Siga-nos

Perfil

Expresso

O silêncio de Pedrógão que levo comigo

Luís Barra

Começou como um trabalho, transformou-se numa missão. A história de como uma série de reportagens em Pedrógão Grande se colou à pele da jornalista

“Foi pau, foi pedra, foi o fim do caminho
Foi um resto de tronco, foi muito sozinho
Foi um caco de vidro, foi a morte, foi a Lua”

A música a que estamos acostumados não é bem assim. Também o incêndio de Pedrógão não foi bem assim como os fogos florestais que todos os anos queimam Portugal e aos quais o país parece já se ter acostumado. É hora de recomeçar, e recomeçar é começar outra vez, não é esquecer, apagar, anular. Como a pele nova que restitui a pele queimada, vem com marcas. O recomeço é lento, frágil. E com marcas. Há quem diga cicatriz, há quem lhe chame memória. Sob a árvore ardida desponta folhagem nova. Por cada eucalipto queimado um novo nasce. Nem sempre o que surge é uma boa nova. À vezes aparece torto, enviesado. Pode nascer violento, bruto. Cada ressurgimento traz em si surpresa, o inesperado. Morreram 66 pessoas no grande incêndio de Pedrógão Grande. Passado um ano, a marca parece ter ficado gravada na pele de Portugal. Ficará mesmo, ou vai esvair-se em cansaço e comodismo?

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito para Assinantes ou basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso, pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)

  • A máquina do tempo: Pedrógão um ano depois (documentário e reportagem multimédia)

    Um ano é nada, 17 de junho de 2017 parece ontem. E para quem o viveu, 17 de junho de 2017 é agora. Sobre Pedrógão já se mostrou tanto e está quase tudo por mostrar. Porque há silêncios que demoram a desaparecer, queimaduras na pele que lembram aos sobreviventes o que outrora foram e já não são. “Não penso nem no passado nem no futuro, lamento o meu presente”, hão de dizer-nos. O Expresso passou um ano nos concelhos afetados pelos incêndios de 17 de junho e entregou câmaras de filmar a crianças diretamente afetadas pela tragédia, dando-lhes total liberdade para filmar o que quisessem. O trabalho inclui ainda testemunhos de feridos graves que quebram o silêncio da maneira possível. Um ano depois, mostramos os vivos sem esquecer os 66 que o país perdeu. Portugal tem de saber

  • “O que é isto, mamã?”

    Há seis meses, a morte; daqui a uma semana, Natal. A 17 de junho, fogo; a 25 de dezembro, ausência. O tempo parou na região afetada pelo Grande Incêndio de Pedrógão. A dor não: lá, as pessoas não conseguem falar noutra coisa. Incluindo aqueles que, depois de seis meses de silêncio, falam ao Expresso pela primeira vez sobre a perda e sobre quem perderam. Entre lá e cá, o mesmo país. Entre lá e cá, a lembrança e o esquecimento. 66 pessoas morreram e tudo mudou. Mas continua tudo na mesma