Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Instantes fatais

Quem não se lembra da erótica Emmanuelle ou do célebre cruzar de pernas de Sharon Stone? Porque o cinema é o maior palco das fantasias, convidámos 14 atores portugueses a recriarem cenas sensuais que ficaram no imaginário de todos. É esse trabalho, publicado na Revista de 5 de março de 2011, que reproduzimos nos Arquivos Expresso

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Textos e coordenação

Jornalista

FERNANDA SERRANO
“INSTINTO FATAL”

Ana Baião

O perverso e lento cruzar de pernas de Sharon Stone numa cena de interrogatório policial em "Instinto Fatal" (1992), de Paul Verhoeven, tornou-se uma das cenas eróticas do cinema mais badaladas de todos os tempos e catapultou o nome de Stone até ao pódio das maiores estrelas de Hollywood. Após uma hora de caracterização e trajada com um figurino muito semelhante ao original, Fernanda Serrano entrou em estúdio altiva, confiante, sentou-se sem hesitação na cadeira do cenário, apesar da minissaia que envergava deixar entrever tanto como no filme original.

Consciente da sua boa forma, segurou num cigarro aceso (apesar de não fumar), ensaiou um determinado olhar enigmático, esboçou um sorriso gélido e passou quase toda a hora seguinte a experimentar variações deste famoso jogo de pernas. Até tudo encaixar certo. "No início parecia uma fotografia muito fácil de fazer. Mas não foi, porque havia sempre algum detalhe por melhorar. Ou era o braço que parecia desconjuntado do resto do corpo, ou era a posição das pernas, ou era o sorriso ou o olhar que ainda não estava bem. Mas como me diverti, e tinha um bom guarda-roupa, uma boa maquilhagem, e a luz e o ambiente certos acabei por chegar lá".

Após um batalhão de cliques disparados pela máquina e, apesar de Fernanda Serrano ter trabalhado no passado como modelo, deixou bem claro que gosta mais de representar em movimento: "É muito difícil representar um filme para uma fotografia. Mas é uma honra posar para um papel que já foi de Sharon Stone e ficou na memória de homens e mulheres."

Fernanda Serrano sai de cena a dizer que gostaria de surpreender o marido naqueles preparos. Ri-se do que diz. "Nós, atores, escondemo-nos um bocadinho atrás destas personagens, para experimentar coisas e expressar os devaneios que nos apetece ter, mas que fora do estúdio não podemos, nem devemos." E pisca-nos os olhos.

ANABELA MOREIRA E RICARDO CARRIÇO
“O ÚLTIMO TANGO EM PARIS”

Ana Baião

"Nós não precisamos de nomes aqui!" Esta foi uma das mais duras e fortes frases ditas por Marlon Brando a Maria Schneider no filme "O Último Tango em Paris", um drama erótico franco-italiano, dirigido em 1972 por Bernardo Bertolucci, que conta a história de um homem viúvo, de 45 anos, que se cruza com uma mulher desconhecida com quem tem química instantânea e passa a ter sexo descomprometido, sem querer saber sequer o seu nome. A história saiu da cabeça de Bertolucci, que, certa vez, viu uma mulher desconhecida na rua e passou a fantasiar em ter relações sexuais com ela.

Desta vez, no lugar de Schneider e Brando estão Anabela Moreira e Ricardo Carriço, que se desnudaram entre os lençóis para recriarem num instante este enredo de paixão, de violência sexual e caos emocional. Antes de entrar em estúdio, Anabela Moreira esteve mais de uma hora à espera que lhe encaracolassem o cabelo, para ficar com uma imagem semelhante ao da atriz original.

Entre bases, pós e modeladores de cabelo, Anabela recordou esta obra-prima do cinema, que para si se pode resumir a uma palavra: "Solidão." Ricardo Carriço, que se entreteve a tocar harmónica nos intervalos das fotografias, acrescentou-lhe outro adjetivo: "Intemporal." Uma obra que, durante muitos anos, foi tabu no mundo inteiro e que chegou a ser proibida de estrear nas salas de cinema portuguesas, pelas arrojadas cenas de sexo. "Na altura, foi um assunto polémico. Se calhar, ainda hoje este filme não é considerado o melhor dos romances.

