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Adriana Calcanhotto: “A minha vida em Coimbra está a ser incrível, às vezes penso que estou a sonhar”

Leo Aversa

A cantautora brasileira apresenta-se esta sexta-feira, pelas 21h30, na Livraria Lello, no Porto, para um concerto falado, com a guitarra a tiracolo para explorar a musicalidade das palavras e as metáforas das melodias. O evento é de entrada gratuita

Cantora, compositora, escritora, ilustradora e antologista brasileira, também conhecida pela alcunha artística Partimpim. A artista radicada em Portugal, como professora convidada da Universidade de Coimbra, fala abertamente - sem mil altifalantes - da vida “menos pacata” no nosso país e do encanto pelos portugueses. Adriana Calcanhotto apresenta-se, aos 52 anos, como uma “operária” de canções, com 17 álbuns gravados.

Sempre “plural e curiosa”, apaixonou-se, ainda na infância, pela poesia entranhada através das ondas de rádio e ao ritmo da Tropicália. Maria Bethânia abriu-lhe as portas para o universo de Fernando Pessoa e, mais tarde, foi ela própria a dar voz aos versos de Mário de Sá-Carneiro. Assim é Adriana, em entrevista ao Expresso, “Agora como nunca” (título da antologia incompleta de poesia contemporânea brasileira, publicada em 2017).

O que podemos esperar deste concerto falado?

A Livraria Lello convidou-me para duas coisas: escrever um prefácio para o livro de contos de Edgar Allan Poe e para fazer um concerto falado, uma espécie de conversa entremeada por canções. Vou interpretar alguns dos poemas que musiquei e tocar algumas canções.

Um concerto numa livraria… Qual é a sensação? Porque uma livraria é também um palco para mundos imaginários, é um espaço de liberdade.

Exatamente. O ambiente da livraria é propício para apresentações desse tipo. Já fiz muitas, em bibliotecas também, como na Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, que é um espaço mágico, carregado de história. Com a Lello acontece a mesma coisa. É histórica, tem madeiras que guardam a passagem de poetas e escritores. Sinto-me em casa e sempre frequentei.

Transformar a literatura em música é, de certa forma, recuperar as origens clássicas, em que a poesia era transmitida oralmente. Isso é algo importante para si?

Sim, é importante dar continuidade a essa tradição. Sou uma operária disso.

Cantora, compositora, escritora, ilustradora e antologista. Podemos dizer que temos sempre a mesma Adriana ou temos várias personalidades criativas em cada uma destas vertentes?

Acho que temos a mesma Adriana, plural e curiosa, mas sempre em torno de mais ou menos a mesma matéria-prima.

Adriana Calcanhotto durante uma "masterclass" na Reitoria da Universidade de Coimbra

Adriana Calcanhotto durante uma "masterclass" na Reitoria da Universidade de Coimbra

D.R.

A música e a literatura são duas paixões indissociáveis na sua vida. Como e quando surgiu o fascínio por cada uma delas? A sua relação com a poesia não surgiu na escola. Chegou-lhe através da rádio…

Essa é uma tradição no Brasil. Não somos um país de leitores. Muito menos de poesia, mas somos ouvintes de poesia. Ouvimos alta poesia na rádio. Isso acontece o tempo todo, é fantástico. Comigo foi exatamente assim. Lia prosa na escola e nos livros que a minha tia, professora de língua portuguesa me passava, de acordo com a minha idade, desde muito pequena. Descobri a poesia ao ouvir um poema de Ferreira Gullar, musicado por Fagner, tocando na rádio.

Os músicos brasileiros do movimento Tropicália foram também determinantes para fazer esse cruzamento entre a literatura e a música?

Eles deram referências, citavam nomes de autores e mesmo versos de poetas nas suas letras, recorrendo ao corte e colagem, reafirmando as operações do modernismo de 1922, capitaneado por Oswald de Andrade.

A Adriana é também uma embaixadora da poesia portuguesa no Brasil. É verdade que Fernando Pessoa é uma “popstar” no Brasil e há quem pense que ele é baiano, tal como disse durante uma aula aberta na Faculdade de Letras da Universidade do Porto?

[risos] Não lembrava de ter dito isso… Sim, Pessoa é "da casa" e as suas principais embaixadoras no Brasil são Cleonice Berardinelli, Doutora Honoris Causa pela Universidade de Coimbra, membro da Academia Brasileira de Letras e especialista da mais fina erudição sobre o poeta. Já Maria Bethânia transmite-o na rádio, no palco, nos seus discos. Canta-se Fernando Pessoa no Brasil principalmente por causa dela.

De onde surge normalmente a motivação para escrever, quer sejam letras de canções ou poemas? A escrita é sobretudo um exercício de inspiração ou de transpiração?

A escrita vem do ócio, ou seja, no tempo acelerado em que vivemos, é a coisa mais difícil.

Como tem sido a experiência de viver em Coimbra? O que mais a tem surpreendido no povo português?

Tem sido menos pacata do que imaginei. Ando sempre a fazer imensa coisa. A atender pessoas, a ler e a escrever. A minha vida em Coimbra está a ser incrível, às vezes penso que estou a sonhar. A simplicidade das pessoas é o que mais me encanta. Converso com desconhecidos na rua, o que não é típico nas grandes cidades.

Chegou a afirmar que “o Nobel é que ganhou Bob Dylan”, quando muitos questionavam a atribuição do prémio ao artista. Considera que esse foi um momento decisivo para mostrar ao mundo que as canções podem ser literatura, derrubando algum possível elitismo existente no meio académico?

Bob Dylan é um poeta que escreve canções. Para mim é impressionante que ainda possa ser polémico e que ainda seja um assunto. Se musicarmos um poema de Shakespeare, ele perde valor enquanto poema? Achei sensacional a escolha para Nobel.