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Expresso

Antes pelo contrário

Era só mais um bocadinho

Portugal foi eliminado. Uma boa notícia para quem não gosta de bola. Uma má notícia para todos os restantes. Estávamos alienados com o futebol e esquecíamos a crise? Sim. E este intervalo soube tão bem.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Há uma minoria que não gosta de futebol. Para essa minoria, mesmo que não o digam, a derrota de ontem foi uma boa notícia. Eu compreendo-os. Nada mais desesperante do que ver um país parado, excitado, obcecado, vidrado com uma coisa que não nos interessa. Liga-se a televisão e é Mundial. Muda-se de canal e é Mundial. Vai-se ao café e é do Mundial que se fala. Chega-se ao emprego e o Mundial é o tema de conversa.

Compreendo esta angústia do português solitário que não gosta de bola. O pior é quando se começa a racionalizar a coisa.

Racionalizar a nossa entrega à selecção e a nossa depressão com a sua eliminação é estúpido. Diz-se que as vitórias dão bom nome ao País. É verdade que não fez mal ao ego nacional ver os títulos dos jornais internacionais depois da goleada com a Coreia, em tudo diferentes das referências habituais dos jornais económicos a Portugal. Mas os bons resultados futebolísticos não têm qualquer efeito na imagem do País. Diz-se que mostram que somos capazes do melhor. Não mostram coisa nenhuma, porque uma selecção não é retrato de um País. Nem a França é a tragédia que foi a sua selecção, nem a Argentina tem o génio da sua equipa. Diz-se que ajuda a unir o País. É uma falsa unidade em torno de um objectivo demasiado simples para contar: ganhar um jogo, depois outro, depois outro.

Mas racionalizar o desprezo pelo futebol não é melhor. O mais comum é criticar a alienação a que o povo se entrega enquanto o País se desmorona. E é aí que eu perco a compostura. Esta ideia bem portuguesa de que quando tudo está mal nos devemos entregar à depressão colectiva é absurda. Como se ela resolvesse alguma coisa. Como se a alegria fosse um crime de lesa Pátria. Uma irresponsabilidade.

Desde que nasci que vivo em crise quase permanente. A palavra já quase se limita a traduzir a normalidade. E, no entanto, durante estas crises cíclicas fui-me divertindo. Num País onde grande parte dos portugueses vive mal, há alguns luxos que não se dispensam. As pequenas alegrias inconsequentes são um deles. Chamem-lhe alienação, se quiserem. Mas sabe bem. E para quem quase tudo é mau, umas coisas saberem bem de vez em quando não há de ser um crime. O intervalo da depressão nacional podia bem ter durado mais uma semana.