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E Bruno Dumont descobre extraterrestres!

Kevin (Julien Bodard), o tenente Carpentier (Philippe Jore), o comandante Van der Weyden (Bernard Pruvost), Coincoin (Alane Delhaye) e Eve (Lucy Caron) em “Coincoin et les Z’inhumains”

“Coincoin et les Z’inhumains”, série delirante do canal ARTE, vai enfeitiçar 10 mil almas 
na Piazza Grande antes de chegar 
às salas e ao pequeno ecrã. 
A estreia mundial 
foi este sábado

Vamos outra vez para Audresselles, no departamento de Pas-de-Calais, norte de França. Quem já passou por esta banal vila de pescadores, pacata na maior parte do tempo, diz que cruzou uma terra estranha em que os habitantes, metidos com os seus botões, não primam pela simpatia. Em 2014, mais estranha a vila se tornou ainda quando Bruno Dumont, que é da região (de Bailleul, do outro lado do Parque d’Opale), tornou Audresselles um ‘estúdio a céu aberto’ e ali fez com as suas gentes, extraordinários atores amadores recrutados no terreno, uma comédia burlesca fora de modas, tão refinada quanto excêntrica, rodada em scope como o grande cinema — apesar de se tratar de uma minissérie de quatro episódios, cada um com 50 minutos de duração, produzida pelo canal franco-alemão ARTE. Nascia “P’tit Quinquin”, que tal como noutros sítios do mundo também em Portugal chegou às salas (“O Pequeno Quinquin”, fevereiro de 2015), independentemente da sua difusão no pequeno ecrã que, no hexágono, foi um tremendo êxito, algo sem precedentes na carreira do exigente Dumont. No primeiro episódio, abria-se um inquérito policial quando aquela vaca morta era encontrada com uma mulher esquartejada no seu interior. O herói da história, Quinquin, miúdo rufia de 12 anos, pré-delinquente, observava o ‘prodígio macabro’ de tal descoberta com os seus companheiros e a namorada Eve. O crime, esse, era investigado por uma dupla de agentes da gendarmerie que podiam pedir meças a Bucha e Estica ou a Dupond e Dupont: Roger Van der Weyden, um comandante atento mas tresloucado, cheio de tiques no corpo, e Rudy Carpentier, seu assistente, tenente trinca-espinhas e cascadeur amador ao volante, especialista a guinar carros da polícia e a circular em apenas duas rodas. A dose de loucura e os golpes de humor negro eram de monta e o êxito acabou por nem ser assim tão inesperado: através daquelas personagens, era a sociedade francesa que afinal se descobria em xeque.

