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Crónica

Luís Costa Ribas

Pik Botha e a “barbárie” de Jonas Savimbi

Gallo Images/Getty

Estávamos em Junho de 2014, naquela transição do Outono para o Inverno, na África do Sul. Roelof ‘Pik’ Botha aceitara sentar-se para uma conversa, gravada em vídeo, na sua residência, em Akasia, no Norte de Pretória.

À chegada, fomos levados para um pavilhão de caça, nas traseiras, transformado em biblioteca, com prateleiras metálicas feias e cinzentas. Enquanto o Hugo Gonçalves tentava encontrar, a custo, um bom plano e iluminar a sala escura, passeei por entre milhares de livros que encobriam uma lareira enorme e os troféus de caça, embalsamados, paralisados no tempo.

Pik Botha, com um ar esgazeado, olhos avermelhados e uma camisola preta, chegou à sala mal disposto e com uma agenda clara: a lavagem da sua imagem, como a cara do apartheid no Mundo.

Botha fora um protegido de Balthazar Johannes "B. J." Vorster, conhecido como John Vosrter, Primeiro-ministro e Presidente da África do Sul e continuador entusiasta das políticas de apartheid de Hendrik Verwoerd.

Em parte para suavizar a oposição ocidental ao apartheid, a África do Sul envolvera-se na guerra civil em Angola, no Verão de 1975, em apoio da UNITA e da FNLA, contra os “comunistas do MPLA e os seus aliados soviéticos”.

O apoio à UNITA foi uma constante da política sul-africana nas duas décadas seguintes até à eleição de Nelson Mandela. Os rebeldes de Savimbi tinham um entendimento com a guerrilha nacionalista da Namíbia, SWAPO, mas puseram-lhe termo como condição para um relacionamento mais estreito com a África do Sul. Esta invadiu Angola repetidamente e as suas tropas combateram ao lado da UNITA, ou apoiaram-na com artilharia pesada, em muitas batalhas contra as FAPLA (exército angolano) e os cubanos.

Foi, pois, com desmedida surpresa que ouvi Pik Botha falar voluntariamente de Jonas Savimbi e do assassínio, às suas ordens, do dirigente rebelde angolano Pedro ‘Tito’ Chingunji, considerado um futuro potencial candidato à liderança da UNITA.

Referindo-se às revelações, então explosivas, do jornalista britânico Fred Bridgland de que Savimbi ordenara a morte de toda a família Chingunji, Botha segue para bingo: “Você saberá melhor do que eu quanto disto tudo é verdade. Mas ainda que apenas uma fracção seja verdade, devo dizer-lhe honestamente que os Americanos deviam saber, mas nunca nos disseram. Ocultaram-nos a verdade... Eu não sabia. E nunca teria nada a ver com um homem que exibia tão bárbara, vil e repugnante crueldade”.

E mais. À pergunta se lamenta, então, ter apoiado a UNITA e Savimbi, Botha desfia contas num rosário de lamentações: “Se isso é verdade, claro que lamentaria imenso. Não se pode apoiar um ser humano como esse. Não importa o que ele representa, se vive assim. É repugnante e não pode ser aceite. É impossível darmo-nos com um homem assim. É desumanizante, absurdo e repugnante”.

Porque razão estava Botha tão interessado em afastar-se de Savimbi? Na altura com 82 anos, o ex-ministro do apartheid revelou-me, também, ser comendador de Ordem de Mérito do Congo, crendo que tal seria suficiente para apagar uma vida dedicada à defesa da supremacia da raça branca. A repugnância do apartheid e a repugnância que atribuía a Savimbi assediavam-no, agora, ao passar o marco das oito décadas de vida e ao contemplar a sua mortalidade e o seu legado.

Quer então dizer que, se soubesse o que Savimbi fazia, que era um assassino repugnante, a África do Sul não o teria apoiado? inquiri.

“Não quero saber. Se você alcança um objectivo na vida baseado em tão repugnante imoralidade, como pode dormir descansado? Como pode acreditar em deus”?

E prossegue, jurando que “não tinha ideia de que ele era assim” e que rezava antes das refeições quando almoçava ou jantava com Savimbi.

Insisti querendo saber como teria a África do Sul alcançado os seus objectivos sem a UNITA. O governo sul-africano, sublinhei, apoiou Savimbi não porque ele era boa pessoa, mas porque precisava dele. Certo?

Pik Botha irritou-se. “Isso é completamente diferente porque não aconteceu e eu não posso mudar o passado. Não é bom que me venha agora confrontar com o que eu poderia ter feito. O que foi feito, está feito. Só lhe posso dizer que o teria rejeitado e teria de encontrar outra saída, é claro. E estou convencido de uma coisa: que a grande maioria do meu partido me teria apoiado na condenação de Savimbi nos termos mais severos. Isso garanto-lhe.”

Nos anos 90, Pik Botha era considerado uma espécie de “Savimbi whisperer”, o homem que conhecia bem o líder rebelde angolano e sabia falar com ele. Os boers também eram rebeldes e os dois entendiam-se para além do absurdo de Savimbi se considerar um nacionalista negro e Botha representar o único país no mundo com uma ideologia oficialmente racista. É impossível acreditar que Botha desconhecesse a barbárie de Savimbi. Os serviços de inteligência sul-africanos eram eficazes e tinham relações próximas com a CIA.

O passar dos anos levou-o a tentar persuadir o Mundo de que encontrara a salvação na rejeição do que fora o objectivo de uma vida inteira. Ao contrário de Robert McNamara, o secretário americano da Defesa nos anos 60, que pediu desculpa pela Guerra do Vietname, Botha culpou terceiros – Savimbi, americanos – e procurou na comenda congolesa a absolvição de uma vida política em defesa da repugnância do apartheid.

Estas linhas, escritas no momento e sem a possibilidade de uma reflexão mais profunda sobre a vida de Pik Botha, são necessariamente incompletas, mas ao ouvir a notícia da sua morte, foram o que, de imediato, me ocorreu.

Em Pretória, quando terminamos a nossa conversa, mostrou-me uma pequena montanha de exemplares do livro “Pik Botha and his Times” da autoria de Theresa Papenfus. Uma biografia laudatória. Autografou um exemplar e ofereceu-mo. “Não tenho nada que ver com esse livro. Não o financiei nem pedi para o escreverem. Mas gostava que o lesse”.