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Vasco Pulido Valente, o homem provocatório: “ninguém que é subordinado é agradecido” e “a História não ensina nada a ninguém”

Nuno Botelho

O polémico cronista lança um novo livro, “O Fundo da Gaveta”, uma obra histórica sobre o período liberal onde não faltam paralelos com a atualidade, que será apresentada esta quinta-feira por Paulo Portas

Luís M. Faria

texto

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Considerado por muita gente o cronista político essencial das últimas décadas no nosso país, Vasco Pulido Valente deixou de escrever no Observador (o seu último posto fixo, após uma série ilustre que passou pelo Expresso, pelo “O Independente”, pelo “Público” e pelo “Diário de Notícias”, entre outras publicações) há cerca de um ano.

Esta quinta-feira, um antigo diretor dele, Paulo Portas, faz a apresentação pública de “O Fundo da Gaveta” (ed. Dom Quixote), um livro de História que reúne dois fragmentos – o termo é do autor - destinados a uma História do período liberal que nunca chegaria a existir.

Apresentados há quase trinta anos, num seminário do Instituto de Ciências Sociais, onde Pulido Valente foi investigador, os textos sobreviveram graças ao seu colega Rui Ramos, que guardou uma cópia. O primeiro fragmento refere-se aos anos 1823-1824, quando os absolutistas contra-atacaram os liberais nos golpes da Vilafrancada e da Abrilada; o segundo aos anos entre 1864 e 1870, imediatamente antes e depois do fim do período de relativa estabilidade a que se chamou Regeneração.

São textos escritos num registo bastante diferente do que é habitual encontrar em livros de História, com uma precisão e uma intensidade crítica que lembram as crónicas. Dado o envolvimento do autor na política dos nossos dias, é inevitável tentar descobrir paralelos com as circunstâncias atuais do país. Pulido Valente reconhece-os em especial no segundo fragmento.

O breve diálogo que se segue, ele próprio um prelúdio de uma conversa muito mais longa que será publicada nas próximas semanas, começa pela parte inicial do livro, especificamente pela questão do Brasil e da sua independência, que aconteceu no meio do conflito entre liberais e absolutistas.

nuno botelho

Sobre as grandes potências e as relações delas connosco, presumimos muitas vezes coisas que não se concretizam
Sim, se quiser pôr nesses termos. As potências europeias acabaram por deixar a precedência a Portugal no reconhecimento do Brasil. A Inglaterra tomou a iniciativa diplomática disso. Foi o enviado inglês ao Brasil que negociou com D. Pedro os termos da independência. E D. João VI conseguiu que lhe fosse garantido o título de Imperador do Brasil.

Em função desse episódio, e de outros em que estivemos envolvidos com poderes maiores, como descreveria a posição de Portugal, em termos internacionais?
É uma posição subordinada, como é evidente.

Mas agradecida, no fundo?
A maior parte das vezes não. Ninguém que é subordinado é agradecido.

Não sei se este adjetivo tem aí cabimento, mas acha que pelo menos é uma posição digna?
Dentro das limitações que tinha o poder político em Portugal durante esse período - foi um período de guerra civil, com uma grande fraqueza do poder que era reconhecido internacionalmente - a dignidade possível foi conservada. A dignidade possível.

Falando agora do segundo fragmento do livro, que tem paralelos mais diretos com o Portugal atual. O que é realmente aplicável a coisas de hoje em dia?
Uma grande discussão que sempre houve em Portugal tem a ver com o orçamento do Estado. O défice estava lá sempre. Era saber se se fazia um grande défice, com o risco de dívidas incomportáveis – e nessa altura as dívidas eram negociadas com os privados, ou seja com a grande banca europeia –, ou se se previa um défice mais pequeno, que implicava um aumento menor da dívida e um empréstimo menor no estrangeiro, mas também um aumento de impostos. Para não ter défice, havia duas soluções: aumentar os impostos ou fazer empréstimos. Como se faziam empréstimos, os encargos orçamentais aumentavam.

Lembro-me de uma crónica sua de há muitos anos onde sugeria que Salazar não tinha tido muito mérito em equilibrar as contas públicas, pois quando se dispõe de uma ditadura e de uma polícia política as pessoas não têm outro remédio senão pagar.
Pois. Diminuiu as despesas drasticamente, aumentou os impostos e tinha os meios coercivos necessários para reprimir qualquer espécie de protesto e para obrigar as pessoas a pagar impostos.

Fora dessas condições, não há como fugir ao dilema.
Não. Eu já disse muitas vezes: este problema do défice, da dívida e dos impostos – está tudo ligado, como é evidente - é muito antigo. Vem do princípio do constitucionalismo monárquico. É produzido pela existência de uma classe média em Portugal que está na periferia da Europa, de um país pouco desenvolvido mas que toma a Europa como seu modelo. Que quer viver como a classe média europeia vive. Como não há uma classe média produzida pela economia, por assim dizer, pela existência das empresas, de grandes bancos, grandes explorações agrícolas, o que temos é uma classe média de serviços. Antigamente, quase só do funcionalismo, mas de um funcionalismo que a certa altura vai alargando as suas competências – às obras públicas, por exemplo, o que implica a formação de engenheiros, ao exército, o que também implica a formação de engenheiros militares. Um funcionalismo grande que é ao mesmo tempo um ascensor social, como os civis, entre aspas; é a maneira de as pessoas serem promovidas à classe média, entrarem nos cursos de oficiais ou fazerem uma carreira no funcionalismo. Mas também pesa sobre o Estado, porque toma como modelo a classe média das sociedades mais avançadas, a francesa e a espanhola, pelo menos.

Está a referir-se mais à situação antiga.
Hoje em dia toma como modelo a classe média europeia.

Há sempre um elemento de irrealismo, para dizer o mínimo, no meio disso tudo. Não é sustentável.
Claro. A classe média francesa, a espanhola, a inglesa ou a alemã são sustentadas por economias muito mais poderosas do que a nossa.

Resumindo, em relação ao livro, há lições que se podem tirar?
Não, não há lições nenhumas. A História não ensina nada a ninguém. O conhecimento histórico só é útil para as pessoas compreenderem a situação em que estão.

Se compreenderem, já é uma lição. Não um programa de ação, mas dá quadros.
Não, não dá quadros. Ajuda ao entendimento das situações contemporâneas.