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“Um poeta tem de abrir os olhos”

tiago miranda

Nome maior da literatura polaca, apontado ao Nobel da Literatura, o autor de “Sombras de Sombras” fala da sua obra, da sua vida, e do lugar dos escritores na sociedade atual

Nos últimos anos, Adam Zagajewski tem aparecido regularmente nas listas de favoritos a ganhar o Nobel de Literatura. Considerado um dos maiores poetas europeus vivos, manteve-se inédito em Portugal até 2017, quando a Tinta da China publicou “Sombras de Sombras”, uma antologia bilingue (selecionada e traduzida diretamente do polaco por Marco Bruno). Discreto e introvertido, flâneur que gosta de deambular pelas ruas observando “árvores e pássaros”, foi cabeça de cartaz do ciclo de debates ‘Lisbon Revisited — Dias de Poesia’, que decorreu na Casa Fernando Pessoa, entre 14 e 15 de junho.

Exatamente há 30 anos esteve em Lisboa a participar num Encontro Internacional de Escritores, no Palácio Nacional de Queluz. Lembra-se desses dias?
Muito bem. Foi uma conferência invulgar, com dezenas de autores de muitos países e um luxo despropositado. Eu participei num painel sobre a literatura da Europa Central, mas já não me lembro do que disse. Só me recordo do painel seguinte, sobre literatura russa, em que a Tatiana Tolstoi e o Joseph Brodsky [poeta exilado nos EUA, Nobel da Literatura em 1987] se envolveram numa grande discussão, por vezes muito zangada, e que causou algum escândalo. Faltava um ano para cair o Muro de Berlim e ela defendeu uma espécie de nacionalismo russo — conceito que entretanto não desapareceu, muito pelo contrário. Assisto aliás, com grande preocupação, às sucessivas vitórias de um populismo galopante, não só nos governos da Hungria e da Polónia, como agora na Itália, para não falar de Donald Trump.

Que lugar podem ocupar os escritores na discussão política, hoje?
Não sei bem. É evidente que já não têm a influência que tiveram noutras décadas. Mas talvez possam aspirar a recuperar esse poder. Depende deles. Ou se chegam à frente e falam ou ficam calados, imersos nos seus processos estéticos.

O seu caso é paradigmático. Numa fase inicial, envolveu-se muito no combate político contra o regime comunista, mas depois mudou para um registo mais contemplativo na aproximação à realidade. Ainda tem a energia, ou o impulso, para voltar a uma escrita de intervenção política?
Eu não vou escrever de maneira diferente só para sublinhar a minha discordância em relação ao novo Governo polaco, por exemplo. Mas também não deixo de manifestar o que penso dele.

Foi o que fez num poema recente, em que dá ‘conselhos’ aos governantes: entre outros, enviar a maioria dos jornalistas para Madagáscar, internar os professores de Direito Constitucional, e deixar os poetas em paz, “porque de qualquer forma ninguém os lê”.
É um poema satírico, bastante violento. E publiquei-o porque não posso ficar calado perante a atmosfera de mentira e unanimidade artificial, essa tentativa de criar um estado nacionalista católico — um extremo ideológico oposto ao comunismo, mas também muito desagradável e perigoso.

No encontro de 1988, em Lisboa, esteve presente Czeslaw Milosz, um dos grandes nomes da chamada escola poética polaca, juntamente com Zbigniew Herbert, Wislawa Szymborska e Tadeusz Rozewicz. Como membro de uma geração mais nova, como é que se relaciona com estes autores?
Nós, os poetas que viemos depois dessa geração de gigantes, tivemos de fazer uma escolha, consciente ou inconsciente. Uns prosseguiram o seu legado; outros opuseram-se. Por natureza, não sou um rebelde e por isso não me tentei rebelar contra eles. Tentei aprender, dialogar. E tive a sorte de conhecer quase todos. Tornaram-se meus amigos. Amigos mais velhos. Mestres.