Porque o sexo continua a ser um tabu. Mas qualquer arte pode comportar tudo. Como na vida", considera Anabela, que procurou reproduzir a ingenuidade e sensualidade de menina que Schneider imortalizou neste papel.

"Deveria ter sido extraordinário fazer este filme com o Marlon Brando. Porque ele não sabia as suas falas e sugeriu que escrevessem nas costas da Maria. Dá para imaginar? Devia ter sido brilhante e sensual contracenar com um homem daqueles, que não sabia bem aquilo que ia dizer, mas que, apesar disso, dava intensidade no que fazia." Dito isto, Anabela revela-nos num só gesto as costas despidas. "Na próxima vida quero ser o Brando. Tem uma sensualidade que me interessa enquanto atriz."

JUANA PEREIRA DA SILVA E PAULO PIRES
“LOLITA”

Ana Baião

Uma menina-mulher lê um livro num jardim, debaixo de um repuxo. O vestido está encharcado e revela as formas do seu corpo púbere. Ao fundo, um homem de meia-idade olha-a com desejo. Está lançada a trama base do polémico romance escrito pelo russo Vladimir Nabokov (1955) e adaptado duas vezes para o cinema pelos realizadores Stanley Kubrick (1962) e Adrian Lyne (1997). Os atores Jeremy Irons e Dominique Swain foram os mais recentes a protagonizarem este romance proibido, aqui reinterpretado por Paulo Pires e Juana Pereira da Silva.

No relvado situado nas traseiras do edifício do Expresso, em Laveiras, Paulo e Juana aguentaram epicamente o frio, o vento, e a água gelada salpicada pelo repuxo para reproduzirem este instante do romance. Trajado com roupa de época, Paulo Pires destaca a reflexão que esta obra lançou. "Há quem diga que é um filme sobre uma relação pedófila. Há quem fale de uma história de amor.

Este é um homem que seduz e se deixa seduzir por uma jovem rapariga que, num twist final, passa de vítima a predadora. São essas contradições e ambiguidades que elevam a obra." Mal é disparada a última foto, Juana enrola-se em toalhas e não disfarça o tiritar de frio. Os seus lábios estão roxos. "Esta experiência foi para mim um misto de sofrimento e de poesia. Procurei concentrar-me na poesia deste amor obsessivo. Aqui procurei dar corpo a uma Lolita que é a projeção real de uma fantasia de um homem mais velho. Uma fantasia que se transforma em amor, obsessão, loucura."

OCEANA BASÍLIO E MARCO DELGADO
“NOVE SEMANAS E MEIA”

Ana Baião

Mickey Rourke e Kim Basinger ficaram para sempre ligados à representação desta fantasia sexual, realizada por Adrian Lyne, em 1986, e que conta a relação entre um homem rico e poderoso e uma galerista de arte que se transforma num amor obsessivo. Para sempre ficou uma determinada cena erótica à beira do frigorífico, que envolveu todo o tipo de alimentos como preliminares de um ato sexual ardente e que se tornou maior que o próprio filme e um dos devaneios mais famosos do cinema.

Foi com leite, pimentos, morangos, cerejas em calda, gelatina e água gaseificada que os atores Marco Delgado e Oceana Basílio recriaram este jogo com muita cumplicidade, à-vontade e brincadeira. Consta que Basinger nunca mais olhou para a cara de Rourke após este filme. Não foi o caso de Oceana, que terminou o dia a clamar por um banho e a gozar com o facto de estar enjoada de tantos morangos que Marco lhe serviu à boca.

