Siga-nos

Perfil

Expresso

Brasil

Tanta gente parece ter-se esquecido da Torre das Donzelas

Ana, Maria, Rita, Rioko, Rose, Elza, Dulce, Nair, Leslie, Eva, Robêni, Guida, Marlene, Maria, Nair, Ieda, Dilma, Lenira, Ana, Ilda, Iara, Ana, Darci, Vilma, Telinha, Sirlene, Nadja, Liane, Maria, Lúcia, Janice. Em comum: foram detidas, humilhadas e seviciadas. Nenhum dos homens que as torturou foi preso. O chefe deles, Brilhante Ustra, tem um admirador chamado Jair Bolsonaro. Estas 31 mulheres receiam que o Brasil se tenha esquecido da Torre das Donzelas, onde na verdade ninguém era donzela

Ana França

Ana França

Jornalista

Cela da Torre das Donzelas recriada para o documentário com o mesmo nome que se estreou no Brasil este sábado, um dia antes da eleição de Bolsonaro

“O tempo anda negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável . O país está sendo varrido por fortes ventos. Máximas de 30º graus em Brasília, mínimas de 5º em Laranjeiras.” Estamos a 14 de dezembro de 1968 e é este o boletim meteorológico do “Jornal do Brasil”. É uma mensagem. Tinha fechado o Senado por tempo indeterminado e o Brasil entrava no deserto da sua ditadura militar.

Ia começar a vaga de prisões e torturas que traumatizaram milhares de brasileiros para sempre. Acabou em 1988, há 30 anos apenas. Para quem viveu esses tempos é difícil entender como tanta gente parece ter-se esquecido deste tempo e ter escolhido este domingo para presidente do Brasil Jair Bolsonaro, um ex-militar que, desassombrado, defende os tempos de “verdade” e “estabilidade” da ditadura.

Ana Miranda foi torturada pelo temerário coronel Carlos Brilhante Ustra, um dos principais torturadores da ditadura, tal como Dilma Rousseff, antiga presidente do Brasil, o foi. Rita Sipahi também e muitas, muitas dezenas de mulheres que tinham um calabouço só para elas, a chamada "Torre das Donzelas". Este sábado, apenas um dia antes desta eleição, a documentarista Susanna Lira estreou um filme com o mesmo nome no qual reconstitui as histórias destas mulheres e as leva para dentro das memórias que durante anos não quiseram absorver como suas. Agora já querem. Rita Sipahi, pelo menos, só se libertou no momento em passou a falar da prisão. Tem 80 anos, é advogada e passou 11 meses presa. “O filme é um testemunho que pode criar, a partir da comunicação com o público, uma situação de fazer a pessoa refletir naquela realidade que não tinha pensado antes. Nesse processo, ambos - público e pessoa - transformam-se”, diz ao Expresso Rita Sipahi.

Ouve-se o risco rouco de um giz na ardósia. São as mulheres a desenhar a planta da prisão. Dilma diz que a porta pela qual entrou para o seu tormento era mais baixa que ela. Começava logo ali o esmagamento do espírito de que mais sobreviventes iriam falar. O humor da ex-presidente está inalterado pela provação da dor. “Ali era aquilo a que chamávamos a cela das velhinhas. Nossa, eram todas muito mais novas do que eu sou hoje”, ri-se Dilma no filme.

“É muito grave o que está acontecendo, porque é um retrocesso muito grande num país que se vinha afirmando um estado democrático, que vinha conquistando muitas políticas e em que havia para muitas pessoas a perspetiva de um caminho que teria continuidade - e de repente há este retrocesso enorme”, conta ao Expresso Rita Sipahi. “Estamos a assistir em todo o país às declarações de uma pessoa totalmente irresponsável que não podia ser candidato à presidência da República, que defende a tortura, a perseguição aos negros, às mulheres, homossexuais, enfim.”

