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Quando tudo arde

Um disco nascido 
do facto de Neko Case 
ter perdido 
a casa num incêndio

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Neko Case estava na Suécia, a prepar o seu primeiro álbum de originais em cinco anos, quando foi surpreendida por uma chamada às três da manhã. Do outro lado da linha, a notícia que ninguém deseja receber: a de que a sua casa, no estado de Vermont, estava a arder. O fogo começou no celeiro, onde a norte-americana guardava obras de arte e pianos antigos, e alastrou à casa, que acabou por ficar reduzida a cinzas.

Depois do choque, Neko Case relativizou e resignou-se. Aparte algumas fotografias antigas e uma camisola de estimação, o que se perdeu no fogo eram só coisas que, afinal, não eram assim tão essenciais. “Se alguém incendiar a nossa casa de propósito, sentimo-nos violados. Mas quando é a natureza que o faz, não podemos levar a peito”, afirma no seu site.

“Há muitas pessoas que perderam muito mais: perderam vidas.” Com esta ideia em mente, Neko Case voltou para estúdio e gravou ‘Bad Luck’, uma canção altamente vitaminada na qual discorre, com humor, sobre a ironia por detrás das pequenas tragédias. Este primeiro single de “Hell-On” acaba por dar o tom a um álbum que, nunca se furtando a um lençol subterrâneo de melancolia, é tudo menos triste ou derrotado. Ainda que desde 2013 não editasse em nome próprio, Neko Case tem-se mantido ocupada, trabalhando com os New Pornographers ou lançando um disco com k.d. lang e Laura Veirs.

Em “Hell-On”, volta a contar com as novas companheiras nos coros de várias canções — e Laura Veirs juntou-se a ela para escrever ‘Oracle of the Maritimes’. Também Beth Ditto, Mark Lanegan (em ‘Curse of the I-5 Corridor’) e Joey Burns, dos Calexico, nas guitarras, podem ser encontrados na ficha técnica de um álbum no qual, não obstante a generosa porção de ilustres, Miss Case — mulher de causas, voz de fogo eterno — é a estrela suprema. Destaque para ‘Halls of Sarah’ e ‘Sleep All Summer’, versão dos Crooked Fingers (em dueto com o seu autor, Eric Bachmann), da qual os National e St. Vincent já haviam gravado, em 2009, uma onírica versão.