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Isabelle Huppert: “O cinema é a arte de dar a ver o que é invisível”

Conversa com a grande atriz francesa sobre o seu papel em “Eva”, novo filme de Benoît Jacquot que se estreou quinta-feira

Não é possível percorrer todos os caminhos, glórias e paradoxos de uma atriz tão prodigiosa, mas é sempre um prazer descobrir mais uns quantos quando se fala com Isabelle Huppert, mulher obstinada e de uma inteligência rara, com um percurso no cinema que não dá sinais de fadiga — mesmo quando, em causa, a conversa gira em torno de um filme menor. Em “Eva”, remake de uma obra célebre de Joseph Losey, ela interpreta uma call girl de luxo que vira do avesso a cabeça de um dramaturgo impostor e oportunista. Não há piedade, remorsos muito menos.

Porque é que aceitou este papel?
Corro o risco de repetir-me, mas insisto: eu não escolho papéis, são eles que me escolhem. Esta ideia é cada vez mais clara para mim à medida que os anos passam. Resolvi participar em “Eva” por causa de Benoît Jacquot em primeiro lugar. Filmámos juntos variadíssimas vezes, temos uma longa história profissional que leva já mais de trinta anos — o tempo passa depressa. O desejo de voltar a trabalhar com Benoît foi mais forte do que tudo. E foi recíproco. Os filmes também se fazem por coisas simples: o prazer de um reencontro, por exemplo.

“Eva” já fizera uma data pelo filme de 1962 com Jeanne Moreau realizado por Joseph Losey, cineasta que conheceu e com quem, de resto, trabalhou no início da sua carreira [em “La Truite”/“Uma Estranha Mulher”, 1982]. Neste sentido, o remake de Jacquot foi um obstáculo?
Não, eu acho que não há dois filmes iguais na história do cinema. Aliás, decidi não ver o filme de Losey antes de fazer este, não julguei que fosse necessário e evitei assim ficar condicionada pela interpretação de Jeanne Moreau. Mas depois de ler o argumento de Benoît li também, é verdade, o livro de James Hadley Chase [publicado em 1946 e que também inspirara a obra de Losey], um autor que eu só conhecia de nome. E fiquei surpreenida.

Porquê?
Não esperava que o livro fosse tão contemporâneo. A adaptação de Benoît é bastante livre [desde logo por trazer a ação para a França dos dias de hoje], mas há no livro uma ambiguidade na descrição da personagem que me fez ainda mais querer interpretá-la. Eva não é de todo um arquétipo da mulher fatal ou da mulher venenosa, viciosa. É uma figura mais complexa do que esse cliché.

O facto de Eva fazer o que faz exigiu-lhe alguma preparação em particular? Não é a primeira vez que interpreta uma prostituta, já o tinha feito em “Salve-se Quem Puder”, de Godard, também em “La Vie Promise”, de Olivier Dahan...
A preparação de cada papel é sempre uma questão de técnica. É claro que pensamos em montes de coisas mas finalmente aquilo em que pensamos não serve de grande ajuda a uma atriz ou a um ator. Num filme, trabalhamos a aparência daquilo que vai ser dado ao espectador e esse trabalho, efetivamente, não se prepara: aparece espontaneamente.

Não é esse um dos mistérios do cinema?
Às vezes penso que o cinema começa por existir apenas para nos aproximarmos o mais possível de um rosto. Estou habituada a isso: a câmara aproxima-se, mostra-nos e ao mesmo tempo faz aparecer o que não se vê. E é isso o cinema: a arte de dar a ver o invisível. Essa impressão de termos a superfície e a profundidade em simultâneo é muito misteriosa, estou de acordo, e dá-me grande prazer.

Daquilo que “Eva” nos mostra, o que é que a atraiu mais no papel? A ambivalência feminina da personagem? A relação entre a juventude e o envelhecimento? A atração pela morte?
Aquilo que mais me interessa em “Eva” — pelo menos foi isso que mais me atraiu no argumento de Benoît — é aquela tonalidade ilusória da personagem. Não podemos dizer claramente se ela é simpática ou antipática, se está alegre, triste, ou se é apenas indiferente. O Benoît não só gosta dessas indecisões como as provoca. Há nessa tonalidade uma engrenagem subtil entre a história realista e uma forma de tragédia. Entre um filme que se apresenta como um thriller psicológico e uma certa melancolia.

Considera Eva uma mulher forte, mais uma, das muitas que nos trouxe até agora, tal como a sua personagem em “Elle”?
Continuam a propor-me este tipo de personagens aventureiras — e eu continuo a aceitá-las. Mas isto não é planeado. Não está escrito. Eva é uma mulher que precisa de estar por cima e de manter o controlo. Pode tornar-se muito perigosa quando isso não acontece. Mas a personagem não segue uma espécie de programa psicológico. Aliás, eu costumo dizer que não interpreto personagens, interpreto estados de espírito. Os realizadores que me conhecem sabem disso, já acontecia o mesmo com Claude Chabrol, voltou a acontecer com Paul Verhoeven, agora com “Eva”. Tendo a interpretar mulheres sobreviventes que contornam uma determinada situação histórica ou política. E é curioso, uma das coisas de que eu gosto mais em Eva talvez passe desapercebida: é a sua preguiça. Ela precisa de dormir, e dorme bastante... Mais por preguiça do que por cansaço.

Qual é a condição necessária para se sentir confiante num filme?
Um bom realizador.

E o que espera de um bom realizador?
Que me dê liberdade, mas que me imponha também restrições. Há uma coisa que aprendi com o meu trabalho e da qual estou absolutamente segura: o cinema é subtração. Não trata de adicionar, mas de extrair, de ir por baixo.

E quando se descobre que o realizador não é bom a meio da rodagem?
Nunca me aconteceu. A sério, francamente! É por isso que o momento da escolha [de um realizador] é tão difícil e importante. Encaro-o sempre sozinha, como uma menina crescida, embora os critérios sejam diferentes: o primeiro encontro com um cineasta leva-me a uma profunda ponderação, mas já não me questiono quando filmo com Benoît Jacquot ou Michael Haneke, por exemplo. Já fiz muitos filmes que estão longe de ser perfeitos e que não agradaram a toda a gente. Mas nunca se pode agradar a toda a gente...

O movimento #MeToo consequente do escândalo de assédio sexual em Hollywood é necessário?
As mulheres já venceram muitas batalhas mas eu acho que na ficção continuam a ser poucas as vezes em que não são mostradas como vítimas. Falar em nome das mulheres de outra forma é seguramente uma das razões que me fazem continuar no cinema. Pessoalmente, nunca senti qualquer discriminação no trabalho. Nunca me aconteceu, nunca ninguém se atreveu, nem eu o permitiria. Dito isto, tenho olhado para este movimento com simpatia e, sobretudo, com esperança. Tudo aquilo que aconteceu nestes últimos meses já deveria ter sido revelado há muito tempo.