Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Palavras de Fogo plantam esperança nos lugares onde chamas colheram lágrimas

Expresso

Festival Literário Internacional do Interior realiza-se nos municípios mais devastados pelos incêndios que assolaram o país no último ano. Luís Sepúlveda, José Luís Peixoto, Pedro Mexia, Nuno Júdice e Yao Feng, entre outros, levam "Palavras de Fogo" para acender a chama da esperança numa região tantas vezes esquecida

17 de junho de 2017: o tempo parou e o vento abrasivo suspendeu a sucessão dos dias. Naquele fatídico verão, das cinzas ergueu-se no coração do país uma arrepiante e perpétua noite de inverno. As chamas semearam silêncios em Pedrógão Grande, ceifaram vidas e colheram as lágrimas daqueles que testemunharam, impotentes, ao mais trágico incêndio de que Portugal tem memória. Ficaram as crónicas do medo e do fogo nas aldeias onde cada um era o mundo inteiro do outro. Um ano depois, a data não é esquecida, nem os municípios da região interior mais afetados pela onda de ignições florestais do último ano. Se o fogo destrói e cobre a terra com um manto negro, o mesmo também protege, aquece e reconforta, tal como a literatura, fonte de luz e de sonhos, onde nas metáforas cabem céus mais azuis onde renasce a esperança.

Assim germinou a primeira edição do Festival Literário Internacional do Interior (FLII) - Palavras de Fogo, realizado entre esta sexta e segunda-feira, em 11 dos concelhos consumidos pelas labaredas. Há um ano, o desespero gritava mudo e indizível. Agora, a literatura grita em solidariedade, com mais de 30 convidados a participar no evento, levando palavras quentes até Arganil, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Lousã, Miranda do Corvo, Oliveira do Hospital, Pampilhosa da Serra, Pedrógão Grande, Penela, Sertã e Tábua.

“O interior do país é quase sempre notícia pelas tragédias e quisemos exorcisar essa imagem, apagar esse estigma e dar uma outra visão de uma região extremamente bonita e atrativa”, explica ao Expresso a escritora Ana Filomena Amaral, uma das responsáveis pela organização, a quem se juntaram José Luís Peixoto e Pedro Mexia para desenhar a programação. “Nós não temos curadores, temos cuidadores”, frisa a mentora da iniciativa.

“É na prevenção que está tudo, não só nos fogos florestais, mas é fundamental também dar à região uma outra formação para a cultura”, acrescenta a autora de 11 livros e presidente da direção da Cooperativa Arte-Via, associação dinamizadora do FLII, que conta com os apoios da Presidência da República, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, da Fundação Calouste Gulbenkian, da DGLAB e do Turismo de Portugal.

“Queremos aproveitar o lado vital do fogo para apagar o lado mortal”

“O nome [“Palavras de Fogo”] pode provocar alguma estupefação e até algum constrangimento. A expressão provém, no entanto, de um texto medieval francês, do séc. XIV, e pensámos que seria apropriado”, sustenta Ana Filomena Amaral, para quem o Festival Literário Internacional do Interior se prefigura como uma “homenagem às vítimas dos fogos florestais”, enaltecendo a capacidade “extremamente regeneradora” da literatura. “O fogo, tal como tudo, tem o seu lado mortal e o seu lado vital. Queremos aproveitar o lado vital do fogo para apagar o lado mortal”, assevera a programadora.

O evento vai contar com a presença dos já citados Pedro Mexia e José Luís Peixoto - este último conhecido por uma escrita capaz de espelhar a ruralidade de um país distante dos grandes centros urbanos e onde o mundo cabe no interior de uma aldeia -, aos quais se juntam outros nomes como Nuno Júdice, Clara Pinto Correia, António Tavares, Hélder Beja ou Maria Antónia Palla

O leque de municípios devastados pelos fogos florestais - nos quais o certame decorre simultaneamente durante quatro dias - abre-se também ao mundo, acolhendo referências literárias como o chileno Luís Sepúlveda, o chinês Yao Feng, o tailandês Prabda Yoon, o argentino Mempo Giardinelli ou a peruana Julia Wong. “Todos anuíram ao nosso convite e vêm cá com imensa alegria”, conta Ana Filomena Amaral, com novo livro [“O Diretor”] para apresentar no FLII.

Confirmada está também a presença de Marcelo Rebelo de Sousa, este sábado à noite, pelas 20h, em Castanheira de Pera, na Praia das Rocas.

Os livros também sentem saudade e procuram companhia em lugares incomuns

A programação da primeira edição de “Palavras de Fogo” - disponível integralmente AQUI - distingue-se por ultrapassar as fronteiras da literatura, promovendo um encontro interartístico, com momentos de música, teatro ou dança. Outra das marcas identitárias do festival, promovido pela Cooperativa Arte-Via, da Lousã, reside na particularidade de se esquivar aos lugares convencionais e ir à procura do público nos locais menos expectáveis.

“É um evento ao ar livre. Vamos ter iniciativas em praias, em serras, em rios, em fábricas, em igrejas ou em romarias”, explica Ana Filomena Amaral ao Expresso. “Vamos à procura das pessoas, porque os livros também sentem saudade. São os livros e os escritores que vão ter com os leitores”, complementa a organizadora e presidente da direção da Cooperativa Arte-Via.

O Festival Literário Internacional do Interior é assim a demonstração de que a cultura pode estar ao serviço da sociedade, fazendo a "festa da palavra", na qual não se esquece o passado, molda-se o presente e apontam-se horizontes futuros. “Vamos, nas próximas edições, convidar outros municípios e associações. Estamos a nascer, mas queremos crescer e estamos certos de que no próximo ano seremos maiores”, conclui a dirigente artística do FLII.

  • A máquina do tempo: Pedrógão um ano depois (documentário e reportagem multimédia)

    Um ano é nada, 17 de junho de 2017 parece ontem. E para quem o viveu, 17 de junho de 2017 é agora. Sobre Pedrógão já se mostrou tanto e está quase tudo por mostrar. Porque há silêncios que demoram a desaparecer, queimaduras na pele que lembram aos sobreviventes o que outrora foram e já não são. “Não penso nem no passado nem no futuro, lamento o meu presente”, hão de dizer-nos. O Expresso passou um ano nos concelhos afetados pelos incêndios de 17 de junho e entregou câmaras de filmar a crianças diretamente afetadas pela tragédia, dando-lhes total liberdade para filmar o que quisessem. O trabalho inclui ainda testemunhos de feridos graves que quebram o silêncio da maneira possível. Um ano depois, mostramos os vivos sem esquecer os 66 que o país perdeu. Portugal tem de saber