Mais sintomático ainda é que nem nesse tempo “o ódio não era tão óbvio nas ruas”, diz a advogada. “Nos tempos da ditadura os militares não saíam na rua ameaçando minorias. O cara [Bolsonaro] assume! O grande problema que eu vejo é que as instituições já estão minadas por eles. O golpe vem sendo dado há algum tempo.” Benedito Tadeu César, professor e analista político da Universidade Federal de Rio Grande do Sul, concorda. “Há forças poderosas dentro do Ministério Público, do sistema judicial, que estão apoiando o Bolsonaro. Há um antipetismo muito forte nessas instâncias.” E sobre o ódio óbvio também: “Nunca houve este ódio de maneira tão explícita”. Mas o preconceito, considera, sempre fez parte da sociedade: “O preconceito contra negros e homossexuais, a submissão feminina, é muito forte. Faz parte da cultura brasileira. Não podemos esquecer que somos uma sociedade esclavagista, uma cultura esclavagista e temos uma sobrevivência esclavagista até hoje que são as empregadas domésticas. O Brasil é o país do mundo que tem mais empregadas domésticas - mais do que a Índia”. Parece um exemplo demasiado circunscrito para justificar tanto “antipetismo” mas, na opinião do professor, não é. “O direito trabalhista das empregadas domésticas, com carteira, com proteção social, só foi garantido agora no governo de Dilma. Temos toda uma classe média que cresceu neste período e que agora se viu ameaçada. Os direitos trabalhistas, a valorização dos salários, tornou muito difícil para a classe média a manutenção das suas empregadas. E isto virou-se contra o PT.”

O legado da impunidade

Margarida, uma das mulheres da “Torre das Donzelas”

Margarida, uma das mulheres da “Torre das Donzelas”

A causa da disseminação aparentemente sem consequência deste discurso de ódio - que, em certas cidades, já se solidificou ao ponto de se transformar em violência física - é que os responsáveis pelos atos “mais cruéis” da ditadura nunca foram punidos. “O que estamos a ver agora é que os governos não conseguiram entender a causa fundadora desta violência, que está diretamente ligada à impunidade dos torturadores”, diz Rita Sipahi. Quer dizer que quem fez o que fez e não foi preso dá um exemplo de impunidade aos que vêm atrás de si com ideias semelhantes. “Isso. Eles falam com propriedade porque nada aconteceu com outros semelhantes a eles. E eles estão todos por aí. Um exemplo: o facto de Bolsonaro elogiar o maior torturador da ditadura, o coronel Brilhante Ustra. Como pode uma pessoa fazer assim a apologia da tortura? Porque ela não sente nenhum risco nisso.”

É a hora da refeição no Presídio Tiradentes, onde ficava a ala feminina conhecida como Torre das Donzelas. As mulheres, hoje todas com mais de 60 anos, sentam-se à volta da mesa feita à imagem das que existiam nas celas e relembram como era a comida. “Vinha um latão assim desse tamanhão, sujo já para lá de encardido. Um alumínio amassado, era um tambor grande de comida. Os bichos para se defender ficavam boiando mas já mortos coitados”, diz uma das presidiárias.

“Houve um momento em que me colocaram numa sala, arrancaram toda a roupa e deram-me choques na vagina. Com os pedaços da roupa travaram-me a língua porque ela começa a enrolar. E aí entra um torturador e manda parar. Me lembro de ouvir um grito: ‘Pára! Pára!’. Aí me levaram a tomar uma injeção, eu tentei resistir porque não sabia o que era. Não faço ainda ideia do que era. Sei que fiquei arrasada”, conta Rita, que só há pouco começou a falar dos tempos na Torre.

Mas falar “me reforçou essa convicção muito forte de que tortura não pode mais acontecer, a gente tem de combater, tem de continuar a falar, mas a tortura não me destruiu”. Porque o que a tortura quer não é apenas retirar informação de uma pessoa. “O que eles queriam mesmo não era que a pessoa apenas falasse, isso hoje está provado, a tortura não é só para você falar, é uma forma de destruição. A sua dignidade destrói-se. Os valores do seu torturador passam a prevalecer. A ideia é arrasar a noção de individualidade, de pessoa. É um crime que não prescreve, é de lesa humanidade”, argumenta Rita, que continua com muita vontade de lutar contra o que se está a passar no Brasil. “As mulheres e os homens que continuam militando têm uma defesa maior nesse momento pois sabem que tudo o que nós fizemos tem um sentido, continua enraizado na sociedade. Há uma resistência e a gente percebe que as coisas não se perderam. O facto de já ter vivido e ter sobrevivido e ter continuado resistindo e de ter consciência crítica da História dá-me força.”

