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O homem da maratona

Todo o Jazz em Agosto 2018 é dedicado a John Zorn. São 22 concertos e seis filmes, com o saxofonista e compositor norte-americano a tocar três vezes, a primeira das quais sexta-feira

David Cristol* / “Jazz Magazine”

John Zorn a tocar saxofone no Jazz em Agosto 2008

John Zorn a tocar saxofone no Jazz em Agosto 2008

Joaquim Mendes/FCG

M
ovido por uma fé inquebrantável nos poderes mágicos da música, o ilusionista John Zorn faz aparecer álbuns a um ritmo desenfreado, seguindo um insaciável apetite criativo e uma vertiginosa multidão de estilos (rock vanguardista, escrita contemporânea, música improvisada, teatro sonoro, música para grandes órgãos e diversas formas de colisão entre estes géneros), transformando os seus fantasmas — e os nossos — em realidade. Um ser tão plural não saberia partir em digressão com um só grupo. Faz-se então maratonista de acontecimentos pontuais de dimensões épicas, contando tantas etapas quantas as suas preocupações artísticas do momento.

Depois da copiosa atuação parisiense de setembro de 2013 [e dos concertos Zorn@60 no Jazz em Agosto 2013], está aí uma nova ocasião de admirar as direções atuais e olhares retrospetivos (Masada — dia 28, 21h30; ou no dia 5 de agosto, às 21h30, com o repertório Masada a ser tocado por Secret Chiefs 3) da ubíqua personagem, cuja trupe conta desta vez nas suas fileiras com Kris Davis, Craig Taborn, Dave Douglas, Jim Black, Ches Smith, John Medeski, Drew Gress e numerosos guitarristas: Mary Halvorson, Julian Lage, Gyan Riley, Trey Spruance, Thurston Moore, James Moore e Marc Ribot [todos estarão em Lisboa].

A guitarra está presente na maior parte das formações que vai levar a Lisboa. De Eugene Chadbourne a Naked City, passando por Derek Bailey e Electric Masada, a influência dos guitarristas com personalidades fortes parece ter um papel-chave na sua música.
Absolutamente. A guitarra é hoje o que o violino era no século XIX: uma voz instrumental e musical plena de recursos. Tive a sorte de trabalhar com numerosos guitarristas incrivelmente dotados ao longo dos últimos quarenta e cinco anos! A guitarra e os guitarristas têm estado desde há longa data, e continuarão a estar, no centro da minha paleta sonora e da minha paisagem musical.

Em que é que “The Book Beri’ah” [cujas composições inéditas saem numa caixa de onze CD e outras tantas formações para as interpretar] difere musical e conceptualmente do “Book of Angels”, cuja série acaba de se concluir com o 32º volume [pelo Mary Halvorson Quartet, que o toca em Lisboa dia 28, às 21h30]?
Compus “The Book Beri’ah” cerca de dois anos depois da última peça do “Book of Angels”. Os noventa e dois pedaços foram escritos em três semanas. De maneira retrospetiva, parece-me que a saga Masada deixou lugar para mais lirismo a cada novo capítulo. Por “lirismo” quero dizer a maneira como as gamas e tonalidades convocadas foram utilizadas progressivamente de forma ao mesmo tempo mais complexa, com nuances, e mais subtil.

Diria que este ramo da sua obra terminou, como os últimos volumes publicados deixam pensar, ou tem em vista novas mutações ou desenvolvimentos neste domínio?
A experiência ensinou-me que me era impossível prever as direções que poderia seguir no futuro — nem mesmo, a bem dizer, qual será o meu próximo projeto. Para já, não tenho um projeto em curso ligado à série de inspiração judaica — mas amanhã quem sabe?

John Zorn reage a uma pessoa na audiência que lhe diz “toca saxofone” (Jazz em Agosto 2013)

John Zorn reage a uma pessoa na audiência que lhe diz “toca saxofone” (Jazz em Agosto 2013)

