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A arquitetura como nunca a viu espera por si no fim-de-semana

Três Casas no Cais Capelo Ivens, em Gaia, é um dos espaços de portas abertas ao público nesta edição

GILSON FERNANDES

Sábado e domingo estarão abertos ao público 65 edifícios do Porto, Matosinhos e Gaia, no âmbito da iniciativa “Open House”, para se mostrarem como nunca antes, e porventura nunca mais

Alguma vez viu a cozinha “art déco” da Casa de Serralves, bem como os seus equipamentos encastrados dos anos de 1930, o cofre, o elevador, os quadros elétricos? Sabe que relação existe entre o Museu Soares dos Reis, o Quartel de Santo Ovídeo, o Cemitério de Agramonte e D. Pedro IV? Sabia que quando passa na marginal do Douro, do lado de Gaia, junto ao cais Capelo Ivens, o que lhe surge como uma ruína de uns armazéns de vinho contém, afinal três casas muito modernas, equipas com domótica? Ou que, ao passar na rua José Falcão, no Porto, o que lhe parece um palacete contém uma pequena indústria têxtil de luxo?

É muito provável que responda “não” a tudo, mas terá no próximo fim-de-semana a oportunidade única, e em alguns casos irrepetível, de visitar um vasto conjunto de edifícios marcantes do ponto de vista arquitetónico, em geral encerrados ao público.

A “Open House” é uma iniciativa, iniciada em Londres, em 1992, à qual já aderiram mais de 40 cidades em todo o mundo. No Porto, Matosinhos e Vila Nova de Gaia serão visitáveis 65 edifícios, muitos deles a remeterem para o que foi o seu uso industrial.

A própria Casa da Arquitetura (CA), em Matosinhos, está agora nas antigas instalações da Real Vinícola, após, como refere Nuno Sampaio, diretor executivo da CA, “ter sido resgatada da ruína pela Câmara Municipal”.

Um dos objetivos do “Open House” deste ano, que inclui visitas a estruturas tão diversas como a fábrica de moagens Germen, os Silos de Leixões, o Teatro Anatómico da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, tipografias, uma “ilha” portuense no seu estado quase original, uma ponte ou quartéis militares, passa, diz Nuno Sampaio, por “inverter o estigma que levou à estigmatização dos espaços industriais”.

Vazios que se transformam em oportunidades

Germen - Fábrica de Moagem, na Senhora da Hora, é um espaço industrial onde se observa a íntima relação entre arquitetura, maquinaria e engenharia

Germen - Fábrica de Moagem, na Senhora da Hora, é um espaço industrial onde se observa a íntima relação entre arquitetura, maquinaria e engenharia

Gilson Fernandes

A curadoria é dos arquitetos Inês Moreira e João Rapagão. Para João, “a indústria gerou e operou mutações profundas nas cidades de Matosinhos, Gaia e Porto em terrenos diversos associados ao rio, aos transportes rodoviários e ferroviários, hoje marítimos, à energia e às infra-estruturas civis, gerando também os vazios que se transformaram em novas oportunidades urbanas”.

Já Inês Moreira sublinha que numa leitura mais estruturante e sistémica entre os três municípios, “abrem-se algumas portas nas três cidades para visitar infraestruturas civis e militares que, instaladas com a industrialização, hoje operacionalizam o dia a dia da área metropolitana: meios de transporte terrestres e marítimos, meios de comunicação, hospitais – geral e psiquiátrico -, carteis militares, uma ponte e, no fim de vida, um cemitério municipal”.

Os curadores quiseram criar múltiplas narrativas na abordagem dos diferentes edifícios, “mostrando que as cidades e as arquiteturas são o palco dessas narrativas”, diz João Rapagão. Isso pode ver-se na cozinha da Casa de Serralves. Ali há verdadeiras obras de arte, que não são as mais facilmente imagináveis dado o novo uso da Casa, mas aparecem antes ligadas a estruturas tão inesperadas como os quadros elétricos ou as instalações de aquecimento e arrefecimento. Tudo visto, como refere o curador, “pela ótica dos mecanismos da Casa de Carlos Alberto Cabral, Conde de Vizela, um industrial cosmopolita e culto que chama os maiores e melhores autores de arquitetura e do design europeus para desenhar e decorar a casa, e a vende a Delfim Ferreira, também industrial, o homem mais rico dos anos de 1960 em Portugal, ambos ligados ao surgimento do vale do Ave”, palco da indústria têxtil portuguesa.

Ficam sempre infinitas histórias de cada uma das visitas proporcionadas pelo “Open House Porto”, este ano na sua quarta edição. As visitas são gratuitas e dividem-se em três tipologias: livres, acompanhadas por voluntários ou comentadas por especialistas. Além de mais de cem arquitetos envolvidos, os próprios comissários guiarão algumas visitas, em particular às Quatro Casas de Álvaro Siza, em Matosinhos, ao Pestana Palácio do freixo, ao Edifício das Moagens Harmonia, agora transformada em Hotel, e à Cooperativa dos Pedreiros e Edifício Miradouro.

Em relação à edição anterior há agora mais cinco espaços visitáveis. Dos 65, 70% integram o programa pela primeira vez. As repetições abrangem, entre outros, a Casa de Chá da Boa Nova e a Piscina das Marés, ambas de Álvaro Siza; a Casa de Serralves e o Mosteiro da Serra do Pilar.