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Rapariga invisível

O Expresso esteve à conversa com a artista transgénero este mês nos bastidores do NOS Alive, festival que a convidou 
a estrear-se em palcos nacionais

Sophie é o nome a reter em 2018. Depois de colaborações com Madonna, 
Vince Staples e Charli XCX, estreia-se em nome próprio com “Oil of Every Pearl’s Un-Insides”, sério candidato a álbum do ano

O nome até pode não lhe dizer nada, mas muito provavelmente a música da escocesa Sophie Xeon já lhe terá passado pelos ouvidos. Produtora oriunda de Glasgow, começou a editar singles em nome próprio, de forma misteriosa e praticamente incógnita, há cinco anos, mas rapidamente a sua pop eletrónica avant-garde captou as atenções de artistas mais atentos: coescreveu e coproduziu ‘Bitch, I’m Madonna’, de Madonna, produziu ‘Koi’, do rapper norte-americano Le1f, iniciou uma parceria criativa duradoura com a britânica Charli XCX em 2016 e contribuiu para várias canções do álbum “Big Fish Theory”, de Vince Staples. Depois deste embalo todo, mostrou pela primeira vez a cara, há menos de um ano, no vídeo do vulnerável single ‘It’s Okay to Cry’, cartão de visita do primeiro álbum, “Oil of Every Pearl’s Un-Insides”, editado recentemente [ver texto na Revista E de 7 de julho]. O Expresso esteve à conversa com a artista transgénero nos bastidores do NOS Alive, festival que a convidou a estrear-se em palcos nacionais este mês. Sem pudores, Sophie fala sobre a sua vida em Los Angeles, a forma como encara as críticas à sua música, a relação forte que criou com Charli XCX e a influência de Madonna. “O que quero da música? Há algumas coisas um pouco confusas, da forma como as vejo, portanto quero apenas reorganizá-las, transformá-las em algo que considere fazer mais sentido, e depois... ir-me embora.”

Diz que não atribui grande importância aos álbuns, mas acaba de se estrear com um longa duração. Algo a fez mudar de opinião?
Nada mudou. Não considero que os álbuns sejam muito vantajosos para que um artista marque a sua posição, mas a indústria musical, no geral, continua a olhar para eles como algo importante, portanto decidi fazer um ao meu jeito, de uma forma que fosse interessante para mim. No final, acabei por gostar muito de o fazer. Continuo, no entanto, a pensar que não é um álbum fácil. Houve quem me dissesse que gostava das canções, mas não da forma como as agrupei... Compreendo. E isso acontece porque queria mesmo quebrar todas as regras da estrutura tradicional dos álbuns.

Estas canções parecem encontrar o equilíbrio numa série de dicotomias: luz e escuridão, violência e ternura, humano e máquina, que, no entanto, são apresentadas mais como complementares do que como opostas. Abraçar o espectro completo é algo que a ajuda a definir-se?
Sem dúvida. Quero abordar a diversidade de emoções que o ser humano experiencia, bem como pensar sobre a forma como essas emoções se alteram com a tecnologia... o impacto que ela tem nas nossas vidas e nas nossas experiências emocionais enquanto humanos. Interesso-me muito por essas coisas e penso que este assunto se tornará muito mais importante no futuro.

‘It’s Okay to Cry’ começa de forma idílica mas termina com uma tempestade violenta de som. Foi catártico escrever essa canção?
Não encaro o final como algo assim tão destrutivo. Vejo-o como uma celebração, um escalar de emoções que termina em grande excitação. Inspirei-me em canções disco, que vivem esses momentos de euforia extrema. Tentei replicar essa ideia no final, mas penso que, efetivamente, acabou por sair-me como algo um tanto ou quanto violento.

Mostra a sua cara pela primeira vez no vídeo dessa canção, o que fez com que muitos o encarassem como a sua grande revelação enquanto mulher transgénero. Há algum fundo de verdade nisso?
Bom, olhando para trás, acho engraçado o facto de esse ter sido um grande momento para as pessoas, porque penso que já era bastante claro aquilo que sou enquanto artista e aquilo que é importante para mim em tudo o que tinha feito antes. Parece que foi preciso estar nua, com as mamas de fora, a cantar à chuva e a chorar, para que as pessoas percebessem que sou uma pessoa real, que o meu nome é Sophie e que sou o que sou... É impressionante teres de fazer algo tão literal e óbvio para que reconheçam quem és.