Carlos Paes

Quando forma um novo grupo como o Simulacrum [John Medeski, órgão Hammond, Matt Hollenberg, guitarra elétrica, Kenny Grohowski, bateria — dia 31, 21h30 — para o qual Zorn compõe, supervisiona e produz, mas onde não toca], sabe à partida que vai tratar-se de uma série, ou são projetos isolados que podem ser explorados mais à frente porque dão origem a novas ideias?
Aí, também, é difícil prever que direção tomará a música. Este carácter imprevisível pode ser percebido nas próprias composições, concebidas como mundos em miniatura e nos quais tudo é suscetível de acontecer a qualquer momento. No que toca ao Simulacrum, à partida, não previa que viesse a ser uma série de álbuns. Gravámos o primeiro e foi o entusiasmo dos músicos a vencer o desafio que me incitou a escrever um segundo volume, mais difícil de tocar, depois outro, ainda mais difícil e ainda outro... Dar aos músicos desafios para superar é uma dimensão importante da minha filosofia musical. Isso incita os músicos a manterem-se na busca, curiosos, inspirados na sua interpretação. Cada álbum do Simulacrum distingue-se dos anteriores e do lado da instrumentação cada opus vê a alternância do trio original no estado puro em “Simulacrum”, “Inferno” e “49 Acts of Unspeakable Depravity In The Abominable Life and Times of Gilles De Rais” com álbuns abertos a convidados como Marc Ribot e Trevor Dunn em “The True Discoveries of Witches and Demons”, Kenny Wollesen em “The Painted Bird”, e Dunn e Sara Serpa em “The Garden of Earthy Delights”. Este tipo de projeto tem um crescimento orgânico.

Entre as suas parcerias musicais, notamos uma relação seguida com o baixista Bill Laswell desde há várias décadas, no seio de numerosas formações em estúdio e ao vivo...
Conhecemo-nos em 1977 ou 1978 em casa de Giorgio Gomelsky [1934-2016, produtor, gerente de um clube e ‘descobridor’ dos Rolling Stones e dos Yardbirds no início dos anos 60], na 24th Street quando Bill chegou a Nova Iorque, e ficámos amigos desde então. Só trabalho com amigos! Um dos nossos projetos regulares é o trio improvisado com o percussionista Milford Graves.

Até meados dos anos 90, podíamos ouvi-lo ao lado de figuras históricas do jazz como Big John Patton e prestou também homenagem a figuras do hard bop e do free, de Sonny Clark a Ornette Coleman. Parece ter-se afastado desta estética e ter progressivamente privilegiado a composição um pouco em detrimento do saxofone.
Isso não é exato. Não há nenhuma reticência minha de tocar saxofone. O meu novo disco, “In a Convex Mirror”, é largamente devotado ao sax alto! Estou orgulhoso desta gravação que eu considero estar ao nível dos melhores trabalhos neste instrumento. Este novo contexto musical, inspirado pelas cerimónias de vudu haitianas, é muito excitante. Espero escrever uma sequência a este projeto até ao fim do ano. [Zorn tocou saxofone no primeiro semestre de 2018 em duos cénicos com o vocalista Mike Patton, com o percussionista e vibrafonista Kenny Wollesen e noutras formações, e vai tocar sax alto sexta-feira, às 21h30, no concerto de abertura, com três guitarristas — Thurston Moore, Mary Halvorson e Matt Hollenberg — dois contrabaixistas — Drew Gress e Greg Cohen — e o baterista Tomas Fujiwara].

Como resumiria a influência do escritor William S. Burroughs na sua música?
A catarse.

O que se pode esperar da sua colaboração com a cantora de ópera contemporânea Barbara Hannigan?
Vai descobrir um ciclo muito belo de canções para voz e piano, “Jumalattaret” [que será apresentado pela soprano e pelo pianista Stephen Gosling dia 29, às 19h30], que inclui textos de magia e cânticos à glória das deusas pagãs nórdicas, recorrendo a fragmentos do “Kalevala” [epopeia em verso composta no século XIX a partir de cantos e lendas populares finlandesas].

O novo disco “The Urmuz Epigrams” remete para um ramo específico dos seus trabalhos, o das game pieces, ou improvisações submetidas às regras de um jogo. Quando sentiu a necessidade de revisitar conceitos anteriormente explorados, uma vez que ao mesmo tempo não para de abrir novos?
Este álbum mistura várias ideias e influências, umas antigas, outras novas. Liga-me de novo à forma como eu construía a minha música quando era adolescente nos anos 60 e que o álbum “First Recordings 1973” ilustra, mas com a minha abordagem atual. Vai haver em breve uma sequela deste projeto intitulada “Tractatus Musico Philosophicus”.

Desde há uns anos que se apresenta a solo em órgão, o seu primeiro instrumento, em diversas igrejas do planeta, em fevereiro último no auditório da Radio France e daqui a pouco em Lisboa [será dia 29, às 21h30, mas aqui acompanhado por Ikue Mori em portátil]...
Fico contente por ser sensível a este aspeto do meu trabalho. O concerto na Radio France foi especial — devia ser transmitido.

*Tradução de António Costa Santos

Jazz em Agosto

Stone Improv Night: John Zorn, Thurston Moore e convidados
Gulbenkian, Lisboa, sexta, 21h30

Programa AQUI