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Crónica

Crónica de Pedro Miguel Costa, enviado da SIC ao Brasil

Os dias incertos dos venezuelanos no estado menos populoso do Brasil

Emigrantes venezuelanos em Roraima, no Brasil

NACHO DOCE/REUTERS

Angeli nasceu na Venezuela há um ano. Brinca com as irmãs num relvado colado à Avenida das Guianas, na cidade de Boa Vista.

Tem caracóis que nenhum gancho se atreve a prender. Às tantas corre para mãe em sobressalto.

Entre os risos do divertimento, Angeli chora e quando o faz a boca sangra de forma aflitiva e abundante.

A mãe conta-me que a menina tem as gengivas em ferida, mal come, precisa de antibióticos.

Pediu-os no hospital de Boa Vista, capital do estado brasileiro de Roraima. Disseram-lhe que o sistema estava em baixo, não era possível entregar os medicamentos.

Daqui a pouco, há de assim deitar-se em sofrimento. E há de assim deitar-se ao lado dos pais num cartão em pleno passeio, sob os postes de eletricidade que iluminam as centenas de emigrantes venezuelanos, naquele lugar.

A família de Angeli é apenas uma de muitas que se juntam perto da Rodoviária Internacional da cidade.

Quem ao vender café, doces ou meias no passeio conseguir dinheiro que chegue, compra uma pequena tenda para a família. Quem não tiver sorte corre quando a chuva cair para os toldos das lojas ao redor. Correm os pais, as mães, os filhos, os idosos.

A maioria dos venezuelanos que fugiram para o Brasil passa dias incertos. Fugiram duma economia à beira do colapso para um estado, que por ser o menos populoso do Brasil, não tem condições para os acolher. Na principal maternidade da cidade, contam-nos que os médicos e enfermeiros não têm mãos a medir para dar à luz os filhos de quem saltou a fronteira. Há centenas nos cruzamentos da cidade a pedir um real em troca de uma limpeza de pára-brisas, às portas dos restaurantes pedem comida, ou dinheiro. As crianças pedem um doce.

Os habitantes de Roraima e Paracaíma, junto à fronteira, dão sinais de estar a perder a paciência. O estado onde vive 0.3% da população do Brasil sente saudades da paz de outros dias. Luis Borges, veio do Maranhão, há 23 anos. Pede-nos para falar. Conta que não aguenta mais.

Já não pode sair à rua à noite para apanhar ar porque são às dezenas os venezuelanos sem abrigo à porta tocando música alta até tarde, duas ruas abaixo as prostitutas, todas elas venezuelanas com menos de 30 anos, pedem 70 reais pela viagem. Luis Borges, conta-nos que está farto: "Estou a pensar até regressar ao Maranhão para não mais voltar".