Olhavam para si como uma entidade invisível e, de repente...
Completamente. Isso só demonstra o ponto em que estamos na cultura musical e na sociedade em geral... Precisamos de tirar a roupa para que as pessoas reparem em nós.

É muito difícil definir a Sophie enquanto artista. A sua definição assenta, precisamente, nessa ideia de indefinição?
Tento definir-me apenas como alguém que faz música pop, apesar de a minha música não ser encarada como tal, de não ser isso que passa cá para fora. A música pop pode ser qualquer coisa, portanto é essa, certamente, a minha ambição. É a única música que me interessa.

O instrumental ‘Pretending’ parece fugir um pouco da paixão pela pop. A certa altura, dá ideia de estarmos a ouvir os Sigur Rós. Consideraria colaborar com uma banda rock?
Na verdade, gosto muito dos Sigur Rós. Conheço o [vocalista] Jónsi [Birgisson], já nos cruzámos algumas vezes, e tenho amigos que são amigos da banda e dizem que são encantadores... Sim, sem dúvida. Colaboraria com quem quer que fosse. Desde que haja respeito mútuo pela forma de trabalhar do outro e encontremos terreno comum... Espero sempre que as pessoas com quem trabalho também apreciem aquilo que sou enquanto pessoa. Se encontrarmos esse respeito mútuo, estou aberta a colaborar com qualquer artista.

O álbum tem recebido ótimas críticas. Aquilo que as pessoas escrevem ou dizem sobre a sua música é algo a que presta atenção?
Interessa-me o que os fãs pensam sobre ela, mas não ligo muito às críticas profissionais. Já experienciei todo o tipo de feedback por parte da imprensa e não levo isso demasiado a sério, porque acaba por nos distrair daquilo que estamos a fazer. É mais interessante, para mim, encarar essas críticas como um reflexo daquilo que as pessoas que as assinam são. Algumas das coisas que são escritas, por vezes, revelam o quão despegadas e desatentas essas publicações estão, especialmente no que diz respeito aos assuntos mais importantes do momento.

É a sua voz em ‘It’s Okay to Cry’, mas depois não voltamos a ouvi-la no resto do álbum. Foi uma decisão consciente ou simplesmente aconteceu?
Honestamente, não quero ser cantora. Não sou muito boa a cantar, portanto... O meu irmão encoraja-me, mas essa nunca foi a minha ambição. Sempre quis ser produtora e trabalhar com pessoas que realmente gostam de cantar. Gosto muito mais de escrever e produzir música. Talvez surjam algumas canções, no futuro, que me façam ter vontade de cantar de novo, mas não dou muita importância à minha faceta de cantora nem tenho muito orgulho nela.

Inicialmente, ‘Immaterial’ chamava-se ‘Immaterial Girl’, o que parece ser uma resposta direta a ‘Material Girl’, de Madonna. Ela teve uma grande influência na sua música?
Sim! A Madonna é fantástica. É alguém que admiro muito.
Trabalhou com ela, com o Vince Staples e uma série de outros artistas, mas parece ter desenvolvido uma relação criativa especial com Charli XCX. Como criaram essa ligação?
Gostámos uma da outra e somos fãs daquilo que cada uma de nós faz. A forma como nos conhecemos é, na verdade, exemplo de uma situação relativamente aborrecida... Foi através daquelas tretas normais da indústria musical. Mas hoje somos boas amigas e apoio-a muito. Sinto-me muito inspirada pela forma como ela trabalha em estúdio.

Vive em Los Angeles. Sente que a cidade se vem infiltrando na sua arte?
Há muita gente, de todo o mundo, a mudar-se para Los Angeles para fazer música. Neste momento, é um bom sítio onde se pode fazer música e é fácil ter tempo e espaço em estúdio. Há muitas pessoas talentosas por lá. A cidade é ótima noutras áreas, também. No geral, parece um sítio menos repressivo... A marijuana é legal, há uma grande comunidade trans e uma grande abertura e aceitação de pessoas trans. E Los Angeles também é um sítio onde podes fantasiar. Mudas-te para lá e podes viver uma fantasia, se assim o desejares. É isso que sinto, pelo menos, mas se calhar sou só eu a romantizar.