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Não é bem embalar fiambre

O elenco conta com quatro portugueses, entre os quais um homem de origem cabo-verdiana, 
um esloveno e quatro ingleses

Num canto da Inglaterra, milhares de portugueses matam, 
esventram e desossam perus. Marco Martins foi conhecê-los 
a convite de Renzo Barsotti e fez uma peça de teatro

Saltar da cama às quatro da manhã, apanhar um autocarro, fazer uma viagem de uma hora e meia na parte detrás desse autocarro para usufruir do calor do motor, trabalhar o dia inteiro e voltar a entrar em casa depois das seis da tarde, é parte da vida de alguns milhares de portugueses emigrados em Great Yarmouth. Uma existência dura que os tira dessa morada longínqua e os traz de volta à noite. Aquela também que calhou aos que não conseguiram ganhar em Portugal o salário de cerca de mil e duzentos euros que conquistaram naquele canto gelado de Inglaterra.

Renzo Barsotti, programador italiano a viver em Portugal, descobriu-os em 2013, mas alguns deles já por lá andavam desde o início do século XXI. Naquela altura, Portugal já não era um país de esperança, nem Great Yarmouth a feliz estância de férias que fora desde os tempos vitorianos. O país vivia outra vida, atacado ou salvo pela troika (dependendo das perspetivas), e os portugueses saíam cada vez mais para procurar alternativas. Great Yarmouth dava um novo suspiro, depois de ter sido acometido pelos voos low-cost, que prometiam destinos paradisíacos a baixos preços em águas menos escuras, tão cristalinas quanto as algarvias. A estância transformava-se à conta da indústria de poultry, na vizinha Norwich, e recebia cada vez mais portugueses vindos de diferentes partes do país.

Os portugueses são hoje mais de dez mil. A poultry já não é a Bernard Matthews. Na gíria da cidade é a “Bernardo Mateus”, nem que seja porque lá dentro já só se fala português. Depois veio o ‘Brexit’ e o medo de serem escorraçados, e maltratados pelos quase oitenta por cento que disseram não aos estrangeiros. Marco Martins chegou lá pouco depois de Renzo Barsotti, que via naquela realidade uma possibilidade de questionar a realidade, de perceber para onde caminhamos como país e como europeus. A relação entre o produtor/programador e Marco Martins é antiga. Começou com um filme (com Tonino Guerra) e rapidamente se transferiu para o teatro, o teatro de rua, de que Barsotti é um grande ativista e defensor, ou para “o teatro com rua”. Fizeram a primeira “intervenção” no acampamento de ciganos da Baralha, seguiram-se outros projetos, incluindo os Estaleiros de Viana, antes da privatização e dos despedimentos em massa. Marco Martins diz que encontrou nestes desafios, tão fora das preocupações habituais dos programadores, sempre uma urgência, uma pertinência, o inesperado.

Um dia, Marco Martins chegou a Great Yarmourth. Sentou-se no centro da cidade e começou a entrevistar portugueses. Em dois dias falou com cerca de cento e cinquenta emigrantes, mas o que descobriu com o tempo foi que ninguém estava muito interessado em falar. Não havia glamour em desossar perus. Um dia decidiu esperá-los à paragem de autocarro, mas o olhar baço, que traziam colado ao chão, não lhes permitiu que o reconhecessem. A construção do espetáculo revelou-se muito dura, teve muitas incursões e muitos revezes. Mas nenhum dos dois desistiu. Foram trazendo mais gente: Nuno Lopes, Sara Carinhas, Victor Hugo Pontes, Zé Pires. Foram fazendo workshops. Foram incluindo no elenco pessoas de outras origens que também tinham histórias para contar: são quatro portugueses, nos quais se inclui um de origem cabo-verdiana, quatro ingleses e um esloveno. Foram lutando contra as contrariedades: “Foi um trabalho muito duro por parte de todos, porque a cidade não é particularmente acolhedora”, explica Renzo Barsotti. Falta, como diz o programador e também o encenador, um sentido de comunidade: “É cada um por si.” E falta saber, como ambos dizem, se isto é apenas uma característica de Great Yarmouth, e de todos aqueles que saíram do país acreditando que o futuro só podia ser melhor e que iriam embalar fiambre, quando na verdade o que foram fazer foi sobreviver a matar, esventrar, desmanchar e desossar perus.