"Limitei-me a sentir, como fez Basinger. E diverti-me. Só assim dá certo. Todas as coisas que representamos são o espelho da vida e a fantasia e o erotismo também fazem parte dela." Além deste filme, do agrado de ambos, a atriz referiu uma determinada cena de "O Piano", de James Cameron, que considera o cúmulo da sensualidade.

"É quando a personagem desempenhada por Holly Hunter está a ensinar piano e repara que tem um buraquinho na renda dos collants. É muito sensual. Não é necessário revelar o corpo para se representar a sensualidade. É deixar que o espectador imagine o resto."

ANA ZANATTI E PEDRO LIMA
“O LUGAR DO MORTO”

Ana Baião

A cena fogosa entre Ana Zanatti e Pedro Oliveira na capota de um carro vermelho e preto é um dos momentos que ficou na memória de todos os cinéfilos num filme que marcou para sempre a história do cinema português. Nem que seja pelo facto deste policial, de António Pedro Vasconcelos, ter atingido, em 1984, um dos maiores êxitos de bilheteira do cinema português, ultrapassando os 300 mil espetadores.

Vinte e sete anos depois, Ana Zanatti aceitou voltar a interpretar esta cena erótica e polémica que deu brado num Portugal conservador, acabado de sair da ditadura. Desta vez, o seu parceiro da história foi Pedro Lima. Nunca tinham contracenado. "Mas para estreia não é nada mau. Começámos até bastante bem", gracejou Zanatti. Gargalhada geral no estúdio. Ana senta-se na capota do carro. Abraça Pedro. E enlaça as suas pernas nas dele.

A química de cena foi imediata entre os dois e para a fotografia, com os corpos bem encaixados, os atores fizeram durante longos minutos uma pequena coreografia amorosa. Como na vida real. Os nervos acabaram por ficar apenas do lado da equipa técnica ao observarem tal realismo entre os dois. Numa das pausas da sessão, Zanatti recordou os bastidores da filmagem original.

"Estava muito frio e havia alguma tensão no plateau. E nesta dita cena enquanto representávamos uma relação no capot do carro começámos a escorregar, a escorregar e acabámos a cena no chão, enquanto o António Pedro filmava. E foi ótimo, porque desatámo-nos a rir, o que desbloqueou de imediato a tensão entre a equipa."

A atriz, que mantém a mesma elegância que tinha na altura, confessa que na época não tinha a mais pequena noção do impacto que esta obra iria causar junto do público. "Mas quando olho para trás fico agradada por ter feito parte de um filme que, de alguma forma, significou uma viragem no nosso cinema. Foi um passo em frente e abriu portas e mentalidades." Quase 30 anos depois, Ana declara: "Sinto-me exatamente na mesma. E esta é uma cena que continua a fazer parte daquilo que é a vida. Nada mudou."

SANDRA BARATA BELO
“EMMANUELLE”

ana baião

Uma jovem mulher seminua está sentada num cadeirão de verga com uma pose tentadora e um olhar misto de volúpia, provocação e inocência. Enquanto brinca com um colar de pérolas parece estender um convite a alguém.

Será possível alguém resistir-lhe? Quem a representa no retrato principal é a atriz Sandra Barata Belo, que se sentiu naquele cadeirão como num trono para uma mulher-desejo. Ensaiou durante dias frente ao espelho a estudar-lhe os gestos, o olhar, a pose para representar este ícone do erotismo. Durante a hora e meia em que esteve em estúdio, optou por cruzar a perna direita (em vez da perna esquerda, na fotografia original), por se ter lesionado recentemente no joelho. Mas a sua sensualidade não saiu lesionada. "Gosto do poder feminino que esta imagem erótica transmite. Neste papel estou a convidar alguém a entrar num mundo de contrastes que não é óbvio. É uma cartada difícil. É quase como se o meu olhar fosse a objetiva. Sou eu que disparo com o meu olhar, não o fotógrafo". Esta personagem tornou-se célebre no cinema em 1974, no filme "Emmanuelle", interpretado pela holandesa Sylvia Kristel, que protagonizou uma série de filmes eróticos franceses soft core baseados na personagem imaginada por Emanuelle Arsan, no livro original "The Joys of a Woman".

