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Expresso

Antes pelo contrário

Encalhados no silêncio

Este texto é sobre um filme: "O segredo dos seus olhos". É sobre memórias, amores e injustiça. Mas pode ser sobre a necessidade dos povos revisitarem os crimes do seu passado.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Queria falar-vos de um filme. Chama-se "O segredo dos seus olhos" (Juan Jose Campanella), é argentino e ganhou o Oscar para melhor filme estrangeiro. A sua suavidade pode ser confundida com facilidade. Um erro.

Um funcionário judicial e uma magistrada vivem durante anos uma paixão platónica nunca consumada. Habituam-se a viver assim, com palavras por dizer, apenas denunciando-se pelos olhares. Sendo uma paixão que não se confronta consigo mesma nunca chega a consumir-se. Está ali parada, encalhada. Parece-me que nem chega a perturbá-los. Acompanha-os apenas.

Um colega do protagonista, Pablo Sandoval (Gullermo Francella), é alcoólico. Vive, também ele, uma paixão que o degrada. Não a enfrenta. Está apenas encalhado nela. Vive-a e pronto.

Um dia, Bejamin Espósito (Ricardo Darín) tropeça num crime. Violação seguida de homicídio. Talvez pela brutalidade do que vê, talvez pela beleza da vítima, talvez pela paixão que ela vivia com o seu marido recente, aquele caso torna-se numa obsessão. Acabará por encontrar o culpado - mais uma vez é o olhar que denuncia - e por conseguir a sua condenação. Graças a uma paixão do criminoso, que o leva a ser imprudente: o futebol. Aliás, essa imprudência oferecerá ao filme uma sequência para a antologia do cinema.

Só que o violador homicida será solto para trabalhar para a "tripla A", a Aliança Anticomunista Argentina, grupo paramilitar que recuperava criminosos para os usar na repressão a activistas de esquerda. Isto passa-se durante a Presidência da Isabelita Perón, última mulher de Juan Domingo Perón e sua sucessora no poder entre 1974 e 1976. O governo de Isabel tinha forte presença da extrema-direita. A mesma que viria a apoiar o golpe da Junta Militar de Videla. Voltando ao filme: Espósito e a magistrada terão de fugir para não sofrerem as consequências de investigarem um operacional da "Triplo A". O amigo alcoólico será quem se sacrifica por eles.

Revoltados mas resignados, magistrada e funcionário refazem as suas vidas durante aquela que foi uma das mais violentas das ditaduras latino-americanas. Cada um a sua. Durante 25 anos passam por ela, numa "vida cheia de nada". O viúvo da mulher assassinada também parece conformado. Mas não esquecem nem o crime, nem as suas paixões por resolver. Não esquecem a injustiça.

Até que, 25 anos depois, já em democracia e no começo do ocaso das suas vidas, tudo regressa: a injustiça do crime por punir e o seu amor sereno. O oficial de justiça revista o passado para escrever um livro. E acaba por descobrir que houve quem tivesse tratando de fazer, pelas suas próprias mãos, a justiça que o Estado não fez. E descobre que ele próprio não se conformou.

Não vos conto o fim do filme que ainda está em exibição. Para além da sua simplicidade comovente, para além das interpretações magníficas de Ricardo Darín e Soledad Villamil, vale a pena prestar atenção a esta história sobre a memória e o silêncio. Para responder à pergunta: e se tivéssemos feito alguma coisa para ser diferente? E o que podemos fazer agora para seguir em frente?

O filme não é sobre política. Não é sequer sobre o amor (talvez mais sobre paixões), apesar de ser por aí que é promovido. É sobre a memória, o esquecimento e o silêncio. Mas também pode ser visto, se quisermos (os bons filmes têm a capacidade de nos deixar espaço para o que queremos), como uma metáfora da história da Argentina. Não por acaso, começa nas vésperas da ditadura militar e acaba no período democrático em que os argentinos tentam reparar os crimes do seu passado.

Espósito representa uma geração marcada pelo medo e pela repressão. E desse ponto de vista, podia ser em Portugal, em Espanha, na América Latina ou na Europa de Leste. Como nos relacionamos com os nossos silêncios, com a justiça por fazer, com as suas vítimas esquecidas?

Há dez anos que muitos espanhóis fazem o mesmo que Espósito: revistam o seu passado para o poder ultrapassar. Graças à lei da memória histórica de Zapatero ou a homens como Baltazar Garzón, confrontam o silêncios e a indiferença. Já aqui escrevi sobre isso.

O assunto é pouco popular. Porque a maioria prefere sempre o consenso do esquecimento. Mas quando esquecemos só o fazemos na aparência. "Quem vive fixado na sua memória vive com muitos passados e nenhum futuro", diz (cito de cor), sem acreditar, uma das personagens. É falso. Quem não leva a sério a memória vive apenas a ilusão de ter futuro. Porque os confrontos sobre o passado são sempre confrontos de hoje. São sobre nós em qualquer tempo.

A Argentina fez o seu, e com que dor. O Chile deixou-o por fazer e continua encalhado em muitos equívocos. A Espanha está a tentar fazê-lo. Portugal nunca o fez. E por isso confundem-se com tanta facilidade vítimas e carrascos, como se fossem todos feitos da mesma massa.

Parece que meio século de ditadura é coisa do passado. Não é. É constitutivo do que somos enquanto povo. Parece que a democracia e a liberdade são irreversíveis? Parece. Mas ainda estamos encalhados nessas memórias nunca resolvidas. Meio século de ditadura ainda se sente em muitos cantos da nossa identidade. Porque não o revisitamos para o resolver.