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O curioso George

Zoubeir Souissi

Pegue-se numa noite cálida. Sacuda-se o pó dos discos e respire-se o ar do vinil. Prepare-se a bebida favorita e aumente-se o volume a gosto. Sirva-se vintage o que ainda é moderno. E que assim se redescubra um dos grandes nomes da música

Reinaldo Serrano

Não cessa de me espantar (ingenuidade, talvez) os ecos do sucesso que foi a presença e a atuação de Bruno Mars na recente edição do Rock in Rio Lisboa. Sem retirar mérito ao profissionalismo do multifacetado havaiano, nascido Peter Gene Hernandez ao oitavo dia de outubro de 1985, a verdade é que a fama de hoje tende a olvidar as origens de ontem; quer isto dizer que, sem desprimor do que é contemporâneo, às vezes seria bom olhar pelo retrovisor do tempo e nele ver refletida as imagens dos que, outrora, formaram estilos que outros depois deles (e delas) haveriam de reformatar -- uns e umas com mais sucesso que outros e outras. A introdução remete para vários nomes que, no seu tempo e a seu tempo, acabaram esquecidos na espuma dos dias -- os mesmos que hoje deles se deviam lembrar. É o caso de George Benson.

Lá longe, na Pittsburgh da Pensilvânia de 1943, o pequeno George teve a felicidade de nascer no seio de uma família que amava a música e que nela tecia o usufruto da vida, amadora com coisa amada, talentosa mas não profissional, e, ainda assim, imbuída de um bom gosto que haveria de contagiar a criança e dar-lhe consistência enquanto adulto.

A primeira deu-se a conhecer a um público local que apreciava a pequenez que desafiava os seis anos de uma idade precoce: por influência do padrasto, George cedo se interessou pela música e pelos instrumentos que lhe davam voz, nomeadamente a guitarra que havia de dominar com mestria. A tal ponto que, 10 anos depois de nascer já o petiz gravava um single, e logo nos estúdios de uma “major” da música: a RCA apadrinhou os sulcos vinílicos de um tema interpretado pelo então Georgie Benson. Uma década depois surgia “The New Boss Guitar Of George Benson”, o primeiro álbum do talentoso norte-americano.

O próprio lembraria, contudo, que os primeiros anos não foram fáceis, pese embora a abertura cultural já existente nos Estados Unidos da década de 60 do século XX. O dinheiro não abundava e, se não abundava, não chegava sequer para extras; vai daí, o padrasto de George (eletricista de profissão) fez algum sacrifício para gastar 23 dólares na manufatura de uma guitarra elétrica feita da madeira de um velho baú revestido de um material novo na época: fórmica. Uns toques de alumínio e o talento do padrasto (ele próprio executante de guitarra jazz) fizeram o resto. E o resto foi uma carreira plena de êxitos e de quase 40 álbuns de estúdio... De entre os grandes “hits” de George Benson permito-me destacar (quando não, revelar) “The Greatest Love of All” -- esse mesmo: o que Whitney Houston celebrizou em 1985, sendo que o autor o havia lançado... em 1977.

Nenhuma carreira de altos passa sem um percurso de baixos. A de George Benson não foi exceção, sobretudo quando as raízes jazz e soul do intérprete desaguaram no menos sofisticado rio da pop, muito por influência que o género alcançou na década de 80. Ainda assim, e num quase paradoxo do que agora mesmo mencionei, foi em 1980 que o álbum “Give me the Night” logrou conquistar um Grammy; não por acaso, o disco teve produção assinada pelo mago Quincy Jones. 26 anos passados, uma parceria com Al Jarreau ditaria mais um Grammy para o Georgie da Pensilvânia: “Givin' It Up” mereceu amplo aplauso da crítica e reforçou a longevidade de Benson na história da música.

No total (e até ver) foram 25 as nomeações aos Grammy e 10 os troféus conquistados. Aos 75 anos, George Benson continua em plena atividade, homenageando a obra do grande Nat King Cole em espetáculos que vai dando por terras de Trump. Pelo meio, arranja tempo e ensejo para participar em diversos atos filantrópicos e de incentivo ao ensino da música junto das classes mais desfavorecidas. Integra o Grammy Hall of Fame desde 2008.

E eis como um percurso com mais de 5 décadas consegue influenciar a juventude do presente, mesmo quando esta não reconhece ou não revela as suas próprias influências. Pena é que o privilégio da atualidade prevaleça sobre o que parece ser o sacrilégio da antiguidade. Mas nunca será tarde demais para encontrar as raízes da enorme árvore da música e dos seus melhores frutos.

Escutar George Benson nos dias de hoje mais não é que sublinhar a visão que o guitarrista já tinha nos dias de ontem. Não enche recintos que misturam géneros musicais? Talvez não. Mas, por vezes, a ausência de mistura serve para reforçar o estatuto da identidade própria. Que mal poderá haver nisso?