “You should see me in a crown”. Em poucas horas, milhões ouviram o tema e os fãs voltaram a aplaudir.

Fiel à sua irreverência, quase em simultâneo com o lançamento da canção partilhou nas redes sociais um vídeo com uma tarântula a sair-lhe da boca – e não é montagem, foi garantido posteriormente. Sim, Billie Eilish tem também o seu quê de assustadora.