E o que aprendeu com eles?
Aprendi, por exemplo, que a poesia não deve ser um esforço puramente estético. Se o teu país, se o teu mundo está sob ameaça, tens de discutir essas coisas nos teus poemas, não te podes esconder num paraíso de beleza. Um poeta tem de se interessar por tudo. Tem de abrir os olhos. Para a política, para a filosofia, para as ideias do seu tempo.

Nasceu em 1945, no final da II Guerra Mundial, numa cidade, Lvov, que deixou de ser polaca para se tornar soviética (hoje é ucraniana e chama-se Lviv). Como é que as forças da História moldaram a sua vida?
Quando eu nasci, as pessoas à minha volta faziam as malas. A população polaca de Lvov preparava-se para partir, porque toda a gente sabia que viver na Polónia seria menos mau do que viver na URSS. Mais tarde fiquei a saber dos horrores da guerra. Olhava para as pessoas mais velhas e tentava ler nos seus rostos o que tinham passado. Há sempre uma certa ambivalência, porque, depois da mudança para a Silésia, eu vivi uma infância feliz. Era uma vida modesta, mas guardo dela boas memórias de menino, cheia daqueles pequenos prazeres infantis.

A sua família vivia na nostalgia da cidade que haviam deixado para trás?
Completamente. O mito de Lvov ocupou um lugar muito importante na vida dos meus familiares. Algo que levei muito tempo a aceitar. Em pequeno, não compreendia porque ficavam os meus pais tão comovidos ao falar do passado. As paredes do nosso apartamento estavam cobertas de fotografias e aguarelas de Lvov. Era uma espécie de museu.

Há um poema em que revisita esse mito: ‘Ir a Lviv’ (incluído na antologia “Sombras de Sombras”).
Esse poema foi como uma explosão, um acumular de forças tectónicas que correspondem aos muitos pormenores sobre Lvov que fui conhecendo, a partir de livros, de informações recolhidas aqui e ali, mas também de muitas conversas com os meus pais.

Era um poema à espera de existir?
De certa maneira, sim. Só que o processo é inconsciente. E às vezes nem sequer acontece. Há muitos poemas que se extinguem antes de começarem a existir. Na altura, teria eu trinta e tal anos, andava a ler Yeats, e acho que há nesse poema sobre Lvov um eco do famoso poema ‘Sailing to Byzantium’. Mas cá está a ambivalência. Escrevi esse poema em Paris, poucos meses depois de chegar, e sabendo que seria uma estada longa [1982-2002]. Era como se fosse uma nostalgia recém-nascida, algo que começava a sentir por Cracóvia, a cidade onde vivia e que abandonei.

Nos seus poemas há muitas ideias, cita muitas vezes filósofos, escritores, músicos, embora de uma forma que parece fugir às armadilhas da retórica. Concorda que a retórica pode matar a poesia num poema?
Oh, sim. Talvez se possa dizer que a retórica é uma expressão do óbvio. E a boa escrita nunca pode ser óbvia. Volto a Yeats: quando discutes algo com outros, é retórica; se discutes contigo mesmo, é poesia.

O seu nome aparece frequentemente na lista de favoritos ao Prémio Nobel de Literatura e…
[Interrompendo] Pelo menos este ano não vai haver lista!

Foi um alívio?
Foi. Na verdade, eu só penso no prémio Nobel durante dois dias no ano. Mas quando surgem as listas e as notícias, umas semanas antes, fico nervoso e só espero que tudo aquilo acabe. É muito desgastante.

No século XX, houve cinco escritores polacos que venceram o Nobel, dois deles poetas (Milosz e Szymborska). Aspira a ser o primeiro Prémio Nobel da Literatura polaco do século XXI?
Francamente, não me preocupo com isso. Estou traduzido e tenho leitores em muitos países. Isso é que me importa. E já recebo demasiados convites para demasiadas viagens.

Caso a Academia Sueca o venha a distinguir, os convites serão logo multiplicados por dez, ou por cem.
Eu sei. Diante desse problema, foi Szymborska quem encontrou a melhor fórmula de resposta: “Agradeço o convite, mas neste momento não posso aceitar. Tente de novo quando eu for mais nova.”