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“A Reinvenção do Esquecimento” de Maria Trabulo vence Prémio Novo Banco Revelação

A artista Maria Trabulo, com o projeto fotográfico "A Reinvenção do Esquecimento", foi eleita pelo júri como vencedora do Prémio Novo Banco Revelação

Rui Duarte Silva

A artista Maria Trabulo é a vencedora do Prémio Novo Banco Revelação 2018, com o projeto fotográfico “A Reinvenção do Esquecimento”, notícia avançada ao Expresso pela Fundação de Serralves

Dois anos passaram desde o momento em que Maria Trabulo estava a fazer uma pesquisa no Google sobre as formas e passos para esquecer alguém ou superar uma situação traumática. Esse foi o clique para um portal criativo, pelo qual decidiu navegar, abrindo novas janelas de reflexão artística sobre a necessidade, o poder e as consequências do esquecimento na construção de uma identidade individual ou coletiva.

Estas são algumas das ideias possíveis de encontrar no projeto “A Reinvenção do Esquecimento”, um trabalho de exploração fotográfica e arquivística sobre o papel da arte enquanto alicerce da herança cultural de uma civilização, capaz de convencer o júri a distinguir Maria Trabulo como vencedora do Prémio Novo Banco Revelação 2018, uma iniciativa em parceria com a Fundação de Serralves.

A escolha - anunciada em primeira mão ao Expresso - da criadora portuense, de 28 anos, deve-se ao “caráter apurado e idiossincrático das pesquisas da artista, que a levam [...] a questionar a relação da fotografia com os limites da memória humana”, fundamentam os jurados, citados num comunicado.

O projeto com que Maria Trabulo concorreu a este prémio, destinado a jovens talentos portugueses com menos de 30 anos, foi um dos quatro finalistas, juntamente com as propostas artísticas de Carlos Arteiro, Ana Linhares e o coletivo “Sem Título 2018”, que integrarão uma exposição coletiva, patente no Museu de Serralves, durante o mês de outubro.

O agora é o entretanto do ainda

“A Reinvenção do Esquecimento” assume-se como um espelho, para nos mostrar que o presente é a acumulação do passado que conseguimos lembrar. O agora é o entretanto do ainda. Uma biblioteca de infindáveis possibilidades definidas pelas páginas escritas outrora. São as memórias que escrevem, apagam ou rasuram a ordem cronológica dos acontecimentos.

E neste tempo sem tempo, tão efémero, a sociedade pula e avança, em constante adaptação pela volatilidade imposta por uma revolução digital desenfreada, num mundo cada vez mais intangível, em que muito daquilo que existe já não pode ser tocado. E qual é o papel desempenhado pela arte - intemporal e, ainda assim, destrutível - no meio de tudo isto?

“Há dois anos estava a pesquisar no Google formas para esquecer, porque estava numa situação que exigia isso. Encontrei vários websites que indicavam, passo-a-passo, a melhor forma para esquecer uma pessoa ou ultrapassar um momento mais infeliz”, começa por contar Maria Trabulo, em entrevista ao Expresso, a artista que atualmente divide o seu tempo entre o Porto e Viena, depois de uma passagem pelos fiordes da Islândia.

Rui Duarte Silva

Foi na capital austríaca que contactou com pessoas exiladas, muitas delas provenientes do Médio Oriente, “que ali estavam porque não queriam ficar no país de origem” e que de alguma forma procuravam despojar-se de um passado, marcado pela guerra e pela perseguição, numa fuga rumo a um futuro sem os fantasmas da crueldade.

“Aquilo que me assusta na memória é aquilo que tentamos esquecer e não conseguimos. É um exercício pessoal e temporal para conseguir conviver com essas lembranças”, descreve a laureada, para quem os passos necessários para esquecer uma situação traumática são muito semelhantes ao processo de uma revolução. “Primeiro decidimos o que queremos esquecer e, depois, elimina-se tudo aquilo que nos remete para essa memória. Pode ser uma fotografia, no caso de uma pessoa, ou as estátuas, no caso das revoluções”, explica Maria Trabulo.

“Vimos isso na Ucrânia, com a decapitação das estátuas de Lenine, ou no Iraque, com o derrube da estátua de Saddam Hussein”, lembra a artista, notando que a destruição de ícones e esculturas é um hábito enraizado historicamente. “Já havia, na Mesopotâmia, a prática de punição de pessoas através da sua representação. Se alguém cometesse um crime, a estátua era castigada também. Cortavam o nariz ou a boca da representação. Era uma como uma espécie de morte”, afirma a criadora, licenciada Artes Plásticas e com um mestrado em Arte e Ciência.

“A arte e o património cultural podem ser utilizados como ferramentas de guerra e de estratégia militar”, considera Maria Trabulo. “Quando o Estado Islâmico destruiu o museu de Mossul ou a cidade de Palmira sabia da importância disso para enfraquecer o inimigo, porque estava a retirar ao oponente elementos fundamentais da sua identidade coletiva”, argumenta a “reinventora” do esquecimento, com uma “atitude ativista em relação à realidade do mundo contemporâneo”.

O projeto artístico, ainda em curso, assenta na ideia de que a arte é perecível e interroga as consequências disso mesmo, uma vez que “queremos sempre deixar algo para aqueles que vêm depois de nós, para que nos consigam entender”, prossegue a autora, não procurando respostas, mas levantando questões, como por exemplo os limites e as implicações da conservação e digitalização de obras de arte. “Devemos assumir que as obras desaparecem ou devemos desacelerar esse processo de destruição?”, questiona, neste tratado para nos lembrar que o esquecimento é sempre uma escolha. Um gesto intencional e invisível. Como um tiro no escuro, na tentativa de encontrar a luz.