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A morte é injusta

O homem detido no final de abril que é acusado de ter cometido os crimes atribuídos ao “Golden State Killer”

Para concluir da melhor forma a investigação de que este livro se ocupa só faltou 
a autora ter ficado para ver o criminoso ser apanhado

Luís M. Faria

Jornalista

Este livro é a obra de uma amadora que passou anos a tentar descobrir o homem que assaltou casas, violou dezenas de mulheres e matou uma dúzia de pessoas na Califórnia, entre 1974 e 1986. É uma história triste, em mais do que um sentido. Por causa das vítimas, mas também porque a autora não chegou a conhecer a solução do mistério. “Desaparecer na Escuridão” saiu na edição original em fevereiro deste ano, dois anos após a morte súbita (não criminosa, ao que tudo indica) de Michelle McNamara. Escassos meses depois, o criminoso foi finalmente apanhado pelas autoridades. Embora estas digam que nenhuma informação do livro contribuiu para isso, a chave foi o ADN, como McNamara previra.

Os crimes começaram em 1976, na zona de Sacramento, capital do estado da Califórnia. Era uma época com índices altos de criminalidade, e o caso não chamou demasiado a atenção. Para isso também poderá ter contado o facto de ter sido usada uma alcunhapouco memorável. Conforme sugere a autora, nestas coisas o marketing conta. Ao longo de três anos, o então chamado “East Area Rapist” atacou 50 mulheres, utilizando repetidamente os mesmos métodos. “A precisão e a autoproteção eram os seus traços distintivos. Depois de se concentrar numa vítima, entrava na casa antes, quando não estava lá ninguém, para estudar as fotografias de família e para se familiarizar com a planta da habitação. Desativava as luzes do pátio e destrancava portas de correr de vidro. Tirava as balas das armas. Os portões fechados de proprietários despreocupados ficavam abertos; as fotografias que tinham mudado de lugar eram arrumadas, atribuindo-se a desarrumação à desordem da vida quotidiana. As vítimas dormiam descansadas até o clarão da lanterna lhes abrir os olhos à força.”

Depois era o horror. As vítimas, primeiro só mulheres e depois também casais, descreviam um homem jovem, alto, atlético, com um sussurro que às vezes se tornava agudo ou tremia. Como é frequente nessas situações, o homem gostava de jogos. Abria tesouras e espetava facas junto às vítimas. Fingia que se ia embora e recomeçava. Dizia coisas estranhas. Às vezes ia ao ponto de telefonar às vítimas muito tempo depois do assalto. À sua maneira, era bastante racional. Depois de uma vez quase ser apanhado, começou a matar. Mas fê-lo em zonas diferentes do estado, o que lhe valeu uma nova alcunha, por ninguém ter percebido que era o mesmo criminoso de Sacramento. Ao fim de uns anos parou. Sabia que as técnicas de investigação estavam a evoluir e deve ter achado que era o mais prudente. Em 2013 — quase 30 anos após o último crime — McNamara especulou que ele se teria casado e passado a ter uma vida normal. Como era novo na época dos crimes, havia uma grande probabilidade de ainda estar vivo. Como de vir a ser descoberto. As autoridades tinham o seu ADN, e era uma questão de tempo.

Um dos crimes levou indiretamente, — por influência de um familiar da vítima — à criação de uma base de dados que recolhe o ADN de todas as pessoas condenadas ou acusadas na Califórnia. Com gente a ser apanhada todos os dias, durante anos parecia que só ele escapava. A revelação final confirma uma certa prudência que teve. Não diremos mais aqui, e recomendamos ao leitor que leia o livro antes de ir procurar a informação à internet. Só assim terá o sabor do puzzle que de facto interessava a McNamara — não o da mente do criminoso, mas o da sua identidade.

Foi esse puzzle que justificou as muitas noites passadas por ela (após deitar a filha pequena) a vasculhar milhares de elementos diferentes, desde arquivos e relatórios policiais até mapas do Google e tudo o resto que hoje se encontra disponível na net. A sua paixão eram os crimes por resolver, o seu instrumento a tenacidade, e os seus colaboradores, bem, a blogosfera inteira. No seu próprio blogue, “True Crime Diary”, fazia uso do crowdsourcing, embora estivesse longe de depender só dele.

O blogue e um artigo escrito em 2013 sobre o “Golden State Killer” — nome com que ela batizou o seu assassino e violador em série — originaram o presente livro. McNamara deixou-o inacabado. Coube ao seu investigador principal e a um colega, em colaboração com o viúvo da autora, darem-lhe forma final. Tal como ficou, é o documento de um mistério e de uma obsessão, com um bom arsenal de recursos literários ao serviço da tarefa.

O texto final é dirigido por McNamara ao criminoso: “Desististe quando, espreitando por cima do ombro, viste que os teus adversários estavam cada vez mais próximos. Tinhas tudo para ganhar a corrida. Eras o observador com todo o poder, nunca observado. (...) Um dia destes vais ouvir um carro estacionar junto ao passeio. (...) Para ti, a história termina assim.” Pena ela não ter ficado para ver.

4 ESTRELAS
Desaparecer na Escuridão

Michelle McNamara
Relógio D’Água, 2018, trad. de Alda Rodrigues, 315 págs., €17,50
Não-ficção