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Quem é mais famoso, os americanos ou a italiana?

Robin Harper

Ameaçaram e cumpriram: Beyoncé e Jay-Z gravaram um álbum juntos, encerrando com ele uma estranha trilogia e um período complicado do seu casamento

Dois anos depois de Beyoncé abordar as alegadas infidelidades do marido, Jay-Z, em “Lemonade”, o seu magnífico sexto álbum, e menos de um ano após o rapper fazer em “4.44” o seu mea culpa, o casal real da música norte-americana encerra um capítulo conturbado da sua relação. E nada melhor do que fazê-lo com um álbum. “Everything is Love” chega assinado com o nome de família, The Carters, e nele ouvimos a dupla cantar, para todo o mundo ouvir, que tudo no seu reino voltou à maravilhosa normalidade: amor, sexo, finanças, família, amigos… tudo corre pelo melhor. Apesar de ter chegado de surpresa, durante uma digressão conjunta na Europa, o disco que coloca um ponto final numa inusitada trilogia já era muito aguardado pelos admiradores do casal: “Andávamos a usar a nossa arte quase como uma sessão de terapia e começámos a fazer música juntos”, confessara Jay-Z numa entrevista a “The New York Times”, no ano passado. Ora, tendo em conta estas nove canções, a “arte” que surge agora parece ter nascido já em período de reconciliação e não durante a tempestade matrimonial.

O erotismo de ‘Summer’, fantástico tema de abertura de “Everything is Love”, chega acompanhado de promessas de amor e de futuro capazes de colocar qualquer romântico a debater-se com sentimentos de inveja (“let’s make love in the summertime/ on the sands, beach sands, make plans/ to be in each other’s arms”). A agulha mantém-se do lado certo em ‘Apeshit’, provavelmente o tema mais orelhudo do disco no qual Beyoncé consegue não abafar totalmente o companheiro, diluindo a sua poderosa voz em coros com Offset e Quavo, dos Migos. Daí em diante, a dupla começa a perder força e a cair em lugares-comuns. ‘Boss’ soa a lado B de um disco de B, com o casal a puxar dos galões para se vangloriar do dinheiro que faz (“my great-great-grandchildren already rich”); ‘Nice’, com a colaboração de Pharrell Williams, volta a insistir na ideia de sucesso, misturando mais arrogância pelo meio (“if I gave two fucks, two fucks about streaming numbers/ would have put ‘Lemonade’ up on Spotify”, canta ela; “I have no fear of anything, do everything well”, rappa ele); quando chegamos a ‘713’, ouvi-los novamente a falar de dinheiro e da roupa de marca que têm no armário para, de seguida, garantir que ainda nutrem amor “pelas ruas”, começa a puxar-nos um certo rebolar de olhos. Na segunda metade do disco, dizem-nos ainda que os amigos que têm são melhores do que os nossos, voltando a falar dos carros e das roupas (‘Friends’), repisam a ideia de serem muito famosos (‘Heard About Us’), tentam chatear os haters em ‘Black Effect’ e alternam versos um com o outro, qual jogo de pingue-pongue, num ‘LoveHappy’ que termina com uma espécie de ‘e foram felizes para sempre’ ajustado à sua realidade: “we came and we conquered, now we’re happy in love”.

Acreditando ou não no amor que os une, aquilo que sentimos depois de ouvir um álbum que chega anunciando, cheio de pompa, que “tudo é amor” é que a afeição que os dois artistas sentem um pelo outro está e estará interligada (dependente, talvez, quem sabe) do sucesso individual, que lhes permite ter uma vida de luxo enquanto casal. Algo que fica bem vincado aqui, também, é o desequilíbrio de talento: a cantora Beyoncé dá 10 a 0 ao rapper Jay-Z. Mas isso já sabíamos.

Everything is Love

The Carters
Parkwood/Sony