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A vertigem do espetáculo tímido que recusa ser espetacular - tem tudo para correr mal e ainda bem

"Teoria das Três Idades", de Sara Barros Leitão, é a peça que desce ao subpalco do Teatro Municipal Rivoli, esta segunda e terça-feiras, inserida na programação do FITEI

Eduardo Breda

“Teoria das Três Idades” marca a estreia de Sara Barros Leitão como encenadora, depois de um mergulho solitário no arquivo do Teatro Experimental do Porto. É a odisseia de uma jovem atriz à procura da beleza das pequenas histórias imperfeitas de uma companhia que aos 65 anos não recebe apoio do Estado

A pós-modernidade caracteriza-se pelo abandono das grandes narrativas e a História contemporânea é tecida pelas pequenas histórias. Haverá espaço para a memória numa sociedade acostumada a registar todos os momentos, sujeita a um bombardeamento constante de informação instantânea e na qual as recordações se transformam em voláteis souvenirs subjugados por algoritmos? Qual a importância de guardar, revisitar e arrumar o passado num presente sem tempo? O que fazer com o incomensurável lastro arquivístico de uma histórica companhia de teatro que aos 65 anos não recebe apoios do Estado e para quem a resistência sempre foi palavra de ordem? Aquilo que preservamos deve ser organizado de forma metódica ou emocional? Pode o mergulho solitário de uma jovem atriz dar sentido a tudo isto? Todas estas interrogações servem de mote para a peça “Teoria das Três Idades”, primeira incursão de Sara Barros Leitão no mundo da encenação, ao construir um monólogo a partir do arquivo do Teatro Experimental do Porto (TEP), onde se depara com uma série de dúvidas e contradições.

Despojado de adornos e desconstruindo todos os códigos teatrais instituídos, o espetáculo rejeita a exuberância do palco e dá-se a conhecer no subpalco do Rivoli. Assume-se como um manifesto vertiginoso sobre o ato de criação. Trata-se, assim, do retrato de um espetáculo tímido a olhar o público nos olhos para afirmar a recusa em ser espetacular. São 50 minutos com tudo para correr mal. E ainda bem.

Quem avisa é Sara Barros Leitão, sozinha em cena, “sem palco ou confetes”, a escutar a voz do avô gravada numa cassete que a instrui no engenho de tratar um arquivo e na arte de fazer o contrário disso mesmo, neste que é o trabalho artístico “mais importante” da sua carreira. “Não me interessou fazer um espetáculo espetacular, porque não é essa a pessoa que eu sou. Acho que se fosse totalmente feliz não podia ser artista. Eu também trabalho com a felicidade, mas é por sofrer que consigo reconhecer esse estado de felicidade”, explica a atriz de 27 anos, imersa na leitura de todos os documentos que compõem o arquivo do TEP ao longo de um ano e meio.

Eduardo Breda

O que devemos a quem chegou antes de nós

A peça faz um arco sobre a história do Teatro Experimental do Porto, uma companhia a entrar na terceira idade mas sempre irreverente e a desafiar os cânones. Foram caixas e caixas de cartão retiradas do lugar, cartas caligrafadas e rasuradas, provenientes de uma época em que era necessário fintar a censura, sobre as quais um olhar livre e atento pousou novamente, vagarosamente, com a jovem criadora a desacelerar o tempo em busca do tempo perdido, na procura dos pequenos detalhes e do encanto das pequenas histórias que cosem a grande História.

Inserida na programação do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, “Teoria das Três Idades” interessa-se pelas narrativas tantas vezes relegadas para segundo plano. São atas de várias assembleias-gerais do Teatro Experimental do Porto trazidas para a cena, assim como muita da correspondência esquecida que ganha uma voz disposta a derrubar a quarta parede, na ânsia de construir empatia com o público. “Eu não posso acabar este espetáculo sem ter estado a dizer alguma coisa nos olhos de cada espectador”, frisa Sara Barros Leitão.

O trabalho documental e simultaneamente autobiográfico apresenta relatos incontornáveis do problema intemporal da falta de verbas, narrações de infiltrações nos camarins e da devastação de um incêndio, lutas sindicais e as reivindicações para a profissionalização do setor, a emancipação das artistas de teatro, ordens de despejo, o depoimento de um sócio do TEP indignado com a falta de pudor patente na peça “A Promessa” de Bernardo Santareno ou até uma tabela de ensaio, ao qual um ator faltou depois de, na véspera, 1 de maio de 1974, tanto tanto ter gritado extasiado pelas ruas.

“Se no arquivo me interessou tudo aquilo de que as pessoas nunca falavam, quando falo sobre mim e sobre o processo de criação interessa-me tudo aquilo que os artistas não dizem nas entrevistas, porque têm imenso pudor. Eu adoro falar daquilo que geralmente os outros não gostam de confessar”, afirma a encenadora e intérprete. “Acabo por gostar da peça pelos defeitos que tem, porque apaixono-me por coisas defeituosas. Mas não é aquilo que eu sonhei, enquanto criadora. E este projeto também é sobre isso, sobre o facto de não termos de estar sempre à altura. É sobre histórias falhadas”, acrescenta Barros Leitão, interessada em colocar-se constantemente num “lugar de risco” e de “estar perto do precipício”, com o objetivo de “falar sobre o que nos humaniza”, por considerar que a sociedade caminha para uma desumanização.

Eduardo Breda

“Somos todos humanos e os espetáculos não são todos brutais. As estreias não correm sempre bem, fazer anos não é sempre bom e no ‘resort’ em Marrocos também há um vento gelado que não fica nas fotografias do qual as pessoas não falam, só para continuarem a dizer que as férias foram excelentes. As férias não são sempre boas. Por vezes são uma merda”, constata, entre risos, Sara Barros Leitão, num discurso aberto e descomplexado, estritamente ligado a uma criação também ela despida de qualquer preconceito artístico.

Shakespeare proclamou que “o mundo inteiro é um palco” e talvez em ambos a farsa sempre impere, mas para Sara esta é a mais fiel representação de si mesma. “Esta sou eu, aqui e agora. Aqui e agora, quero usar em palco umas galochas oferecidas pela minha avó”, porque, sustenta, a peça é sobre “a importância de lembrar aquilo que devemos a quem chegou antes de nós”.

“Teoria das Três Idades” desce ao subpalco do Rivoli esta segunda-feira, pelas 21h30, e repete às 19h do dia seguinte.