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Na sombra de um mito: Celeste Rodrigues (1923-2018)

António Pedro Ferreira

Viveu sempre na sombra da sua contingência. Não foi fácil ser irmã de Amália Rodrigues. Três anos mais nova, fisicamente muito parecida com ela, escolheu o mesmo destino: ser fadista. Celeste Rodrigues continuou sempre a cantar e a gravar discos. Por amor ao fado (Artigo publicado originalmente na revista do “Expresso” de 14 de abril de 2006)

As mãos, marcadas pelo verniz vermelho, ocupam-se em acender mais um cigarro. É o terceiro maço do dia. Os olhos pequenos, vivos, num rosto sulcado pelo tempo e agora amaciado pela luz ténue da vela, estão entretidos no que se passa ao fundo da sala. Nos acordes que nascem da guitarra portuguesa. «É tão bonito, não é? É único. Como a palavra saudade», murmura Celeste Rodrigues. Chega o porteiro do restaurante à mesa. Segreda-lhe ao ouvido. Tem uma encomenda. Rosas brancas oferecidas pelo director do Teatro Nacional S. João do Porto, Ricardo Pais, para celebrar a data do seu aniversário.

É que nessa mesma terça-feira, Celeste completa 83 anos de vida. A noite em que, habitualmente, canta no Restaurante Bacalhau de Molho, em Alfama. Recebe as flores nos braços e pede ajuda a Diogo Varela, seu neto e agente artístico, para decifrar os escritos do cartão. Sorri e pousa-as na mesa. Os ponteiros do relógio cruzam a meia-noite. Mais uma passa no cigarro. Um choradinho de guitarras, violas e viola-baixos anuncia-a como a fadista que se segue. Além de si, já cantaram Ana Moura, Jorge Fernando e Vânia Duarte. O neto faz-lhe uma carícia nas costas colada a um pedido: «Canta o ‘Meu corpo’ do Ary dos Santos». Ela hesita. «Ai, esse não. Aqui não me sinto à-vontade. Não fica bem na minha idade cantar temas sobre o desejo físico». Avança na penumbra para junto dos músicos. Deita a cabeça para trás. Mãos no peito, olhos cerrados, unhas cravadas nas rendas do xaile. Tem a postura sólida de uma velha estrela do fado. Por momentos, a sua imagem assemelha-se à da sua irmã Amália. É inevitável a comparação. O público aguarda, em suspenso.

Sobre a guitarra, ouve-se a voz grave, segura, extraída bem lá do fundo de si a entoar o tal fado pedido pelo neto — composto em tempos por Ary dos Santos e Fernando Tordo para a fadista Beatriz da Conceição. As palavras «inundam» a sala. «Meu corpo é um barco sem ter porto, tempestade no mar morto. Sem ti/ Meu corpo é apenas um deserto, quando não me encontro perto. De ti». O público reage: aplausos e «Bravo! Bravo!»

Este entusiasmo não lhe é desconhecido. Celeste recorda-se bem da ovação que recebeu há 61 anos, na noite em que se estreou como fadista profissional, no conceituado palco do Casablanca — actual Teatro ABC, no Parque Mayer. Era uma jovem rapariga de 22 anos. «Fui convidada para actuar lá porque o José Miguel, dono do espaço, tinha-me ouvido cantar junto de um grupo de amigos na Adega da Mesquita, em Alcântara». Nesse serão, a irmã Amália colocou-lhe um xaile preto nos ombros, para lhe abençoar o destino, como manda a tradição. «Ela foi a minha madrinha de fado». Depois do baptismo, munida de carteira profissional, Celeste nunca mais deixou de cantar. «Diziam que tinha bom timbre. Desde aí, cantei 20 anos seguidos, sem folgas. Come- cei a ganhar 100 escudos por actuação. O que era muito dinheiro para a altura», evoca. Esqui- va-se a comparações com a irmã em matéria de competências vocais. «Tenho outro tipo de talento». Recorda que, desde logo, Amália as- cendeu ao estatuto de nova estrela do fado. Desejada, idolatrada por este e pelo outro mundo. «A minha irmã tornou-se rapidamente famosa. Tinha uma voz com muito maior extensão do que eu. Eu, de qualquer maneira, nunca dei importância à vida artística ou à minha car- reira. Fiquei com horror ao que aconteceu com ela. Porque, às tantas, deixou de se pertencer a si. Perdeu a liberdade e sacrificou a felicidade pela carreira», desabafa.

