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Há ler e ler, há ir e volver

Três sugestões de leitura para as suas férias

D.R.

Dizem que o verão chegou e o calendário parece confirmá-lo, ainda que a sua face visível tenha andado tão invisível quanto o homem saído da imaginação de H.G. Wells. Seja como for, o tempo é de fazer malas e nelas reservar uma divisão para a chamada literatura de férias. Espero que esta modesta crónica cumpra o intento e facilite a escolha na hora da decisão

Reinaldo Serrano

Estival é o tempo que o calendário baliza entre 21 de junho e 23 de setembro. Estival é também a onda de preparativos que antecipa o gozo de merecidas férias, lá fora ou cá dentro, no campo ou na praia, na viagem de sonho, no pesadelo que significa o regresso ao trabalho, passado que esteja o lazer que nos torna usufruto deste mistério a que se chama vida. Neste sentido, ocorreu-me sugerir alguns títulos entre os muitos que inundam o nosso mercado livreiro, tendo presente o que no passado disse Ernest Hemingway: “Nenhum amigo é mais leal que um livro”.

Sobretudo se recente e se assinado por Stephen King. Ambas as circunstâncias confluem para “Fim de Turno” (“End of Watch”, 2016) – cerca de 400 páginas da inacreditavelmente sedutora narrativa do mestre do Maine. A caminho dos 400 milhões de livros vendidos e traduzido em 45 países, o escritor norte-americano é, aos 70 anos (cumprirá 71 no dia 21 de setembro) o nono autor mais traduzido no mundo, e os quase 60 títulos que deu à estampa (desde “Carrie” em 1973) dão bem conta do sucesso e do estatuto ímpar que ostenta com a simplicidade de sempre, um pouco à semelhança da sua obra: histórias simples e ao mesmo tempo visualmente impactantes, numa espécie de banalização do horror que, não por acaso, nos quer dizer justamente que o horror não deve ser banalizado.

“Fim de Turno”, agora editado entre nós sob a chancela da Bertrand, é uma alusão (entre outras) ao termo usado nos Estados Unidos quando um polícia passa à reforma. É igualmente o prenúncio do fim de linha para o detetive Bill Hodges e da trilogia que protagonizou com “Mr. Mercedes”e “Finders Keepers” (“Achados e Perdidos”), culminando nesta ronda final sobre um mal que resiste à passagem do tempo. A leitura é compulsiva e o leitor “forçado” a mergulhar na cumplicidade com todos e cada um dos personagens de um livro voraz, vívido e amplamente sedutor. Diz-se que Stephen King é o autor mais bem pago do mundo; não sei se é verdade ou ficção. De todo o modo, o homem merece (tem merecido) cada cêntimo que embolsa, mais ainda se tivermos em linha de conta que o mais célebre habitante do Maine doa cerca de quatro milhões de dólares (3,4 milhões de euros) anualmente em favor de biblioteca, corpo de bombeiros, escolas e obras de beneficência da sua terra natal...

Num registo temático semelhante, aqui se regista a publicação de “O Anjo-da-Guarda”, da dupla Arto Halonen e Kevin Frasier. O primeiro é um finlandês de 54 anos, realizador, argumentista, produtor e autor. Ganhou renome internacional quando assinou, em 2007, “Shadow of the Holy Book”, um poderoso documentário sobre o primeiro Presidente do Turquemenistão após a queda da União Soviética. O ditador Saparmurat Niyazov (1990-2006) reescreveu literalmente a história cultural do seu país quando publicou “Ruhnama”, misto de delírio autocrático com guia espiritual para o povo que era obrigado a obedecer-lhe num registo semelhante ao da Coreia do Norte. O documentário mostra que, ainda assim, muitas e variadas foram as empresas de todo o mundo que, em virtude dos imensos recursos petrolíferos e de gás natural do Turquemenistão, colaboraram com o pouco recomendável regime.

Kevin Frazier foi coautor do documentário acima mencionado. Advogado norte-americano casado com uma finlandesa, o matrimónio levou-o a trocar os Estados Unidos pela mais pacata Helsínquia. Aí abraçou (além da mulher, pois então) o mundo das letras e do jornalismo, assinando então a parceria para este livro sombrio, resultado de longa e aprofundada investigação sobre um caso que ainda hoje é objeto de análise... na Dinamarca.

Conhecido como o Caso Hardrup-Nielsen, causou nos anos 50 do século passado choque e perplexidade entre as autoridades de Copenhaga. O que “O Anjo-da-Guarda” reflete são os detalhes da investigação policial que, pela primeira vez, levou um júri a condenar alguém por influenciar outrem a praticar diversos crimes sob o efeito da hipnose. Pese embora um ou outro cliché, que o distanciam da qualidade do livro de Stephen King, “O Anjo-da-Guarda” é, apesar de tudo, uma leitura agradável e típica de um período de férias, onde a descontração tende a prevalecer sobre a análise.

Só para me contradizer, permito-me uma derradeira sugestão: trata-se d´”As Cartas da Prisão de Nelson Mandela. Recentemente editada pela Porto Editora, esta recolha epistolar é um retrato único do pensamento de Mandela enquanto homem, enquanto político e enquanto recluso que foi durante 27 anos. O livro é um poderoso documento sobre os 10.052 dias de cárcere a que esteve sujeito o líder histórico do Congresso Nacional Africano.

Desde pedidos pessoais a agradecimentos, a relatos da prisão e dos guardas prisionais, do sistema político e jurídico da África do Sul e do apartheid, esta é uma obra obrigatória e das mais reveladoras da personalidade do Nobel da Paz de 1993. A sua morte, ocorrida 10 anos depois, em dezembro de 2013, mais não fez que perpetuar o legado de uma das figuras maiores do século XX, idolatrado entre os seus, admirado por todos os que amam a democracia e a paz. Este vasto conjunto de missivas tem o grande mérito de nos fazer acompanhar a par e passo a evolução de um detido ao longo de quase três décadas, e de um livre pensamento que nunca se deixou aprisionar no mesmo espaço... de tempo.