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A beleza das coisas que não duram

Aos 30 anos, Alice Sant’Anna é já uma certeza da poesia brasileira contemporânea

Aos 30 anos, Alice Sant’Anna é já uma certeza da poesia brasileira contemporânea

Alexandre Sant’Anna

Alice Sant’Anna (n. 1988) começou a publicar poesia aos 20 anos, estreando-se com um livro de invulgar qualidade para uma principiante: “Dobradura”, uma obra delicada e precisa como um origami. Dez anos depois, com mais três títulos na bibliografia (a que se juntam plaquetas e livros artesanais, feitos em colaboração com Armando Freitas Filho, Zuca Sardan e o fotógrafo Alexandre Sant’Anna, seu pai), afirmou-se definitivamente como uma das vozes a ter em conta na cena poética brasileira contemporânea. Abarcando a quase totalidade da obra da autora, o volume “Aula de Natação” é muito mais do que uma introdução ao seu universo: é uma janela escancarada, a partir da qual vale a pena contemplarmos a paisagem de uma escrita em processo de crescimento e metamorfose.

A ideia de janela está muito presente no primeiro livro, editado pela prestigiada 7Letras em 2008. Em muitos poemas, há viagens de autocarro em que a poetisa observa minuciosamente os outros passageiros, os seus gestos e falas, as suas idiossincrasias, numa ânsia de tudo fixar no seu caderno de apontamentos, sendo que o seu olhar também é atraído para fora, para esse mundo que desfila na janela, de onde emanam a toda a hora “grandes imagens”, como quando o ‘ônibus’ sai de um túnel e subitamente “flutuamos numa lagoa de céu/ rosa rabiscado/ com duas ou três nuvens”. A noção de que o olhar é o sentido primeiro do poeta, implicando um confronto com a beleza ou com o horror, instala-se desde o poema de abertura: “Quando faltou luz/ ficou aquele breu e eu/ com as mãos tremendo/ morta de medo/ de tudo se iluminar/ de repente.” Da escuridão para a luz que cega, do quotidiano banal para as pequenas epifanias que o acendem, eis o caminho da maioria destes poemas, marcados por uma certa graça ingénua, uma certa imponderabilidade, aquela leveza de quem ainda procura um caminho e não tem receio de se deixar contaminar pelo eco de outras vozes (como as de Ana Cristina César e Adília Lopes). Alice não se acanha, expondo-se e ocultando-se em cada verso, construindo os poemas como se fossem lugares “inconfessáveis”, onde ocorrem coisas que estão para lá da linguagem: “Ela come tangerina/ com centenas de dedos/ meditativos/ empenhados na função/ de descascar, separar um gomo/ do outro/ mas não mastiga, empurra/ com a língua até a pele/ descosturar/ feito tecido ou papel/ e romper/ em suco.”

Publicado em 2013, na extinta e excelente Cosac Naify, uma editora de São Paulo, “Rabo de Baleia” prolonga a ânsia de “documentar tudo”, das pequenas evidências do quotidiano ao imaginário “rabo de baleia” a que o título alude, miragem contra o tédio dos dias, atravessando a sala e afundando-se no chão de tábuas corridas da casa (como um rasgão no tecido puído da realidade). O poema sofistica-se, é agora um “poema-carona”, uma viagem em que se misturam os fios de pensamento, uma tentativa de fuga à mera “impressão” que as coisas nos deixam, resumida “a um esqueleto, uma frase, uma fórmula”. Aos poucos, os poemas tornam-se mais extensos (é o caso de ‘Titina’, em cinco partes) e mais distantes da matriz original carioca, com os primeiros relatos da vida noutro país: os EUA, terra de gringos “que não entendem nada/ nem abraçar eles sabem”, paisagem humana a que regressará três anos depois, em “Pé do Ouvido”.

Antes, porém, espreitamos duas plaquetas: “Ilha da Decepção”, de 2014, poemas para as fotografias de Alexandre Sant’Anna (não reproduzidas), sobre uma viagem de barco em direção ao Polo Sul, sempre a “descer até onde o mundo acaba”, entre blocos de gelo e ilhas sem nada dentro (“um iceberg é um pedaço de luz/ no nevoeiro cinza/ um iceberg que de repente/ aparece no vidro/ como uma nuvem que pede/ para ser decifrada”); e ‘Ombros Caídos’, parte de uma sequência de “Vinhetas” escritas a meias com Zuca Sardan, em que um pormenor anatómico referido por um professor de ginástica se eleva a metonímia de um corpo, com o poema a admitir que “está sempre tentando/ mostrar e disfarçar ao mesmo tempo”, embora o mais certo seja “deixar o erro/ totalmente à mostra”.

O melhor de Alice Sant’Anna é a sua produção mais recente. Ou seja, “Duas Mulheres” (2017), belíssima aproximação — em oito fragmentos — a uma fotografia, imagem no escuro de um quarto com as luzes apagadas, onde figuras humanas vistas de costas são ecrãs onde tudo se projeta, até a consciência aguda da passagem do tempo. Mas sobretudo o extraordinário “Pé do Ouvido”, poema longo e “tagarela”, em forma de vórtice que tudo engole: a vida da poeta numa universidade da Nova Inglaterra, a sua tese sobre poesia japonesa, as cores das árvores, uma lua redonda, sinais e mais sinais da “beleza das coisas que não duram” (um anel de água no balcão do bar, uma planta que deixou de ser regada). No seu ritmo implacável, o poema imita uma das muitas imagens de que é feito, parece uma onda a agigantar-se e o que “assusta na onda não é o modo/ como ela se ergue” mas antes “a maneira como ela vai desarmar depois”.