COISAS DE OUTRO MUNDO

Dumont continuou a fazer os seus filmes ditos ‘sérios’ que, invariavelmente, continuaram a estrear-se em Cannes mas saiu tocado da experiência “Quinquin”: “Ma Loute” (2016), rodado não muito longe daquele norte francês, em Wissent, abria de par em par as portas deste cinema ao humor, assim como “Jeannette, l’enfance de Jeanne d’Arc” (2017), também filmado em Audresselles, versão musical heavy metal das origens da heroína/santa francesa, filme ainda inédito entre nós. Uma sequela de “O Pequeno Quinquin” começou a ser falada em seguida e Dumont gostou da ideia. Mais maduros, os miúdos da série iriam juntar-se novamente à dupla de polícias com Quinquin (Alane Delhaye) a chamar-se agora Coincoin. Dumont realizou então mais quatro episódios dos quais o Expresso — cortesia do ARTE — já viu os dois primeiros, ainda a tempo do fecho desta edição. O Festival de Locarno, que arrancou quarta-feira e este ano homenageia Dumont com um Leopardo de Ouro à carreira, tratou de reservar a empreitada e mostra-os em prime time hoje e amanhã, às 21h30, na tela colossal da Piazza Grande, que se enche todas as noites com 10 mil pessoas. Vai ser uma sessão histórica: “Coincoin et les Z’inhumains” está no ponto, é rasgo puro de originalidade e ousadia, não perde para o anterior. O retrato da comunidade rural é tão macabro como o foi antes. O mundo ainda está às avessas. Coincoin continua a fazer diabruras, Carpentier continua a guinar carros, e às vezes até capota, saindo ileso do bólide com as rodas no ar, aos nossos olhos, no mesmo plano sem cortes: estranhos efeitos especiais invisíveis a olho nu devem também andar por aqui... Uma horda de migrantes anda por ali aos bandos, não se sabe bem à procura do quê, apesar de sorrirem mais do que os autóctones, que para eles olham com desconfiança. O mais estranho, contudo, é aquele magma escuro, pegajoso, nojento, que teima em cair do céu aqui e ali, quando não cai em cima da cabeça das personagens. A terriola anda ansiosa porque já andam cientistas a analisar aquilo — e aquilo, coisa estranha que borbulha, não é terrestre. Não se dirá muito mais para não estragar a festa, apenas que estas discretas forças sobrenaturais são parasitárias e desatam a clonar as suas vítimas, mantendo-as vivas, tal e qual, mas não propriamente sãs — e deixando Van der Weyden, ele que nem óculos usa, a ver a dobrar... É uma ideia de génio esta, em que o doppelgänger sai do corpo depois de ser matéria líquida, sem que depois se consiga distinguir qual é o humano verdadeiro e o falso — e uma ideia que remete imediatamente para Lynch, que é o rei dos duplos. “Coincoin et les Z’inhumains” está ‘condenado’ a ser um dos acontecimentos televisivos (e cinematográficos) deste ano, o delírio mais insolente e exquis (não se falou em Lynch por acaso) desde a última temporada de “Twin Peaks”.

LEOPARDOS

As principais secções competitivas, Competição Internacional e Cineastas do Presente, não tardaram a trazer frutos nos primeiros dias. “A Family Tour”, novo filme do chinês Liang Ying (“When Night Falls”), exige demora para dizer ao que vem na história daquela cineasta chinesa que se viu forçada a ‘exilar-se’ (por razões políticas) em Hong-Kong: o seu trabalho incomoda o regime. Ao visitar a mãe em Taiwan (é convidada por um festival) encontra à sua chegada uma teia de vigilantes e de burocracias que começam a dar-nos uma noção real do problema — e ao mesmo tempo, há uma relação mãe-filha a recuperar. “Sophia Antipolis”, segunda-longa do francês Virgil Vernier (após “Mercuriales”), compete no Cineastas do Presente e é um triunfo que terá longa vida em festivais. Apresenta-nos um conjunto de situações do quotidiano em que a loucura, e até o sobrenatural, se vão insinuando nos planos. A história de uma adolescente que mentiu na idade quando quis aumentar o peito numa clínica de cirurgia plástica dá lugar a outras, até cruzar-se, numa relação provável, com um crime hediondo que vitimou uma rapariga, raptada e depois incinerada por um gangue extremista na Côte d’Azur (perto de Sophia Antipolis, o parque tecnológico do título). Há muitos atores, todos amadores e recrutados naquela zona de França e o que é eventualmente documento ou fait divers enleia-se naquela teia de ficção, que fica a reverberar. Do Reino Unido, uma primeira obra de estima, “Ray & Liz”, estreia do fotógrafo e artista plástico Richard Billingham cujo trabalho incide exclusivamente na história da sua família proletária, alcoólica, não inserida socialmente num lúgubre apartamento do Black Country, nos arrabaldes da Birmingham nos anos 80. Ray e Liz (papéis de Justin Salinger e Ella Smith) são os seus pais, duas vidas paralisadas na era Thatcher, que este filme sopesa com ironia.

71º FESTIVAL DE LOCARNO

De 1 a 11 de agosto