Sem tabus, este filme tornou-se um clássico do cinema erótico francês, foi mais tarde representado por inúmeras outras atrizes, e ficou famoso no mundo inteiro por chocar as mentalidades na época com atrevidas cenas de sexo e masturbação.

JOÃO CABRAL E AFONSO PIMENTEL
“A LEI DO DESEJO”

Ana Baião

Qual a história deste beijo? Pablo, um diretor de teatro homossexual, envolve-se com um assassino enquanto cria uma peça cuja estrela seria Tina, sua irmã transsexual, que mudou de sexo para manter um caso incestuoso com o pai. É este o estrambólico enredo que Pedro Almodôvar dirigiu em 1987, com os atores Eusébio Poncela e António Banderas como protagonistas. Um filme que valeu inúmeros prémios europeus e que possibilitou a Banderas dar nas vistas no mercado internacional e passar a ser um dos latinos mais apreciados em Hollywood.

Para reproduzir esta mesma cena gay, os atores João Cabral e Afonso Pimentel deitaram-se debaixo dos mesmos lençóis, trocaram piadas de circunstância, riram muito com a intimidade do momento até conseguirem ter a concentração necessária para recriarem o clima de sedução original.

O ator Afonso Pimentel, de 28 anos, até agora habituado a representar papéis de galã rebelde, comentou à boca do camarim que são papéis como este, que exigem mais composição, que constituem um desafio para um ator. "Não me importava de representar um papel deste género. No entanto, julgo que se o fizesse agora, não seria tão polémico junto do público como o foi na época. Os tempos já são outros e as cenas de amor homossexual há muito que fazem parte da ficção mundial." João Cabral, fã confesso de Almodôvar, elege outro filme que considera muito sensual: "O Pecado Mora ao Lado", de Billy Wilder, liderado pelo maior ícone sexual de todos os tempos, Marilyn Monroe.

MIGUEL GUILHERME E CATARINA WALLENSTEIN
“LUA DE MEL, LUA DE FEL”

Ana Baião

No segundo seguinte ao instante fotográfico, esta bela mulher derruba o homem da cadeira com um pontapé e, dominadora, vai a fundo nas mais obscuras profundezas da perversão sexual. Peter Coyote e Emmanuelle Seigner foram os atores originais deste drama explosivo de Roman Polanski, num papel aqui recriado por Miguel Guilherme e Catarina Wallenstein.
Para mimetizar a mesma relação erótica da cena original, Miguel Guilherme mostrou-se muito profissional em estúdio. Baixou as calças, pediu para o amarrarem com força e colarem-lhe com vigor o penso aos lábios para melhor representar a cena bondage. Catarina Wallenstein deu-lhe a melhor contracena na pele da mulher fatal com uma lâmina pronta a entrar em ação. Com tal disponibilidade dos dois, a fotografia fez-se sem dificuldade. Difícil, difícil foi Catarina aguentar tantos minutos com a bota em cima das pernas de Miguel Guilherme, assim como o doloroso momento em que o ator teve de retirar o penso do rosto.
"Este é sempre um repto engraçado para atores. E se o fotógrafo for bom é aposta ganha", rematou Miguel.

FICHA TÉCNICA: Produção Miss Suzie; Assistente de produção João Loureiro; Maquilhagem e cabelos Joana Moreira AGRADECIMENTOS: Miss Suzie (roupa); Atomic Tattoo Studio; Staples e Paula Simões (cadeiras); Drogaria São Domingos (navalha de barbear); Rei das Meias (boxer e meias); Ramos (casaco); www.electrolux.pt (frigorífico); Retrosaria Chique (roupão); Florista Ferreira Borges (flores); Carmina Viola (cortina); www.fugadoleo.com (carro)