Ana Bursztyn-Miranda, presa por três vezes num total de quatro anos, está menos esperançada que Rita. “Só de imaginar que pode acontecer com os sem-terra, com os indígenas, os pobres, com a cultura, a saúde, a educação, me dá um nó. A gente não tem ideia se vai ser de uma vez ou se vai ser aos poucos”, diz ao Expresso a farmacêutica aposentada. Brilhante Ustra foi um dos seus torturadores. Um homem que o homem que acabou de ser eleito elogia publicamente.

“Eles na altura negaram tudo, negaram tudo, negaram tudo”, diz Ana. “Agora Bolsonaro faz discursos na Avenida Paulista dizendo o mesmo que nós já sabemos que aconteceu mas que sempre foi negado pelos militares.” A incerteza é o que mais a perturba: será tudo igual ao que foi? “Não, não é a mesma coisa, até porque, por agora, só temos as coisas de que ele fala. Não sei o que vai acontecer mas sei que já há violência. Há pessoas que já foram mortas por gente que se diz bolsonarista. Isso é real. As pessoas ouvem na rua outras a dizer que finalmente os bandidos vão ser mortos aos montes. Mas eu pergunto ‘vai haver milícias?’ e ‘quem é que vai ser considerado cidadão merecedor de respeito das instituições?’. Um homossexual se calhar não, um negro ou um indígena se calhar também não.” Mas ainda tem mais perguntas na cabeça: “Existe um movimento pró-fascista mas não é igual àquela época. Não temos a certeza se o Exército está todo com ele, se são só os mais velhos, se ainda se veem como líderes do país, se querem tomar poder civil”.

Um fio de lã entra pelo buraco de uma agulha. É mais largo do que os outros, porque é lã. As mulheres fazem tricô e peças de roupa de lã. “Nós fazíamos as nossas finanças com isso. Você continuava revolucionária. Se você estava ajudando a família com o seu trabalho, a família de um operário, então há a noção do colectivo, de que revolucionariamente nós estamos vivas.”

Rita foi presa em 1971 durante um dos períodos mais negros da ditadura, a regência do presidente Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). Fazia Direito na Universidade de Fortaleza. Militava na Ação Popular, no braço de esquerda de inspiração católica que não defendia a luta armada. Mas isso não a tornou, nem ao seu marido, menos perigosa aos olhos do regime. No Brasil, diz, todos os movimentos de resistência comunista fora destruídos nesta altura, ou pelo menos levaram um enorme tombo nos seus números. “Em quatro anos, os militares que estavam no poder conseguiram, através das suas organizações paralelas, inclusivamente clandestinas, acabar com todo o movimento. No fim eles já não prendiam, matavam as pessoas, por isso é que tem muitos desaparecidos políticos. Eles tiveram uma ação diferenciada da América Latina, no sentido da competência de exterminar mesmo. De pôr um ponto final, de tentar abafar todo o movimento revolucionário de resistência que eles identificavam como terrorismo.”

Terrorismo? Terroristas? “É essa mesmo a palavra que Bolsonaro utiliza hoje para os bandidos, para as pessoas que supostamente usurpam as terras alheias, justificando toda e qualquer ação, incluindo a impunidade total dos policiais que matem pessoas, coisa que ele quer instituir”, explica Ana. O medo, diz Rita, está a voltar: “É como se de repente a gente tivesse sido colocada à beira do abismo, de um precipício, e as pessoas resistissem e resistissem para não cair. O medo começa a aparecer outra vez, o medo que a ditadura provocou durante anos”.