1. No restaurante A Viela, com amigos; 2. Em Nice, acompanhadas pelo motorista Armando, anos 50; 3. As três irmãs (Celeste, Odete e Amália) cantam juntas n’A Viela, em 1959; 4. Numa praia do Rio de Janeiro, em finais de 60; 5. Jantam ostras na cidade de São Paulo, Brasil, em 1945 6. Celeste à mesa com o neto, Diogo Varela, no Restaurante Bacalhau de Molho

1. No restaurante A Viela, com amigos; 2. Em Nice, acompanhadas pelo motorista Armando, anos 50; 3. As três irmãs (Celeste, Odete e Amália) cantam juntas n’A Viela, em 1959; 4. Numa praia do Rio de Janeiro, em finais de 60; 5. Jantam ostras na cidade de São Paulo, Brasil, em 1945 6. Celeste à mesa com o neto, Diogo Varela, no Restaurante Bacalhau de Molho

Afirma que nunca foi assomada por ciúmes pela vertiginosa ascensão da irmã. «Nunca. Nunca isso aconteceu. Acabei, com certeza, mais feliz e realizada do que ela. Tive filhos, netos e uma vida de afectos sempre preenchida. A Amália não teve tempo para isso», deixa escapar, antes de acender novo cigarro. Fala das perseguições que lhe moveram na rua por a confundirem com a irmã. Em especial, na fase em que estreou no cinema Condes, em Lisboa, o filme Capas Negras, prota- gonizado por Amália, em 1947. «Gritavam-me: ‘Olha a Maria Lisboa’ e iam atrás de mim. Tive que passar por isso algumas vezes».

Claro está que Celeste não escapou à chacota e ao desdém de algumas bocas por ter ousado seguir a mesma profissão da «mana». O fadista João Braga — amaliano confesso — recorda, a propósito, uma certa quadra, provocadora e risível, criada há mais de 50 anos pelo poeta D. Hermano Braamcamp Sobral (Conde de Sobral) com o expresso objectivo de achincalhar Celeste: «Faz-me impressão certa artista/que canta com tanto afã/ Não canta por ser fadista/ canta só por ser irmã» — João Braga sabe-a de cor, mas afirma demarcar-se dos versos envenenados. «A Celeste tem todas as características de uma grande fadista. É muito autêntica, sente o que canta — aliás, tanto como Amália o sentia. Podia ter chegado a ser um caso de fado. Julgo que só não o foi pela sua contingência de irmã de uma deusa. Um legado extremamente difícil de gerir».

Fazendo por ignorar estas más-línguas, Celeste assegura que foi sempre cúmplice da irmã Amália. Desde crianças que se habituaram a andar juntas para todo o lado e a partilhar confidências. «Como não podia deixar de ser, éramos família». O gosto pela música esteve enraizado no lar da família Rodrigues. De dia, as manas habituaram-se a ouvir «os cegui nhos da rua» a entoarem temas populares. À noite, os serões eram animados pela voz da mãe, Lucinda, a trautear can- ções típicas da Beira Baixa, acompanhada pelo pai, Albertino, músico profissional, que tocava trompete, saxofone, clarinete e cornetim.

As dificuldades financeiras por que passou a família Rodrigues nos primeiros anos de vida foram repe- tidamente contadas à imprensa por Amália. Rodeada por cinco irmãos, Celeste estreou-se no primero emprego aos nove anos, a descascar e enlatar ervilhas. Dez tostões (meio cêntimo) rendiam para o bolso por cada lata de 5 kg que conseguisse encher. «Claro que não tinha mãos para encher os recipientes com rapidez. Eram as colegas mais velhas que me ajudavam a despa- char trabalho», lembra, divertida.

1. Com os pais, Lucinda e Albertino, na Beira Baixa. Lucinda trauteava canções populares, o pai era músico profissional; 2. Cerimónia de casamento pelo registo, Lisboa, 1 de Dezembro de 1954; 3. No baptizado da primeira filha, Maria Rita, junto do marido e dos padrinhos Amélia Rey Colaço, Robles Monteiro, e Mariana Rey Monteiro

1. Com os pais, Lucinda e Albertino, na Beira Baixa. Lucinda trauteava canções populares, o pai era músico profissional; 2. Cerimónia de casamento pelo registo, Lisboa, 1 de Dezembro de 1954; 3. No baptizado da primeira filha, Maria Rita, junto do marido e dos padrinhos Amélia Rey Colaço, Robles Monteiro, e Mariana Rey Monteiro

Recorda-se que um dos divertimentos preferidos das irmãs Rodrigues, nos rebeldes anos da adolescência, era abandonarem os trabalhos mais cedo, às escondidas da mãe, para gastarem o dinheiro amealhado nos ingressos para as matinés de cinema. «Eu adorava filmes de terror. Daqueles com as máscaras de cera que ganham vida ou com homens que se transformam em lobo. E, claro, gostava também das histórias românticas, dramáticas e de ficção científica».

