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Eugenia Rico: “O escritor é sempre um estrangeiro”

nuno botelho

Em Lisboa para lançar a tradução de um livro seu, a autora espanhola falou da infância, da importância dos leitores, de Veneza, e do compromisso dos artistas com o mundo

Nascida em Oviedo (1972), Eugenia Rico é uma das mais reconhecidas escritoras espanholas da atualidade. Entre outros, ganhou o Prémio Azorín e o Bauer Youth Prize, atribuído pelo Festival Internacional de Literatura de Veneza, a cidade onde vive. Em 2011, participou no prestigiado Programa Internacional de Escritores da Universidade de Iowa. Já com três livros editados em Portugal (“A Idade Secreta”, “Só a Água me Espera” e “No País das Vacas Sem Olhos”, todos pela Casa das Letras), assistiu em Lisboa ao lançamento da tradução do seu primeiro romance, “Os Amantes Tristes”, com chancela da Parsifal. Extrovertida, conversou num castelhano misturado com galego, língua que ouvia na infância, em Lugo, “não tão longe assim de Trás-os-Montes”.

A sua nota biográfica revela que decidiu ser escritora aos cinco anos. No entanto, só publicou o primeiro livro, “Os Amantes Tristes”, no ano 2000, já com 28. Porque esperou tanto tempo?
Não queria precipitar-me. Foi um processo longo mas necessário. Em criança, o meu único refúgio era ler. Como estava muitas vezes doente, tive uma infância muito solitária. Os livros eram os meus companheiros. E depois adquiri o prazer da escrita. Aos seis anos, ganhei um prémio para a melhor redação infantil na região das Astúrias, num concurso patrocinado pela Coca-Cola. Eu andava num colégio de freiras e as outras meninas perseguiam-me e batiam-me, talvez por inveja. Desde cedo, associei a vida literária à sensação de que a escrita te transforma num alvo para os outros.

Lembra-se do tema desse texto?
Não. Mas lembro-me de outro, que escrevi quando tinha 11 anos. Era um conto sobre um desempregado que vai até uma ponte para se suicidar, mas não chega a atirar-se ao rio porque compreende que não há motivo para ter pressa. Porquê morrer hoje se podemos morrer amanhã? É uma história à maneira do Raymond Carver, só que escrita numa altura em que eu ainda não tinha lido o Raymond Carver. [Risos] Continuo a guardar o recorte. Foi publicado num jornal e no colégio toda a gente me dizia: esperamos que um dia consigas ser uma escritora famosa.

Essa expectativa foi difícil de gerir?
Era sobretudo um grande peso. Não queria desiludir. Por isso, a minha ideia foi só publicar quando achasse que estava pronta. Aos 15 anos, escrevi um romance histórico, cuja ação decorria no tempo dos egípcios, datilografado numa máquina de escrever com teclas que estavam sempre a ficar presas. Um martírio. Depois, já na idade adulta, escrevi quatro romances que nunca saíram da gaveta. E pelo meio fiz outras coisas: fundei uma revista literária, licenciei-me em Direito, trabalhei num lóbi que defendia os mineiros europeus.

Mas nunca deixou de escrever?
Nunca. Com o tempo, fui apurando a minha voz, o meu estilo. E houve um fator importante para essa minha necessidade de escrever. Ainda muito nova, tive um contacto direto com a morte. No mesmo ano, morreu a minha avó, que me tinha criado em Lugo, nas montanhas da Galiza, e pouco depois o meu irmão. Ele tinha 16 anos. Era esplêndido, maravilhoso, eu adorava-o. Afogou-se no mar em circunstâncias misteriosas. E para mim foi um golpe tremendo, duríssimo. Fiquei literalmente cega de dor durante uma semana e sem conseguir falar um mês inteiro. Se já era escritora, mas numa atitude lúdica, depois da morte do meu irmão passei a ser escritora por necessidade, como forma de vencer a morte. Escrevia furiosamente contra a morte.

Era a sua forma de lidar com a perda?
Sim. O poder da literatura é extraordinário. Costumo dizer que é a única máquina do tempo que funciona.

Porque se decidiu finalmente a publicar, estreando-se com “Os Amantes Tristes”?
Conto essa história no posfácio à edição portuguesa do livro. Sofri um acidente de automóvel, bastante grave. Depois de recuperar, fui passar uns dias a Marrocos e andei pelo Sara. Ainda tinha uma pequena ferida num pé, que piorou com o calor extremo e degenerou numa gangrena. Podia ter morrido de septicemia, mas tive uma sorte incrível: os meus companheiros de viagem, espanhóis, tinham-me deixado em Marraquexe, e fui salva por um marroquino que pagou os meus antibióticos. Ao regressar a Espanha, no comboio, entre sonhos febris e alucinações, decidi publicar o livro que andava há tanto tempo a escrever e reescrever.

Desde então, publicou mais cinco romances, um livro de contos e dois de não-ficção. Quase todos são dedicados, de forma explícita, aos “leitores”.
É verdade. A minha escrita exige um leitor participante. Gosto de pensar o romance como um icebergue. A história existe mais no que ficou por escrever — e que o leitor tem de colocar lá, a partir da sua experiência, da sua sensibilidade — do que no que fica efetivamente escrito. Para mim, a função do escritor é lançar no texto pequenas bombas-relógio que explodirão mais tarde, na memória do leitor, provocando-lhe um prazer inesperado. Ao escrever ponho uma máscara, coloco uns óculos, e o leitor, se espreitar por essas lentes, vê pelos meus olhos. Mas é só uma versão, tão válida como aquela que cada leitor criará na sua cabeça.

Neste momento, vive em Veneza, uma das cidades mais literárias do mundo. O que a levou até lá?
Na verdade, foi a cidade que me chamou. Ofereceram-me uma bolsa de criação e eu fiquei. Apesar do turismo de massas, Veneza ainda está fora do mundo, ainda é um lugar onde tudo pode acontecer. Acordar de manhã, com a neblina a pairar, é mágico. Ver as tempestades ao longe, os relâmpagos sobre a lagoa. E é um paraíso para as crianças, porque não há carros. Todos se conhecem. A minha filha adora. Anda na escola e canta no teatro La Fenice. De certa maneira, já nos sentimos venezianos, dos verdadeiros, dos que moram mesmo lá e não andam atrás dos cenários de bilhete-postal.

Que importância é que a viagem tem para si enquanto escritora?
Ao longo dos anos viajei muito pelo mundo. Até cheguei a ser repórter de guerra. E acho que o escritor deve ter um compromisso com o mundo que o rodeia, mesmo se escreve sem sair de casa. Porque o escritor é sempre um estrangeiro, alguém que olha para as mesmas coisas, mas com olhos novos. Caso contrário, limita-se a repetir o que já foi feito. E isso não interessa.

Os artistas devem comprometer-se no plano político, ou apenas no plano cívico?
Pessoalmente, espera-se que sejam tão ativos como outro cidadão qualquer, na política ou noutras áreas da sociedade. Mas enquanto artistas, acho que só devem assumir um compromisso: com a beleza e com a verdade das suas criações.

Dezoito anos depois, ainda se reconhece em “Os Amantes Tristes”?
Posso dizer isto: quando o releio, fico muito satisfeita. Francamente, acho que o livro é muito melhor compreendido hoje. Em vez de envelhecer, rejuvenesceu.

Além da amizade e da traição, um dos temas centrais é a loucura, tópico clássico desde “Dom Quixote”.
Sim. No fundo, o escritor escreve para saber que não está louco. E os bons escritores não enlouquecem porque conseguem meter todos os seus fantasmas, todos os seus demónios, naquilo que escrevem.