As histórias que escondiam a verdadeira história

Rita tinha consciência que ia acabar por ser presa. “Eu estava no Rio quando recebi um recado de alguém que estava preso perguntando para mim ‘se eu fosse presa, que história ia contar, que versão ia dar, o que ia dizer para os torturadores?’ e isso foi muito importante. Não podia contar que era de tal organização, ia dizer, por exemplo, que tinha conhecido fulano quando ele foi a minha casa procurar emprego quando regressou da Europa e vinha desempregado. Ia contar que o meu marido era funcionário do Banco de Investimento, por exemplo. Ia contar, por exemplo, que não era da Ação Popular, mas que conhecera pessoas que o eram num seminário de cultura no Recife.” Cada um contava a história que achava mais credível, apesar de muitas vezes os torturadores virem armados com provas que faziam toda a detalhada história cair por terra. Aí a tortura era ainda pior. “Na altura, todas as pessoas que faziam parte dessas organizações comprometiam-se a tentar não falar durante 24 ou 48 horas, dependendo da organização. E isso facilitou. Apesar de a tortura ter sido mais intensa. Ninguém foi preso por minha causa e isso é um certo alívio para mim.”

E quando descobriam, como era? “Feio. Isso aconteceu comigo. Porque quando me levaram ao endereço que eu lhes tinha dado supostamente para prender duas jovens, as pessoas já tinham saído do apartamento. E nesse apartamento já só havia revistas e coisas que sobravam. Lembro-me de que havia também umas fotos comprometedoras e eu joguei a revista em cima das fotos para elas não as verem. Quando voltei, me trouxeram de volta, xingaram-me: ‘Puta, sua filha da puta!’. E torturaram-me ainda mais porque achavam que eu sabia muito mais porque tinha-os enganado durante tanto tempo.”

Eram torturas gravíssimas, diz Rita. “As pessoas chegavam à torre, vindas da tortura, totalmente fora de si. A Ângela [uma das mulheres a quem não podemos dar apelido] quando chegou da tortura não conseguia entender nada do que se dizia à volta dela, estava num surto psicótico, foi terrível. Ela foi muito, muito, muito torturada. Ela não conseguia tomar banho, mexer-se. Ela só ficava na mezzanine a olhar para baixo e a gente se revezava junto dela para ela não se matar, em nenhum momento ela podia ficar sozinha.”

Os passos incertos do futuro

Quem perde ainda mais que Fernando Haddad é o centro, na opinião de Benedito Tadeu César. “O crescimento do Haddad, que sobe por volta de 10 pontos na segunda volta, mostra que o centro está estilhaçado. O que tem de ser começado a ser trabalhado imediatamente é a construção de uma grande frente democrática que inclua o centro. Não pode ser uma frente de esquerda”, considera. “Agora vai depender de como é que a liderança dos grandes partidos e dos movimentos sociais vão reagir. Houve o ressurgimento nestes dias dos movimentos sociais, da sociedade civil, que não se tinham manifestado anteriormente. Então, se essas entidades todas começarem a articular-se num movimento de resistência, é possível com o tempo atenuar as perdas.”

Ainda não é possível saber o que Bolsonaro vai ou não conseguir fazer. O “El País” escrevia no fim da noite eleitoral que o Supremo seria “o dique” contra as políticas mais radicais do novo presidente, mas Peter Pál Pelbart, professor Departamento de Filosofia e no Núcleo de Estudos da Subjetividade da Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Universidade Católica de São Paulo, conseguiu explicar, num texto que, como tanto outro material menos inteligente que este, se tornou viral durante a campanha, uma forma de olhar este novo capítulo como uma oportunidade. “Eu acho que tudo isso que está acontecendo é positivo no macro, embora esteja sendo dificílimo no micro. Esse ódio, toda essa ignorância, essa violência, isso tudo já existia ao nosso redor. Agora é como se tivessem tirado da gente a possibilidade de fingir que não viu. Caíram as máscaras. O Brasil é um país construído em bases violentas, mas que acreditou no mito do ‘brasileiro cordial’. Um país que deu amnistia a torturadores e fingiu que a ditadura nunca aconteceu. Que não fez reparação pela escravidão e fala que é miscigenado e não é racista. Nós fechamos muitas feridas históricas sem limpar e agora elas inflamaram. O lado positivo é que, agora que estamos todos fora dos armários, a gente acaba descobrindo alguns aliados inesperados. Percebemos que se há muito ódio, há ainda mais amor.”