Fisicamente muito semelhantes — mesma estatura, feições e estilos idênticos — Celeste e Amália tinham personalidades distintas. «Eu era mais alegre, ela mais pessi- mista, fatalista. Se eu era muito reguila, líder, fisicamente corajosa, meio Maria-Rapaz a subir às árvores, a fazer corrida de lesmas, a praticar natação, remo e ski; a minha irmã Amália era o oposto de mim. Nada de desporto. Gostava de casar flores. De fazer casinhas com pedras. Mais menina. Mais medrosa». Talvez por isso, na altura dos primeiros namoricos, os rapazes que abordavam Celeste acabavam sempre embeiçados pela irmã. «Perdia-os sempre para ela. A Amália era mais velha, mais mulher e fazia sempre o olhar número oito para os rapazes»... Ri-se do que acaba de revelar. «Eu? Era do género simples. Seduzia, sem seduzir». O primeiro grande amor «a sério» de Celeste aconteceu aos 17 anos e durou três. Chamava-se Zé Casimiro e era cavaleiro tauromáquico.

Em 1945, parte com a irmã em digressão por um ano para o Brasil, integrada num espectáculo de «revista à portuguesa» e numa opereta. Na ocasião, chega a participar em programas de televisão. «Foi uma óptima temporada. Corremos os palcos do Brasil. Só fiz lá teatro porque estava longe dos olhares de toda a gente que conhecia. Tinha vergonha que me vissem a representar mal na minha terra. Ganhava nove contos por mês. Era muito dinheiro. Com o primeiro ordenado comprei logo um casaco de lontra. Eu e a minha irmã chegávamos a jantar ostras».

De regresso a Lisboa, Celeste voltou a apaixonar-se, aos 25 anos, desta vez por aquele que veio a ser o seu primeiro e único marido: o falecido actor Varela Silva. Afirma que foi ele que lhe deu a conhecer os poetas. «Mas eu já conhecia os grandes escritores. Tinha lido o Eça, o Jorge Amado, o Camilo, o Torga, o Álvaro de Campos, o Dos- toievski», assegura. «O Varela era um poço de virtudes. Só lhe aponto um defeito: era extremamente vaidoso». Lembra as brigas e que- zílias que rebentavam lá em casa porque não gostava de se pintar para sair à rua, e o marido fazia grande questão nisso. «O Varela barafustava: pinta-te. Tu és uma artista. E eu respondia-lhe: Só no palco!». E, quanto a isto, faz questão de sublinhar: «Eu sempre senti desprezo pela vida artística. Nunca lhe dei importância. Canto por amor ao fado, mas nunca alimentei vedetismos. É perigoso. O pe- so da fama retirou à minha irmã o direito à vida própria».

Na década de 50, Celeste e Varela Sil- va chegam a abrir as portas de uma casa de fados, na Rua das Taipas: A Viela. Foram quatro anos marcantes nas suas vidas. Por aquele botequim passavam poetas, intelectuais, cantores, actores que se junta- vam em longas tertúlias, a beber e a comer, até altas horas da madrugada. «Quan- do eu não percebia as conversas que ali se tro- cavam, calava-me e ficava muito atenta, a assimilar», confessa. Nessa época grava o te- ma «Olha a mala», de Manuel Casimiro, que cresceu em vendas para o seu maior êxito — entre os 58 discos que chegou a gravar (entre LPs e singles). «Tem uma le- tra disparatada, encomenda do velho Valentim de Carvalho para mim, mas que chegou a disco de ouro».

 7. Numa festa no Rio de Janeiro, na década de 60; 8. As irmãs nos anos sessenta 9. À mesa no restaurante Tipóia, ladeadas pelo Visconde de Passos Nespereira e por João de Freitas (Marquês de Pombal)

7. Numa festa no Rio de Janeiro, na década de 60; 8. As irmãs nos anos sessenta 9. À mesa no restaurante Tipóia, ladeadas pelo Visconde de Passos Nespereira e por João de Freitas (Marquês de Pombal)

As portas da Viela fecham quando o negócio entra em crise. Celeste passa a can- tar na Parreirinha de Alfama, o estabelecimento da fadista Argentina Santos. Esteve lá 12 anos a cantar fado-canção, «de melodia larga», e o tradicional. «Pe- diam-me sempre para cantar o fado de Coimbra. Eternizado pela minha irmã». Soma ao currículo outra morada nocturna, desta vez por 25 anos, época que actuou na famosa Taverna do Embuçado, em Alfama. João Ferreira Rosa, 69 anos, proprietário da Taverna, por onde passaram os melhores fadistas, não lhe poupa elogios: «A Celeste sempre foi um caso sério no fado. Consegue cantar todos os dias e todos os dias sente o que canta. Os entendidos mais antigos, os puristas, chegavam a considerá-la mais fadista do que a própria Amália», garante.

