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Estes são os ‘narcos’ galegos

O ator galego Javier Rey, protagoniza a série espanhola sobre o narcotráfico

Há uma nova produção espanhola à procura de sucesso internacional. Chama-se “Fariña” 
e centra a ação na Galiza dos anos 80. 
A série de ficção, baseada no polémico livro homónimo 
de Nacho Carrero, 
já está disponível 
em streaming 
no Netflix

“O que teño que facer para non ter que ir ao mar, sobra peixe que vender e fariña para amasar”, canta-se no início de “Fariña”. E a frase será o mote para toda a série. Aqui explora-se a realidade de um grupo de homens de uma região pobre e subdesenvolvida, onde a pesca é a principal atividade. Não dá muito mais do que pobre alimento pão para a boca e dissabores no coração, pelo que a situação terá de mudar drasticamente. Costeira e fronteiriça, a Galiza tem tudo para se tornar numa nova Sicília, mas aqui tudo acontece de forma diferente.

Baseada no polémico livro de Nacho Carretero (“Farinha” é editado em Portugal pela Desassossego) — um trabalho jornalístico que revela a história negra do contrabando e do narcotráfico na Galiza —, a série de ficção transporta-nos para o início dos anos 80 para mostrar como tudo se altera em menos de nada. Quando algo mais lucrativo surge, o que não traz riqueza é abandonado e é exatamente isso que acontece com a pesca. Mas o adeus à captura de peixe nas noites frias do Atlântico não tira estes jovens do contacto com o mar.

Se o contrabando de tabaco chega primeiro, este acaba por ser substituído por uma preciosa mercadoria que viria a mudar a vida de toda aquela gente. É mais à frente, nos anos 90, quando 80% da cocaína que chegava à Europa desembarcava nas costas galegas, e esse é um dado importante para perceber como esta história desconhecida é muito maior do que se julga. A vida dos cartéis na Galiza é muito diferente da que se conheceu em “Narcos” — primeiro sobre Pablo Escobar e depois sobre o cartel de Cali, à qual se seguirão novas personagem em “Narcos: México”, com estreia marcada para este ano no Netflix —, mas a ligação existe. Mesmo que os senhores do contrabando galego se reunissem à mesa e tratassem dos negócios como se de uma cooperativa se tratasse, a verdade é que foi com o cartel de Medellín que Sito Miñanco (interpretado aqui por Javier Rey) negociou a entrada da cocaína em território espanhol.

Mas é melhor voltar um pouco atrás para entender como é que os futuros narcotraficantes se conseguiram proteger enquanto cresciam. É que ao darem trabalho à população e melhorando as suas condições de vida — uma receita que poderia ter vindo também de Pablo Escobar — mantinham-na do seu lado, ao passo que a complacência comprada das autoridades dava a restante ajuda necessária. Naquele tempo, o contrabando de tabaco (muito dele com Portugal) era considerado apenas uma “falha administrativa”, pelo que não havia nada a temer.

“Fariña” parece ter os ingredientes necessários para se tornar na nova série de sucesso espanhola e teve até melhores resultados em televisão linear do que “La Casa de Papel” — que se transformou na série de língua não inglesa mais vista no Netflix e que terá nova temporada no próximo ano —, mas isso depende da forma como a audiência internacional olhar para a história espanhola. A produção da Atresmedia Televisión com a Bambú Producciones e a alemã Beta Film tem a seu favor a temática, numa altura em que o interesse por séries relacionadas com o mercado da droga continua em alta, mas também a forma como os telespectadores hoje olham para a ficção vinda de Espanha. Ainda é cedo para perceber se somar um universo próximo de “Narcos” a uma série dos responsáveis por “La Casa de Papel” será sinónimo de sucesso para “Fariña” (já disponível no serviço de streaming), mas as apostas são altas.

UM NOVO CENTRO DE PRODUÇÃO

O entusiasmo internacional em torno da produção espanhola levou a Netflix a criar em Madrid o seu primeiro centro de produção europeu (um campus de 22 mil metros quadrados na Ciudad de la Tele), depois de o gigante do entretenimento ter já anunciado que este ano contará com 13 mil pessoas a trabalhar em 20 produções originais no país. Em declarações enviadas ao Expresso, o vice-presidente de originais internacionais na Netflix refere a importância da “rica herança de criação de conteúdos inovadores e imersivos” em Espanha como uma das razões para o investimento, expressando que “a criação do primeiro centro de produção europeu criará novas oportunidades” não só em Espanha como em toda a Europa.

A este investimento junta-se ainda a assinatura de um acordo global com Álex Pina, responsável por “La Casa de Papel” (Netflix) e “Vis a Vis” (FOX Life), para a criação de novos conteúdos e ainda acesso privilegiado ao licenciamento de novas séries dramáticas da Atresmedia (a próxima a estrear-se será “La Catedral del Mar”), enquanto as séries cómicas da produtora estarão no Amazon Prime Video. Em cima da mesa está ainda o investimento em licenças de exibição de títulos de outros produtores espanhóis, assim como novas coproduções.

FARIÑA

A partir de Nacho Carrero

Com Javier Rey, Tristán Ulloa, Antonio Durán, Carlos Blanco
Netflix, já disponível em streaming
(Temporada 1)