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Segredos de Estado à tona

Anna Torv, conhecida das séries “Mindhunter” e “Fringe”, interpreta a jornalista de “The Daily Nation” Harriet Dunkley

Netflix

“Secret City” mostra os bastidores do poder em Camberra e a primeira temporada centra-se numa investigação jornalística. Sucesso internacional instantâneo, o thriller político australiano já está disponível na Netflix e a segunda parte está em desenvolvimento. Poderá estrear-se ainda este ano

É impossível ver “Secret City” sem pensar em “House of Cards”. E isso só pode ser um ótimo sinal, mesmo que a série outrora protagonizada por Kevin Spacey tenha sido notícia pelas piores razões no último ano. É que a criação televisiva australiana tem tudo o que um bom thriller televisivo pode ter, e isso é o que mais falta faz numa altura em que muitas produções lutam para ser o próximo vício do pequeno ecrã. Aqui existem conspirações políticas e lutas de poder, intriga internacional, crime e mistério, numa trama onde não falta também um lado familiar.

O ritmo é diferente do conhecido na série assinada por Beau Willimon, as instituições são outras e a história não tem semelhanças que deem espaço a sensações de déjà vu, pelo que não há que temer o sentimento de se encontrar num lugar que já conheceu. Na verdade as semelhanças podem até resumir-se mesmo só ao estilo, até porque depois temos Camberra como fundo. Construída como se de um cenário se tratasse, a capital australiana (que tem apenas 450 mil pessoas e segue o conceito de cidade-jardim) serve de cenário à série e é lá que quase tudo se passa fisicamente, mesmo que depois a história ganhe proporções muito maiores do que à partida se suporia. O verde que parece tudo tomar, mesmo que seja pontuado pelo azul dos lagos, acaba por ganhar laivos mais escuros. É o tom negro da mentira e do segredo a mostrarem o seu poder, que só com escrutínio público podem ser aclarados. É também para isso que Harriet Dunkley lá está. A jornalista de “The Daily Nation” (interpretada por Anna Torv, de “Mindhunter” e “Fringe”) está atenta ao que se passa e promete não deixar a história passar-lhe ao lado sem a investigar.

É certo que ‘Harry’, como a tratam, precisa de se descontrair, de se libertar dos problemas do dia a dia no jornal, mas o seu faro não a deixa esquecer quem é. Mesmo que o desporto seja um escape, e que goste de remar no lago para fugir à realidade que a atinge todos os dias, nunca deixa de ser jornalista. O corpo que encontra junto à margem, de peito aberto como se de um peixe escalado se tratasse, não lhe deixa dúvidas. Ali não houve afogamento. Houve crime e com segredo guardado e roubado do interior do corpo. Não pode deixar de investigar o que aconteceu. Rapidamente é transportada para uma realidade que julgava não existir.

“Secret City” é isso mesmo: um constante exercício entre o plausível irreal e o real que parece impossível e conta com várias histórias que hão de cruzar-se ao longo dos episódios. Criada a partir de dois romances de Chris Uhlmann e Steve Lewis, intitulados “The Marmalade Files” e “The Mandarin Code”, a série começa de forma trágica — com uma mulher a imolar-se numa praça na China, depois de se manifestar a favor da causa tibetana — e a seguir com um corte para a história do tal rapaz depois encontrado já morto. Engolir um cartão SIM para ocultar informação pode à partida ser boa ideia, mas saberá da pior maneira que de pouco lhe servirá a ousadia.

São meros peões num jogo muito maior do que eles, e que se agiganta à medida que novas informações são conhecidas. Há um esquema de corrupção demasiado grande para se manter escondido e os problemas chegam à cúpula do poder. É nos corredores de Camberra que tudo se decide e é por lá que tudo se complica, quando o assunto se transforma num enorme problema diplomático que quase podia ser realidade. A Austrália é uma espécie de elo de ligação numa longa história de tensão entre os Estados Unidos e a China, com as movimentações no Mar do Sul da China a apresentarem-se com um dos focos de fricção entre gigantes.

Este será mesmo um dos segredos para o sucesso de “Secret City” — pegar em pedaços de realidade e transportá-los para uma narrativa ficcional —, pelo que a estratégia acaba por abarcar também temas quotidianos que preocupam a sociedade. Da importância da segurança aos limites da vigilância, com programas governamentais envolvidos, passando pela forma como aqueles que tentam fugir às amarras do controlo são tratados ou pelas traições entre políticos com vista ao benefício próprio, há mesmo muito para explorar. O desafio é conjugar tudo em televisão, mas nada que dois jornalistas que se dedicaram à escrita de romances (acompanhados por uma experiente equipa de argumentistas) não consigam fazer com sucesso.

Anna Torv é a protagonista ao longo de toda a história, mas a sua personagem Harriet Dunkley não é a única que importa em “Secret City”. À jornalista juntam-se outras figuras cujo papel é determinante ao longo da série, como é o caso da senadora australiana Catriona Bailey (interpretada por Jacki Weaver) ou do primeiro-ministro Martin Toohey (Alan Dale), num elenco onde não falta Damon Herriman num papel especial. O ator de “Justified” e “Breaking Bad” dá vida a Kim Gordon, o ex-marido transgénero de Harriet Dunkley que enquanto analista de segurança e espia ajuda a ex-mulher a descobrir os segredos que se escondem na cidade. O nome partilhado com a antiga baixista e guitarrista dos Sonic Youth pode ser só uma coincidência, mas fica o aviso de que esta é também uma mulher de vários talentos.

SUCESSO INTERNACIONAL

“Secret City” não é uma série nova, mas era até agora desconhecida fora do país. Estreada na televisão australiana em 2016, não tinha uma distribuição internacional forte e o facto de a televisão australiana ter ainda pouca expressão fora de portas levou a que se mantivesse longe do radar televisivo europeu e norte-americano durante muito tempo. Agora tudo mudou e a série está a tornar-se um sucesso em vários mercados através da Netflix, numa altura em que a segunda temporada já está garantida.

Depois de uma primeira parte, gravada como se de uma minissérie se tratasse, chegou a vez de “Secret City: Under the Eagle” (o subtítulo não está garantido internacionalmente) ganhar o seu lugar. A nova temporada já está a ser gravada em Camberra e em Sydney e conta com o regresso de grande parte do elenco — Anna Torv, Jacki Weaver, Sacha Horler, Marcus Graham e Justin Smith são algumas das confirmações —, aos quais se juntam Danielle Cormack e Rob Collins, entre outros. A data de estreia internacional desta segunda temporada ainda não é conhecida, mas é já certo que chegará à televisão australiana ainda durante este ano.

SECRET CITY

De Chris Uhlmann e Steve Lewis
Com Anna Torv, Damon Herriman, 
Jacki Weaver, Alan Dale
Netflix, já disponível em streaming
(Temporada 1)