Com a chegada da revolução de Abril, Celeste experimenta momentos de crise. «Passei, verdadeiramente, por um mau bocado». Acabadas as reservas financeiras, decidiu aceitar um contrato de seis meses para cantar no Canadá. «Mais valia não ter ido. Patrão fora, dia santo na loja. Foi quando a Simone (de Oliveira) chocou com o meu mari- do e juntaram os trapos», afirma num meio sorriso. Ensaia o gesto de quem sacode o ombro. «Mas fui eu que o pus fora de casa». Assume este capítulo como um dos mais penosos da sua vida. O luto do divórcio custou a fazer-se. «Não sou nenhuma carto- la. Sofri muito. Mas ninguém tem o direito de segurar uma pessoa, quando esta passa a es- tar apaixonada por outra». Deste casamento resultaram duas filhas: Maria Rita, 49 anos, e Maria José, 47, ambas a viverem actualmente em Washington, EUA.

Três anos de luto emocional. Foi quanto precisou para voltar a dirigir a palavra ao ex-marido. «Ficámos muito amigos. O Varela nunca deixou de me telefonar no dia de aniversário do nosso casamento»…

Assume que nos períodos em que viveu desaires económicos a irmã mais velha dei- tou-lhe a mão. «Nem sempre se recebe a tempo e horas das casas de fado. Ela pagava-me as dívidas. Mais tarde queria devolver-lhe o dinheiro, mas ela não aceitava».

Aos 45 anos, foi a sua vez de dar uma das maiores provas de coragem e generosidade. Ao ser informada do estado clínico da sua irmã mais nova, Odete Rodrigues (tratada por Detinha) — que padecia de uma nefrite — aceita submeter-se a um transplante para lhe doar um dos rins. Uma operação delica- da, revolucionária e invulgar para a época — década de 60 —, efectuada num hospital em Boston, com honras de destaque em jor- nais internacionais. «Fui das primeiras mulhe- res no mundo a fazê-lo. Não tive medo. Fi-lo para salvá-la», declara.

Ao que garante, foi para defender esta sua irmã mais nova que chegou a ter uma grande zanga com Amália, o que as deixou de costas viradas durante mais de três anos. «Mas tudo passou».

Celeste Rodrigues na companhia do neto, Diogo Varela, a ouvirem Ana Moura no restaurante "Bacalhau de Molho"

Celeste Rodrigues na companhia do neto, Diogo Varela, a ouvirem Ana Moura no restaurante "Bacalhau de Molho"

António Pedro Ferreira

Nos últimos anos, Celeste tem vivido emigrada em Washington, para estar junto das suas filhas e netos. Narra o episódio pas- sado numa das suas habituais madrugadas de insónias — dorme cerca de três horas por noite — quando despertou para um no- vo hóbi, a pintura a acrílico sobre tela. «Fui fumar às cinco da manhã, para o jardim da ca- sa. Olhei para cima e reparei na belíssima cor do céu. As nuvens, muito branquinhas, a pas- sarem por cima das copas das árvores. Achei lindo. Fui logo acordar a minha filha. Comecei a pintar aquele cenário na manhã seguinte».

Ri-se do fundamentalismo americano em relação ao tabaco e conta que, volta e meia, é abordada na rua por transeuntes quando acende um cigarro — «Please don’t smoke. It’s better for your health» (por favor, não fume, é melhor para a sua saúde). A resposta segue pronta, entre baforadas: «But I enjoy it!» (mas eu tenho prazer nisso!).

Foi Ricardo Pais, director do Teatro Nacional São João, no Porto, que alterou a rotina pacata desta mulher octogenária e a devolveu aos palcos em Julho do ano passado, ao desafiá-la a participar no espectáculo «Cabelo Branco é Saudade». «Perguntei à Argentina Santos se conhecia uma boa fadista da sua idade. Lembrou-se da Celeste. Mal fui informado do seu paradeiro, apanhei o com- boio para Lisboa e segui directamente para o restaurante Bacalhau de Molho para a ouvir cantar. Fiquei siderado com ela. Tem uma voz infinitamente amadurecida, sem perder a ca- pacidade interpretativa e o gosto pela palavra». Ricardo Pais sublinha que era seu «fã» na década de 60, quando Celeste actuava na Parreirinha de Alfama. «O que eu não imaginava é que ela estivesse ainda no activo a cantar e tão bem. O seu problema sempre foi o apelido e a falta de ambição», resume.

Foi com o mesmo tipo de entusiasmo que a cantora de fado Mísia a descobriu e a convidou há duas semanas a participar no seu próximo disco — depois dos fa- dos e boleros em «Drama Box» —, que contará igualmente com a voz de Maria Bethânia, a ser lançado em 2007. «Agora já não a largo. O seu domínio da voz é uma lição. A tonalidade, uma inspiração. Está entre o tudo e o nada».

Celeste mostra-se muito satisfeita com este convite e com esta fase da sua vida, e traduz o que lhe vai na alma, numa frase. «Estou bem. Estou cheia. Rica de afectos»