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As férias e os argonautas

Muito provavelmente, nunca daremos o devido valor à editora Livros do Brasil, menos ainda ao seu fundador. Pois que se lembre, através de uma das suas mais célebres e celebradas coleções, a figura de António Augusto da Souza-Pinto, que, entre outras coisas, nos deu a conhecer os mestres do crime e nos fez viajar... no tempo. É desta oratória de viagens que reza a crónica estivaL

Reinaldo Serrano

No próximo mês de novembro terão decorrido 65 longos anos desde o lançamento do primeiro número da Coleção Argonauta. Assim se conclui sem esforço que 1953 assinalou a estreia de uma das mais importantes e assíduas presenças editoriais destinada aos amantes da literatura de ficção científica. A tal ponto que a regularidade se manteve desde o ano inaugural até... 2005.

Pioneira no género entre nós, com obras emblemáticas e incontornáveis das mais diversas proveniências, a Argonauta desempenhou um papel único na aproximação do público a títulos e autores que marcaram a história da literatura e conduziram, em muitos casos, à sua subsequente adaptação àquilo a que hoje se chama novas plataformas. No total, foram publicadas quase 600 obras de autores consagrados num género que – passe o detestável cliché – arrasta multidões. Na esperança que a leitora ou leitor seja adepto da ficção científica, na esperança maior de que, não sendo, esteja disposto a dar uma oportunidade ao género, ocorreu-me a ligeira sugestão de emalar a trouxa de férias com alguns títulos de entre os muitos ainda disponíveis, a preço módico em alfarrabistas ou restos de coleção perdidos nas livrarias.

Para não ser exaustivo, permito-me em primeiro lugar destacar alguns dos autores que povoaram as letras da Argonauta: Clifford D. Simak, Philip José Farmer, A. E. van Vogt ou E.E. “Doc” Smith poderão não dizer muito aos afastados do género, pelo que aqui me permito sugerir a fascinante descoberta que a leitura de cada um deles proporciona. Pessoalmente, o registo de Philip José Farmer é o que mais me agrada, aconselhando sem hesitação “Mundo Sem Morte”, “Universos Paralelos”, “Viagem Para além da Morte” ou “O Dia em que o Tempo Parou”, entre os 16 títulos publicados na coleção. O estilo muito próprio de Farmer, que sabe misturar (relacionar será o termo mais adequado) como poucos realidade com ficção, bem como a construção de personagens fortes e a descrição de universos incríveis tornam particularmente sedutora uma vasta obra deste norte-americano falecido em 2009.

Além dos acima mencionados, claro que deve destacar-se aquele que é, para muitos (escriba incluído) o maior autor de sempre no domínio da ficção científica: o polaco Stanislaw Lem não podia ficar de fora da criteriosa seleção da Argonauta e títulos como “A Nave Invencível” ou o mítico “Solaris” (agora reeditado pela Antígona e pela primeira vez com tradução direta do polaco) são de leitura obrigatória. O mesmo poderá e deverá dizer-se de “Prisioneiros do Poder”, dos irmãos Arkadi e Boris Strugatsky (criadores de “Que Difícil É Ser Deus”), ou de um dos livros que mais me marcou: “A Guerra das Salamandras”, do checo Karol Capek. Escrita em 1936, a poderosa narrativa dá-nos conta de uma viagem que conduz um barco e a sua tripulação à misteriosa ilha de Devil Bay. O território é habitado por uma raça de seres alienígenas semelhante às salamandras - e mais não digo...

Posso dizer, em último lugar, que quando estiver a arrumar os trajes estivais, arranje espaço para levar consigo “O Planeta dos Homens Alados”, do norte-americano Poul Anderson, e “O Castelo de Lorde Valentine, de Robert Silverberg ou, ainda, o soberbo “Crónicas Marcianas”, de Ray Bradbury. E pronto: a lista é de sugestões, a decisão é sua, caro leitor ou leitora. Seja como for, o importante mesmo é não esquecer o papel único que a coleção Argonauta desempenhou ao longo de meio século em Portugal – país com mais letras que letrados, com mais preconceito que abertura, com mais desconfiança que certeza.

Ler os livros da Argonauta (os primeiros números são escassos mas ainda vão surgindo) é levar na mala todos os universos que a mente (brilhante) de dezenas de autores concebeu para tornar mais admirável... o mundo novo a que nos conduzem. Deixemo-nos ir sem receio.