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Lady B. rivaliza com Mona Lisa

Beyoncé e Jay Z junto a Mona Lisa

d.r.

Beyoncé foi ao Museu do Louvre e gostou. Arrastou consigo Jay Z, o “rapper” com quem partilha vida e filhos. Nos últimos dez anos terão lá ido quatro vezes e, na última dessas visitas, em maio, fizeram uma proposta, pelos vistos irrecusável, aos responsáveis pelo maior museu de arte do mundo, instalado num edifício carregado de história e de simbolismo político.

O casal construiu a personalidade musical “The Carters” para preparar um novo disco em conjunto, intitulado “Everything is love”. No Louvre quiseram rodar o videoclip do primeiro single, lançado de surpresa no início desta semana. Ao final da manhã de hoje, ou seja, três dias depois, “Apeshit” tinha já quase 27 milhões de visualizações no Youtube.

Esse facto em si mesmo é tão arrasador, que pode condicionar qualquer discussão mais aprofundada sobre o papel dos museus e o modo como a sua relação com a sociedade tem vindo a ser subvertida, ou apenas alterada, conforme os posicionamentos de cada face a um novo fenómeno de características globais.

Sub-financiados, os museus procuram outros recursos

Sub-financiados, os museus procuram outros recursos

FOTO ALBERS/GETTY IMAGES

Não há como esconder a asfixia financeira abatida sobre a generalidade dos museus da Europa. Desde o século XIX têm assentado o seu funcionamento num modelo de financiamento em que o estado assume um papel fundamental. A exceção americana, onde predomina a propriedade privada dos museus, apenas confirma uma regra que fez caminho. Não obstante todas as mudanças assistidas desde o deflagrar da crise financeira há dez anos, a tendência continua a ser a da primazia dos fundos públicos, embora com uma expressão cada vez menor.

Os museus estão aflitos. A americanização do conceito de museu está a deixá-los cada vez mais dependentes de regras de mercado e apoios privados. Num texto publicado esta semana a propósito do vídeo de Beyoncé, o jornal espanhol El País escolhia para título uma interrogação cuja simples formulação é todo um enunciado: “Por quanto se vende um museu?”.

Empurrados para a constante busca de financiamentos alternativos, os responsáveis pelos grandes museus do mundo estão a deitar mão de todos os artifícios, de modo a aumentarem as receitas e cobrirem os défices de financiamento. Embora a decisão do Louvre tenha suscitado um vasto conjunto de reações indignadas nas redes sociais, esta não foi a primeira vez que cedeu as instalações. Mas foi a primeira vez que permitiu filmagens para um vídeo promocional nas salas onde estão algumas das suas principais obras, tidas como património artístico da humanidade.

Beyoncé e Jay Z junto a Mona Lisa

Beyoncé e Jay Z junto a Mona Lisa

d.r.

“Apeshit” contém só por si uma mensagem política e social, acentuada pelo contexto e pelo local onde é concebido o vídeo. Como nada há de inocente nas opções éticas e estéticas assumidas por Beyoncé e Jay Z, é crucial perceber o modo como um casal de cantores que em nenhum momento abdica de afirmar a sua negritude, se apropria das salas de um museu onde aparecem referentes maiores da cultura ocidental, para reivindicar uma pertença raras vezes assumida ou consentida. Os grandes museus clássicos, de que o Louvre ou o Prado são paradigmas, são, também, a expressão de um poderio colonial, às vezes resultado de uma tentação imperial, com tudo quanto está inerente a essa condição, desde a opressão, à escravatura, desde a pilhagem ao silenciamento do outro.

Haverá mais poderosa forma de dizer “isto também é nosso”, do que a materializada por Beyoncé ao conceber um fantástico e belíssimo vídeo onde os The Carters se passeiam, cantam, dançam, e se sentam em pose, qual rei e rainha africana, por entre Mona Lisa, a Vitória de Samotrácia, a Vénus de Milo, o Casamento em Caná ou a Coroação de Napoleão?

Não se sabe quanto pagaram para que fosse possível este verdadeiro ato de subversão. Fala-se em 23 mil euros por dia, mas há quem admita ter sido o dobro, no mínimo. Não há muito tempo, o Metropolitan Museum de Nova Iorque recebeu uma doação de um milhão de dólares (uns 860 mil euros) para acolher a rodagem do filme “Ocean’s 8”, que está prestes a estrear.

A prática do aluguer já é comum em Serralves

A prática do aluguer já é comum em Serralves

RUI DUARTE SILVA

O Museu de Orsay, em Paris, já chegou a fechar as portas ao público meia hora mais cedo, num dia de semana, para que a Eletricité de France ali organizasse uma festa ao seu presidente, que pretendia discursar por volta das 19 h. O ano passado estourou grande polémica em Portugal pela cedência do Panteão Nacional para uma festa da Web Summit. Cinco mil euros foi o modesto preço pago pela utilização de um símbolo nacional. O Museu dos Coches também já se viu envolvido numa contenda similar, por ter permitido um salão automóvel no meio da exposição permanente, e Serralves é com frequência alugado para a realização de festas e casamentos.

Sem ser preciso estar de acordo com a ideia de que tudo é alugável, ou que tudo se vende, é razoável aceitar estarmos em presença de um problema complexo, devido ao recuo do Estado, e para o qual não há respostas fáceis. Não por acaso, os museus já não dispensam pelo menos uma exposição anual capaz de atrair público em massa, e os preços das entradas estão cada vez mais elevados.

Com bilhetes cada vez mais caros, os museus precisam de multidões

Com bilhetes cada vez mais caros, os museus precisam de multidões

FOTO PEDRO FIÚZA/NURPHOTO/GETTY IMAGES

É já comum, em Londres, Paris ou Amesterdão, serem cobrados €20 para a entrada num grande museu. É caro. É mesmo muito caro. Tal como é caro pagar €10 para visitar o museu de Serralves. Estes preços, mesmo elevados, só se aguentam assim graças às subvenções públicas, em alguns casos à mistura com apoios privados. Como um vídeo de Beyoncé.

O perigo está na opção ideológica de esbater cada vez mais o apoio do Estado. Se os museus forem abandonados às regras puras e duras do mercado, quanto terá de custar uma entrada? E o que será feito da democratização do acesso á cultura?